A hipótese Marina Silva é viável

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Publicado quarta-feira, 20 de junho de 2018 as 15:03, por: CdB
O PT ter apoiado e/ou financiado Renan, Sarney, Cunha e Bolsonaro está sempre perdoado, são “ossos do ofício”. Agora, Marina ter apoiado o Aécio — noooooossa, que pecado horrível e imperdoável.
Marina precisa reforçar sua equipe se quiser ganhar

Até agora, estou desanimado com o rumo que a Marina Silva está dando à sua campanha e os caminhos que a Rede travou até agora. Porém:

a) agora a esquerda que apoia ou quer apoiar Ciro Gomes está sentindo na pele os dois pesos e duas medidas do petismo na política de alianças. Segundo essa visão, o PT ter apoiado e/ou financiado Renan, Sarney, Cunha e Bolsonaro está sempre perdoado, são “ossos do ofício”. Agora, Marina ter apoiado o Aécio — noooooossa, que pecado horrível e imperdoável. O engraçado é que não só todo mundo já tinha jogado pedra muito antes do apoio a Aécio (ou seja, não fez diferença alguma), como inclusive o PT já apoiou o próprio Aécio em MG;

b) todos os candidatos falam merda e/ou dão declarações ambíguas, infelizes ou que não atingem o nível que boa parte do público gostaria, porque candidatura majoritária é isso. Já vimos onde termina uma candidatura “lacradora” com Luciana Genro em 2014, que realizou todos os sonhos da esquerda em declarações bombásticas e não chegou a 5%. Mais vale analisar um projeto político por um perfil mais global que recortar essa ou aquela declaração/fato infeliz;

c) dizer que Marina é “neoliberal” até dá pra dizer, desde que se assuma que Lula também é. A visão econômica de Marina Silva é rigorosamente igual ao Lula da prática. Seu plano é seguir o que mais deu certo no Brasil — o período de 2002-2008 que gerou o maior ciclo de crescimento contínuo até que o desenvolvimentismo implementasse uma nova matriz e fracassasse nos seus próprios termos. E veja que eu não concordo com isso, mas só para lembrar que todo mundo comemorou a capa da Economist e o grau de investimento, na época, e que Lula inclusive sugeriu que Henrique Meirelles fosse o ministro da Fazenda da Dilma II. Aliás aliás aliás, não duvido que um governo Lula III – se fosse possível – continuasse com Meirelles na Fazenda. Quem segue o mínimo realismo político sabe bem que esse arranjo seria bem possível se Lula estivesse realmente no páreo.

Enfim, a candidatura da Marina até agora parece desgovernada e errática, especialmente nas alianças, mas segue competitiva e, em caso de eleição dela, acho que saímos no lucro.

Sobre o descontentamento geral

Entendo perfeitamente a necessidade de não reprimir a revolta da população e saber dar uma tradução à altura para esse descontentamento como estratégia necessária para a sobrevivência de um segmento político que vive exatamente da ruptura com o status quo e transformação social.

Acho que só temos que cuidar para não cometer o erro simétrico inverso: atribuir uma bondade inerente a qualquer multidão, ignorando suas demandas naquilo que realmente pedem. Esse paternalismo seria o inverso simétrico daqueles que apontam a “ideologia” onde não gostam. Para afastar isso, toda revolta seria legítima e qualquer contestação do status quo automaticamente estaria validada. Da rejeição da negatividade elitista ou vanguardista, passa-se à afirmação irrestrita romântica ou ingênua (ou simplesmente ao wishful thinking).

Com isso, mais uma vez se desperdiça o que a teoria do fascismo (Adorno, Reich, Deleuze, Guattari etc.) posterior à Segunda Guerra constatou: os oprimidos desejaram o fascismo — e é preciso entender como se forma essa subjetivação que voluntariamente se entrega à servidão, à vontade de obedecer.

Apenas transformar os enunciados tomando-os como epifenômenos de um mal-estar generalizado não nos tira do mesmo problema de falar por eles, assim como tampouco resolve o problema de que o “pessimismo desorganizado” não leva a resultados apreciáveis. Esse me parece um dos pontos fracos da tentativa de ver no populismo uma alternativa para o momento. Acho que a resposta não é por aí. (Textos de Moysés Pinto Neto publciados originalemente no Facebook)

Moysés Pinto Neto, doutor em Filosofia pela Universidade Católica do Rio Grande do Sul, professor na Faculdade de Direito da Universidade Luterana do Brasil, Porto Alegre.

Direto da Redação é um fórum de debates, editado pelo jornalista Rui Martins.

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