A ameaça nazista totalitária

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Publicado segunda-feira, 20 de janeiro de 2020 as 20:34, por: CdB

Roberto Alvim saiu do governo por ter pronunciado, num vídeo, um discurso nazista. Na verdade, quis ser mais realista que o rei e pagou sozinho por sua falta de tato. Em outras palavras, disse alto e bom som o que não é segredo em Brasília – o governo Bolsonaro de extrema-direita tem pendores nazifascitas. Agora ficou bem claro, a imprensa internacional publicou com destaque, só continua ignorando quem quiser ou tiver interesse. Porém não é uma surpresa: já tivemos Plínio Salgado e existe muita gente ainda admiradora de Hitler, no Brasil. (Nota do Editor)

Por Danton Rosado, de São Paulo:
Uma extrema-direita nazifascista no poder

O capitalismo é intrinsecamente totalitário, com sua vontade sendo imposta de três maneiras (de modo independente ou simultâneo, conforme as circunstâncias o exijam):

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— o domínio econômico;
— a manipulação da vontade popular; ou
— a força militar.
Em 1919, um ex-cabo do exército alemão, ressentido pelo derrota alemã na 1ª Guerra Mundial, filia-se ao obscuro Partido dos Trabalhadores Alemães.  Em 1920 o nome foi um mudado para Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães.
Os anos seguintes foram terríveis para o povo alemão, obrigado a enfrentar um processo inflacionário que praticamente destruiu a sua moeda; e a arcar com os pesados ônus que lhe foram impostos por seus adversários em razão da derrota na guara.
Quando a Alemanha começava a dar tímidos sinais de melhora, a grande depressão de 1929 a privou dos créditos externos de que necessitava para levar adiante o processo de estabilização de sua economia, inutilizando os esforços dos anos anteriores e provocando grande frustração popular.
O discurso fácil da redenção xenófoga alavancou então o crescimento do nazismo, que defendia a riqueza para os nacionais e atribuía à tolerância da República de Weimar para com a corrupção e grupos étnicos específicos (judeus, ciganos e eslavos) e ideológicos (os comunistas) os males que atingiam o povo alemão.
O Partido Nazista se autoproclamava como pragmático; disciplinado; viril; eficiente; defensor intransigente das virtudes do trabalho abstrato, capaz de resgatar o orgulho alemão oriundo dos atributos étnicos da raça ariana.
Com tais bandeiras e um intenso programa de comunicação de massa por via radiofônica, foi, paulatinamente, ganhando força política, até que, em 14 de julho de 1933, completou a conquista do Estado, mediante decreto-lei cujo teor era o seguinte:

“O Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães se constitui como o único partido político da Alemanha. Aquele que tentar manter ou formar um novo partido será punido com trabalhos forçados por três anos ou com prisão de seis meses a três anos, se a ação não tiver sujeita a penalidade maior, em conformidade com outros regulamentos.

Daí em diante o que se viu foi um crescente ufanismo da população alemã, deslumbrada com a melhora econômica decorrente da grande eficiência do povo alemão no seu processo pós-segunda revolução industrial fordista, alardeada como mérito nazista pelo ministro da Propaganda Joseph Goebbels.
Na Alemanha se praticavam todos os tipos de arbitrariedades ao arrepio da lei, sem que o coro dos contentes visse naquelas atrocidades qualquer problema.
Algo parecido com os anos do falso milagre brasileiro dos tempos de Médici, nos quais a população, deslumbrada com o crescimento econômico insustentável, fazia ouvidos moucos para a tortura e morte de quem ousasse questionar o governo militar e suas práticas absolutistas.
O resultado dessa aventura alemã totalitária, nascida com a eleição de Hitler e de parlamentares do seu partido, todos conhecemos: 50 milhões de mortos, correspondentes a 3% da população mundial de então.
Aqui no Brasil tivemos algo parecido em 2018 e que, infelizmente, está em curso, seja para nossa passividade cumpliciada, ou para nossa estupefação.
Um pretenso outsider, favorecido por acasos  e praticando ilegalidades por atacado, viu cair-lhe a presidência da República no colo, embora fosse um cidadão:
— sem qualquer ligação comprometimento com os vários partidos pelos quais se elegera várias vezes deputado federal;
— portador de um discurso nacionalista-liberal (uma filosofia tão contraditória no seu enunciado quanto o nacional-socialismo de Hitler) de combate à corrupção;
— fervoroso adepto do policiamento ostensivo e contumaz autor de ameaça de morte e prisão aos que saíssem de sua linha programática raivosa e genérica contra tudo que aí está; e
— de um primarismo chocante em termos de conhecimentos gerais (apesar de astuto como todo ilusionista).
Utilizou, para tanto, um discurso que calou profundamente na maior parte do eleitorado, desinformada sobre a verdadeira gênese de seus sofrimentos; e também numa classe média inconformada com a achatamento de poder aquisitivo.
A partir daí, ele passou a aparelhar (ou desaparelhar) furiosamente o Estado, contando com a cumplicidade de outros medíocres como ele, pinçados para sua equipe de governo.
Não é de estranhar-se que um Roberto Alvim da vida, patético secretário de Cultura do governo federal, não haja tido o menor pejo em reproduzir num discurso público as palavras de Joseph Goebbels propondo diretrizes para as artes alemãs, ao som da ópera Lohengrin, de Richard Wagner (uma das preferidas de Hitler), cena emoldurada por um retrato do presidente Boçalnaro, o ignaro
Como demonstramos numa recente série de cinco artigos, estamos saindo de um ano terrível, marcado por:
— crescimento pífio do PIB (agora, em face dos resultados a menor de novembro para a indústria e o comércio, a previsão foi reduzida ainda mais e o resultado final deverá ser de mísero 1,0%);
— crescimento para 80% da nossa dívida externa em relação ao PIB;
— déficit orçamentário de R$ 80 bilhões, mesmo com a venda de ativos e cessão onerosa do petróleo;
— inflação em alta e chegando a 10% nos gêneros alimentícios, maior peso da economia popular;
— alta taxa de desemprego renitente (ainda que com ligeira queda);
— aumento do desmatamento em 30% na região amazônica;
— filas de pensionistas em busca dos seus direitos previdenciários com atraso de vários meses;
— desentendimentos políticos entre destacados membros do governo e de parlamentares que até ontem serviam como artífices das quimeras eleitorais;
— corte de verbas para as universidades;
— estremecimentos das relações políticas internacionais, como no caso da França e da Argentina (nossa importante vizinha e parceira comercial);
— vexames sucessivos protagonizados por ministros ineptos (como esse impreCionante Weintraub, da Educação, que substituiu outro tão estapafúrdio quanto ele), ou por dirigentes de órgãos que sustentam absurdos como o de que a escravidão negra teria sido boa para os negros trazidos da África sob condições desumanas e aqui tratados como animais;
— maior queda de popularidade para um presidente eleito em seu primeiro ano de (des)governo, etc., etc., etc.
Mas mesmo diante de tantos fracassos político-econômicos, esse governo continua a administrar o desmonte de tudo de bom que foi construído com sacrifícios no Brasil, sem que o governo apresente realizações positivas (a menos que se considere como tal a perda de direitos previdenciários).
Sempre fui consciente do que é capaz um presidente:
— que adota o coronel Brilhante Ustra, um militar destacado pela ditadura para comandar e praticar torturas e mortes de presos indefesos, como exemplo a ser seguido;
— que afirmou, do alto da sua falta de sensibilidade humanista, que os governos militares deveriam ter matado pelo menos uns 30 mil opositores;
— que tergiversa diante de afirmações como a de um dos seus filhos zero à esquerda, de que bastaria um cabo e um soldado para fechar o Supremo Tribunal Federal (certamente para montar um tribunal de exceção a ser presidido pelo guru-astro(i)lógico Olavo de Carvalho, desde que este ousasse vir defender em pessoa suas posições, ao invés de teleguiar zumbis desde os EUA);
— que tem na alta cúpula governamental pessoas que admitem a reintrodução do AI-5, medida definidora da possibilidade do arbítrio indiscriminado;
— que, militar insubordinado, foi passado para a reserva com poucos anos de serviços por ameaça de atentado à bomba;
— que afirma que as crianças, ao praticarem o trabalho infantil, se educam para a vida (!), etc.
Mas, sabendo que a sensibilidade humanista e consciência sobre direitos civis de muita gente passa pelo bolso, preocupa-me imensamente a seguinte questão: quão despótico seria um governo com a orientação ideológica acima exposta, acaso experimentássemos no Brasil um período de ascensão capitalista (mesmo que episódica), capaz de lhe conferir algum apoio popular?

O capitalismo é totalitário tanto pelo voto como pelos golpes militares tão comuns na sua periferia, e a democracia burguesa mostra a sua face carantonha tão logo esteja ameaçada na sua hegemonia por proposições consistentes e que recebam apoio popular para um novo modo de produção social e organização horizontalizada.

Depois de Plínio Salgado e integralistas, desde 1930 até 1955 (quando foram definitivamente derrotados nas urnas), o espectro nazista volta a rondar o Brasil.

Dalton Rosado
Agora pelas mãos desses terraplanistas idiossincrásicos, comandados por um presidente primário, que certamente transita entre a admiração (e submissão incondicional) ao rico presidente Destrumpelhado e fascinação pelo legado do ridículo genocida Adolf Hitler. (Publicado também no site Náufrago da Utopia)
Por Dalton Rosado, de São Paulo.
Direto da Redação é um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins.

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