A Carne que Camila levou ao Festival de Locarno

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Publicado domingo, 15 de setembro de 2019 as 10:52, por: CdB

Leiam e vejam um trecho do curta metragem brasileiro provocação, Carne, exibido no Festival de Locarno, há um mês, com uma visão original do gênero feminino. O Júri dos Jovens gostou e deu uma menção especial à realizadora Camila Kater.

Rui Martins, do Festival de Locarno:
Título de curta metragem de Camila Kater é também crítica ao machismo

Já que brasileiro tem mania de churrasco e que para outros tantos mulher é carne antes de ser humana, a jovem cineasta Camila Kater imaginou um filme curta metragem, no qual se vai da carne crua à carne bem passada, ou seja da mulher menina à mulher na idade do climatério.

Uma alegoria capaz de deixar queimados muitos conservadores, do tipo evangélico. Porém, Camila não se importa, ela é atual, não tem medo de dar nomes às coisas e pessoas e defende o segmento LGBT.

Bastante aplaudido o curta metragem de Camila Kater concorria em Locarno, na mostra Leopardos de Amanhã.É ela quem faz uma síntese do roteiro e das ideias que teve para construir o filme:

O curta Carne começou com minhas próprias experiências pessoais. Desde criança,me preocupava muito com minha aparência, com a forma do meu corpo. Isso desde muito cedo, já aos seis anos me preocupava com a forma como me sentava na cadeira e como minhas coxas se esparramam pela cadeira. Eu me preocupava com isso, a tal ponto que, na adolescência comecei a escondeer meu corpo. Os olhares externos me incomodavam muito, eu andava de ônibus, tanto que comecei a usar roupas largas, para me esconder e evitar tudo isso. Mas eu não tinha consciência do meu corpo e não sabia porque isso acontecia até ter mais idade. No meio do processo do filme, fui diagnosticada com endometriose, uma doença bastante comum ns mulheres, embora não seja muito conhecida, pois tem a mesma incidência da diabete. Se eu não tomo os remédios posso ter os mesmos sintomas do climatério. Então tive de começar a pensar nessas coisas e no que irá acontecer com meu corpo no futuro. Veio daí o filme, de minha experiência pessoas, de outras mulheres que conheço e de minha família.

Pergunta – Voce dividiu o filme em capitulos e vai atacando pedaço por pedaço, mas seria interessante você explicar que nada tem a ver com o primeiro capítulo, porque você não é gorda como dá a impressão…além disso, você mostra fazer parte do movimento ou da conscientização das mulheres, que pensam e agem livremente, nada a ver com o que acontece neste momento no Brasil, com os evangélicos que estão numa fase de reação e de retorno. Fale um pouco da formação que teve para chegar a esse filme.

Camila, uma visão crua e bem passada de mulher

Camila – Tive uma educação privilegiada de classe média brasileira. Sou a segunda geração da família, que pôde frequentar a universidade. Meus avós portugueses não puderam. Estudei em Campinas, na UNICAMP, onde fiz um curso de medialogia, basicamente um curso variado de medias, no qual eu me foquei principalmente em cinema, e ao longo do tempo fui fazendo cursos na cidade de São Paulo. Essa formação não tanto formal foi muito importante para mim.

Pergunta ; Você aborda o lesbianismo, o homossexualismo em geral, o transsexualismo de uma maneira bem livre e clara, quando no Brasil tudo isso é qualificado como pecado. Nós vivemos hoje no Brasil numa sociedade quase religiosa…

Camila – No Brasil estamos retrocedendo muito com esse novo governo, em que as ideias intolerants se espalham facilmente. Eu sou a favor da tolerância e de que o amor deve ser respeitado em todas suas formas. Por isso, tratei desses temas de uma forma natural porque são maneiras naturais. Assim como o nosso corpo se transforma, o amor também. Ele é diverso como todos nós.

Pergunta – Você jovenzinha, falando de menopausa! Voce já explicou, mas é interessante o último capítulo do seu filme sobre a menopausa. Como chegou a essas conclusões

Camila – Esse assunto da menopausa já estava presente na minha vida, pelo fato de eu morar com minha mãe e minha tia. Durante minha adolescência elas estavam passando pelo climatério e, portanto, eu vivi essas transformações nelas. Muitas vezes sem ter informação e entendimento da quilo, mas com elas me explicando foi muito importante para mim essa experiência.

Pergunta – Você deu o título de Carne para seu filme, mas na veerdade aparece muito o corpo. Por que o título não foi Corpo em lugar de Carne?

Camila – Para mim, o título Carne veio de uma associação irônica com o corpo feminino. O corpo feminino é muitas vezes associado à carne, antes das mulheres serem vistas como seres humanos. Algo para ser consumido pelos homens, nessa nossa sociedade patriarcal. Então, o título Carne é para chamar a atenção para esse problema. Se o título fosse Corpo, perderia essa intensidade. O filme é dividido em capítulos e cada capítuo é uma fase de cozimento da carne. A infância é a fase crua, a adolescência é a fase mal passada, e ao ponto é a mulher jovem. A mal passada é também o climatério e a bem passada é a terceira idade.

Pergunta -Você vive no Brasil ou na Espanha? Pois o filme é uma co-produção com a Espanha.

Camila – Eu vivo no Brasil mas tive a oportunidade de participar de um laboratório de projetos de documentários animados em Tenerife, nas Ilhas Canárias, e a partir daí a coprodução foi possível.

Veja aqui um trecho do curta-metragem Carne – https://www.locarnofestival.ch/pardo/program/film.html?fid=1111703&eid=72

Entrevista com Camila –

Rui Martins, editor do Direto da Redação, esteve do 7 ao 17 de agosto no Festival Internacional de Cinema de Locarno

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