Alerta: na surdina, há um Golpe em preparação

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Publicado quinta-feira, 20 de junho de 2019 as 11:20, por: CdB

A convocação do povo, via redes sociais, por neofascistas brasileiros, em favor de um Golpe e instauração de uma Ditadura bolsonariana no Brasil, coincide com declarações do próprio Bolsonaro, no fim de semana, em Santa Maria, no Rio Grande do Sul.  Tanto que o editorial de O Globo foi taxativo: “o presidente Bolsonaro atravessou várias fronteiras da sensatez ao investir contra pilares da democracia. O ex-capitão deputado federal com 28 anos de Câmara ressurgiu com suas teses radicais, só que agora envergando a faixa presidencial. Bolsonaro, precisa, portanto, de um curso intensivo de reeducação em democracia, a lhe ser ministrado pelas instituições republicanas”. Por via das dúvidas, nosso colunista Celso Lungaretti deixa seu alerta, para não sermos apanhados desprevenidos. (Nota do Editor do DR)

Por Celso Lungaretti, de São Paulo:

É melhor se prevenir, antes que seja tarde demais

Não pude deixar de lembrar-me da canção Meu caro amigo, do Chico Buarque, ao  responder a um e-mail do bom companheiro Rui Martins que, lá na Suíça, aflige-se com as novidades que lhe chegam do Brasil.

No caso, a sua inquietação era com o alerta que lancei, por ele qualificado de “um pesadelo”.
 
A resposta que enviei ao Rui é o que tenho para dizer aos leitores neste momento, então a reproduzo na íntegra:

…é triste mas continuo não conseguindo fazer com que esses indícios de grave perigo sejam levados a sério.

O MBL e o Vem Pra Rua estão convocando para manifestações no país inteiro no dia 30, alegadamente em solidariedade ao Moro.

Há duas possibilidades:

1. a de o áudio golpista provir de uma vertente secundária da extrema-direita, que estaria tentando dar um direcionamento mais radical a tais manifestações;

2. a de o áudio expressar a verdadeira intenção da extrema-direita com as manifestações e a solidariedade ao Moro ser apenas a versão maquiada, para uso externo.

O certo é que não se pode brincar com essas coisas e a imprensa, em primeiro lugar, deveria estar investigando esse áudio, até porque faz um tipo de pregação que pode ser enquadrado como crime virtual. Isto não tem interesse jornalístico?

Será que, como durante a escalada do Hitler, ignoraremos o perigo até essa cambada não poder mais ser detida?!

QUASE UM SÉCULO DEPOIS DA MARCHA SOBRE ROMA… OS FASCISTAS DAQUI  TENTARÃO IMITAR NO DIA 30 DE JUNHO

Está circulando no Whatsapp um áudio golpista que dá um enfoque alternativo e bem mais inquietante às manifestações ultradireitistas programadas para o próximo dia 30. 

Dura 1’05”  e o locutor se identifica como Beto Fontes, de Londrina, PR, que tem perfil no YouTube como “jornalista investigativo, analista de mídias sociais, ativista e coaching“. 

Ele faz a convocação abaixo, que mais parece um chamamento para uma versão brasileira da Marcha sobre Roma de 1922, que marcou a conquista do poder por parte dos camisas negras italianos:

“Este áudio é curtíssimo para que vocês possam compartilhar em todas as redes.

Dia 30/06/2019 voltaremos às ruas contra o crime político organizado.

A pauta será única e objetiva, ou seja, o tiro letal contra a corrupção que vem atravancando um governo que nós elegemos democraticamente.

Todo poder emana do povo, artigo 1º, é constitucional. E o povo irá às ruas ordenado para que o presidente Jair Bolsonaro acione o artigo 142 da Constituição Federal e faça uma faxina constitucional.

[Que] Juízes e políticos corruptos, inclusive jornalistas criminosos, [sejam] julgados e condenados sem redução de pena.

Quem manda no Brasil somos nós e o governo que nós elegemos democraticamente está precisando do nosso apoio.

E a pauta é objetiva e única: Brasil acima de tudo, Deus acima de todos.

Quanto ao citado artigo 142, eis o que ele estabelece:

As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do Presidente da República, e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem.

Então, depreende-se que se pretenda colocar o povo nas ruas para dar ao presidente Jair Bolsonaro um pretexto para ele, presumivelmente em nome da defesa da lei e da ordem, ordenar às Forças Armadas que barbarizem o Judiciário, o Legislativo e a imprensa.

Isto se faz com anuência do próprio presidente ou à sua revelia? Não há como provar, mas se pode conjeturar, a partir deste relato de hoje do jornalista Reinaldo Azevedo:

É de assombrar a sequência de ações destrambelhadas do senhor presidente da República em 96 horas. Entre a quinta, data em que o deputado Samuel Moreira apresentou o texto da Previdência, e este domingo, o chamado Mito se dedicou incontinente à tarefa de gerar crises.

E não! Não se trata de coisas irrelevantes. Pior: em duas das invectivas contra o bom senso, contou com o auxílio de Paulo Guedes, tido por incautos como âncora da estabilidade do governo.

…Atenção! Na mesma quinta em que se apresentou o texto da Previdência, Bolsonaro demitiu Santos Cruz da Secretaria de Governo e pôs em seu lugar um general da ativa: um paraquedista vai fazer articulação política.

Na sexta, anunciou que vai pôr na rua o presidente dos Correios e criticou o STF, voltando a defender um evangélico no tribunal. No mesmo dia, Guedes disparou contra Joaquim Levy, então presidente do BNDES, e desferiu duras críticas ao Congresso e ao texto da reforma.

No sábado, o presidente disse que a cabeça de Levy estava a prêmio e que, para governar, precisa mais do povo do que do Parlamento. Adicionalmente, defendeu o armamento da população e, se preciso, a luta armada propriamente.

E isso em meio ao escândalo das conversas de pornografia política e jurídica explícita entre Sergio Moro e Deltan Dallagnol.

Ou seja, há fortes motivos para supormos que Bolsonaro esteja mesmo decidido a virar a mesa para obter poderes bem maiores do que a Constituição lhe concede. E que ele sonhe com uma reedição do êxito de Mussolini ao marchar com seus fascistas sobre Roma.

Mas, se todos que repudiam o golpismo e o autoritarismo reagirem firmemente, Bolsonaro pode, isto sim, bisar o fracasso retumbante que Jânio Quadros colheu em 1961 com sua renúncia que embutia um autogolpe.

Celso Lungaretti, jornalista e escritor,  foi resistente à ditadura militar ainda secundarista e participou da Vanguarda Popular Revolucionária. Preso e processado, escreveu o livro Náufrago da Utopia (Geração Editorial). Tem um ativo blog com esse mesmo título.

Direto da Redação é um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins.

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