Ataque perto de sinagoga deixa mortos na Alemanha

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Publicado quarta-feira, 9 de outubro de 2019 as 10:35, por: CdB

Testemunhas relatam que um homem mascarado em uniforme militar efetuou vários disparos e atirou um explosivo em Halle, no leste do país. Polícia prende um suspeito. Ação ocorre em meio ao feriado judaico de Yom Kippur.

Por Redação, com DW – de Berlim

Pelo menos duas pessoas morreram nesta quarta-feira num ataque a tiros próximo de uma sinagoga em Halle, no leste da Alemanha. Um suspeito foi preso, segundo a polícia local, que pediu para que os habitantes permaneçam “em alerta” já que a polícia ainda está à procura de outro possível participante da ação, que teria fugido de carro.

Imprensa especula se motivação é antissemita, já que ação ocorre no feriado religioso mais importante do calendário judaico
Imprensa especula se motivação é antissemita, já que ação ocorre no feriado religioso mais importante do calendário judaico

O ataque ocorreu no distrito de Paulusviertel, na região norte de Halle, por volta de 12h (7h em Brasília). Segundo a imprensa alemã, testemunhas relataram que viram pelo menos um agressor usando um uniforme de combate, máscara e capacete, e carregando várias armas.

Uma testemunha contou ainda que o homem, além de efetuar vários disparos, lançou uma espécie de explosivo (uma granada ou coquetel molotov) sobre o muro de um cemitério judaico.

Um vídeo divulgado pela rede MDR mostra o suspeito uniformizado efetuando vários disparos. Uma fotografia do gressor também parece indicar que ele estava carregando uma velha submetralhadora da época da Segunda Guerra Mundial.

Segundo o tabloide Bild, também há relatos de que o agressor efetuou ainda disparos contra os clientes de uma lanchonete especializada em comida turca, a duas quadras da sinagoga.

Além disso, a polícia afirmou que registrou chamadas relatando disparos na cidade de Landsberg, a cerca de 15 quilômetros de Halle.

Os motivos do ataque ainda não estão claros, mas a imprensa alemã especula se a motivação é antissemita, já que a ação ocorre em meio ao Yom Kippur, o feriado religioso mais importante do calendário judaico. A polícia também não revelou em que circunstâncias a prisão do suspeito ocorreu.

Halle permanece em alerta. A companhia ferroviária Deutsche Bahn fechou a principal estação da cidade, e a polícia vem advertindo os moradores a ficarem em casa ou procurarem um lugar seguro. Uma escola também foi fechada. Outras cidades da região também reforçaram a segurança. A polícia de Dresden, que fica a  150 quilômetros de Halle, mandou agentes para a sinagoga da cidade e um cemitério judaico.

A Polícia da Baviera, Estado que faz divisa com a Saxônia-Anhalt, onde fica Halle, informou que realizou nesta manha uma série de operações de busca e apreensão contra grupos de extrema direita. Uma dessas ações correu no distrito de Mansfeld-Südharz, próximo de Halle. A polícia bávara afirmou que ainda não encontrou evidências se o ataque em Halle tem relação com a operação policial.

Protestos pacíficos

Já se passavam das 18h quando as portas da Igreja de São Nicolau, em Leipzig, se abriram para que os muitos fiéis deixassem o culto luterano. Dezenas de milhares de manifestantes os aguardavam em frente à igreja e na Praça Karl Marx: jovens, famílias, trabalhadores, pensionistas.

Pelo menos 70 mil pessoas de vários grupos da sociedade da antiga República Democrática Alemã (RDA) reuniram toda sua coragem naquele 9 de outubro de 1989 para enviar um sinal claro contra o regime do Partido Socialista Unitário da Alemanha (SED). Há décadas não se via uma manifestação tão grande na Alemanha Oriental – onde protestos críticos eram fundamentalmente proibidos.

Muitos manifestantes esperavam o pior, inclusive que a polícia atirasse neles. Tanques e tropas com metralhadoras se encontravam de prontidão para conter os protestos na cidade. O Massacre da Praça da Paz Celestial, em março daquele ano na China, ainda estava fresco na memória.

Mas, como milagre, o poder estatal permitiu que os manifestantes protestassem naquela segunda-feira. As pessoas tomaram em massa as ruas do centro de Leipzig, passando também pela chamada “esquina redonda”, como era chamada a sede distrital da Stasi em Leipzig, a polícia secreta da Alemanha Oriental. Os manifestantes bradavam “nós somos o povo”, “liberdade, eleições livres” e “sem violência”. Muitos deles seguravam velas nas mãos.

Isso aconteceu 30 anos atrás, mas aqueles que se encontravam ali na época ainda se lembram bem da atmosfera. “Naquele dia, o clima estava tão carregado que se podia sentir o peso. As pessoas sabiam: hoje é o dia decisivo”, lembra Kathrin Mahler Walther. Ela tinha apenas 18 anos e atuava no movimento de direitos civis.

Sua cidade natal, Leipzig, a segunda maior cidade da RDA depois de Berlim Oriental, se tornara um dos bastiões da resistência na década de 1980. O principal ponto de encontro era a Igreja de São Nicolau (Nikolaikirche), onde toda segunda-feira às 17h acontecia um culto religioso com orações pela paz.

– Depois que não se atirou naquela noite, para nós ficou claro: a partir de agora há um processo de abertura, a partir de agora ocorre um processo de discussão conjunto – disse Mahler Walther.

Em 1989, 40 anos após a fundação do Estado comunista, o regime da Alemanha Oriental se encontrava numa profunda crise política e econômica. Mais e mais pessoas tentavam deixar o país; o movimento dos direitos civis encontrava um apoio cada vez maior.

Enquanto Mikhail Gorbachev impunha um curso de reforma estatal à “irmã mais velha” União Soviética e, ao mesmo tempo, transcorria a abertura de países do bloco oriental, como Polônia e Hungria, o politburo da RDA em torno do chefe de Estado de longa data Erich Honecker rejeitava categoricamente as reformas.

O poder da mídia (ocidental)

Obviamente, a televisão da RDA não noticiou nada sobre o evento. Mesmo assim, logo o mundo inteiro estaria informado sobre o poder da manifestação de Leipzig em 9 de outubro. Isso aconteceu graças a dois cinegrafistas que se esconderam na torre de uma igreja no centro de Leipzig e filmaram secretamente os protestos. Um deles era Siegbert Schefke.

Segundo Schefke, ver aquela quantidade enorme de pessoas passar pelas ruas foi um “momento absolutamente arrepiante”. Pois para ele estava claro: “Quando as imagens forem mostradas amanhã na televisão ocidental, isso não apenas mudará a RDA e a Alemanha, mas também a Europa e o mundo.”

Durante a noite, o vídeo foi contrabandeado para jornalistas ocidentais. Assim, o público alemão oriental, que em grande parte podia captar também a televisão ocidental, ficou sabendo que protestos públicos contra o regime cada vez mais enfraquecido eram possíveis e que não se esperava uma repressão pela força.

Depois disso, os eventos se desenrolaram como uma bola de neve. Mais e mais pessoas se atreviam a ir às ruas, não apenas em Leipzig. Apenas oito dias depois, Erich Honecker era deposto pelo politburo, mas isso não era suficiente para os alemães orientais. Em Berlim, em 4 de novembro de 1989, pelo menos meio milhão de manifestantes exigiram liberdade de expressão e liberdade de imprensa na praça Alexanderplatz.

Por que a situação não se acirrou

Mas por que policiais e soldados deixaram manifestantes tomar as ruas de Leipzig em 9 de outubro? Por que não se atirou, como em 1953 em Berlim ou mesmo em março de 1989 em Pequim?

Uma razão provável foi o fato de as forças de segurança estarem sobrecarregadas com a situação. Eles não esperavam tantas pessoas. E contavam com atos de violência por parte dos manifestantes. Eles não haviam desenvolvido nenhuma estratégia para lidar com uma manifestação completamente pacífica.

– Era consenso entre os manifestantes que não se usasse a força contra a polícia, porque sabiam: eles estavam diante de um aparato altamente equipado, que estava esperando apenas que se atirasse uma pedra ou se atacasse um policial. Somente por meio dessa não violência seria possível enfrentar o Estado, porque não se davam motivos para que ele agisse contra alguém – explica o historiador Sascha Lange.

– Apenas com o poder da palavra e das massas, os manifestantes simplesmente desarmaram a liderança do SED e a polícia – aponta o historiador, que não somente vivenciou a manifestação aos 17 anos, mas também lançou recentemente junto a seu pai o livro David vs. Golias, sobre a revolução pacífica de 1989.

O pai de Lange, Bernd-Lutz Lange, era um dos “Seis de Leipzig” – grupo que garantiu que nenhum sangue fosse derramado e que nenhum cassetete voasse naquele 9 de outubro de 1989 em Leipzig.

Três líderes distritais do partido único SED e três cidadãos proeminentes de Leipzig (incluindo o maestro Kurt Masur e Bernd-Lutz Lange) haviam se reunido na época para pedir prudência a manifestantes, policiais e soldados. Ao mesmo tempo, eles prometeram trabalhar em prol do livre intercâmbio de opiniões.

Durante a manifestação, seu apelo foi divulgado pelos alto-falantes instalados no centro da cidade. Os membros do SED não haviam discutido previamente suas ações com seus superiores em Berlim.

Muito pouco reconhecimento?

Exatamente um mês após a manifestação decisiva de Leipzig, o Muro de Berlim caía, em 9 de novembro de 1989. Hoje quase todos os alemães sabem o significado dessa data. O que aconteceu em Leipzig um mês antes, por outro lado, é muito menos conhecido, especialmente entre os jovens e na parte oeste do país.

Isso incomoda muitos ativistas dos direitos civis, como também Kathrin Mahler Walther: “Acho muito importante que se veja que mulheres e homens da Alemanha Oriental se libertaram dessa ditadura, venceram seu medo e protestaram juntos em 9 de outubro, bem como nas segundas-feiras anteriores e nas segundas-feiras posteriores.”

Esse protesto nas ruas entrou para a história: a primeira revolução completamente pacífica e sem derramamento de sangue da Alemanha.

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