A autocrítica necessária às esquerdas e o Brasil que veremos após as eleições

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Publicado sábado, 14 de julho de 2018 as 17:31, por: CdB

A nódoa da discórdia perpassa desde as menores agremiações às maiores, entre elas o PT e as tendências internas que o integra.

 

Por Gilberto de Souza – do Rio de Janeiro

 

Não apenas o PT, mas os demais partidos no arco das esquerdas carecem de uma dose cavalar de autocrítica. Fazê-la, nem sempre é uma tarefa agradável. Por vezes, extremamente espinhosa. A direita não carece de tal avaliação, posto monolítica diante do único objetivo que interessa aos seus adeptos, senão ganhar dinheiro com o beneplácito do governo; ocupando-o e servindo-se dele; ajoelhados diante dos conglomerados econômicos. “Os pobres que se explodam”, dizia o comediante Chico Anísio.

Lula recebe o carinho de todos, na sede do sindicato
Lula tem a chance de voltar à Presidência da República, nos braços dos pobres que ficaram menos pobres

Para a esquerda, não. Dos comunistas, na ala extrema, aos trabalhistas ao centro e ‘costeando o alambrado’, conforme resumia o ex-governador Leonel de Moura Brizola; passando por toda sorte de divagações no éter do pensamento socialista; todos concordam que a venda indiscriminada do patrimônio público é um crime de lesa-pátria. E paramos por aí. Talvez seja esta a única intercessão capaz de impedir a completa ruptura do campo inspirado nas teorias de Karl Marx, Friedrich Engels e seus herdeiros.

No mais, a nódoa da discórdia perpassa desde as menores agremiações às maiores, entre elas o PT e suas tendências internas. A legenda, comandada por Luiz Inácio Lula da Silva — preso por demanda do grupo político que ora domina o Executivo, o Congresso e o Judiciário — tem peso preponderante no atual quadro de indigência que a verdadeira política assumiu na vida nacional. Afinal, governou o país por quase 15 anos.

Socialismo de aluvião

Ninguém sai impune após um período de gestão semelhante ao que produziu o III Reich, pela direita; ou, no outro lado da moeda, a Revolução Cubana, em seu período de plena instalação do regime comunista. Em três lustros, muda-se uma sociedade inteira; para um lado ou para o outro. Ao longo deste período, Lula, sucedido pela presidenta deposta Dilma Rousseff, ambos conseguiram avançar alguns milímetros na escala do bem-estar social; mas desceram quilômetros no lodo do pântano clientelista, que toma a maior parte do terreno político brasileiro.

A tese de que se pode construir uma sociedade com base em valores intrinsicamente opostos; na tentativa de suportar a prática nazista do lado em que se encontram, hoje, os candidatos da ultradireita; e apoiar o socialismo de aluvião, do outro, onde brotam postulantes geneticamente modificados à Presidência da República; esta construção ruiu. Implodiu. Colapsou.

Desaguou no golpe de Estado em que o país se encontra mergulhado, há anos. Deu lugar aos sentimentos vorazes e assimétricos na destruição dos valores mais caros à Humanidade. O racismo aflorou, ao lado do discurso sexista, misógino e violento. Aumentou a distância entre as camadas mais pobres e a classe abastada. Inflou o fenômeno do “pobre de direita”. Dilapidou os principais tesouros do povo brasileiro: seja no subsolo, com a venda do pré-sal; seja sobre a terra, na reforma agrária que inexiste; ou nos céus, com o fim da Embraer. Apenas para citar umas poucas amostras.

‘Chicago Boys’

Nada disso seria possível se o partido que pretendia unir a esquerda e a direita houvesse escolhido, claramente, a trincheira dos ideais a defender. O velho Brizola, de novo ele, observou, ainda em 1994, “as contorções do PT entre suas origens históricas e sua ânsia de integrar-se e servir ao mundo das elites”. E compara as ações daqueles governos ao “um exemplo de como o tempo e o processo social dissolvem tudo o que não é intrinsecamente coerente”.

Parecia prever que a banca e o cartel da mídia monopolista receberiam incentivos bilionários. Até mesmo que a sucessora de Lula preferiria ser vaiada em um casamento na Avenida Paulista a receber os aplausos pela vitória dos aliados na II Grande Guerra; em festividades para as quais recebeu convite de honra, em Moscou. Sem contar o ridículo de bater ovos em um programa matinal da concessionária de TV que tramava sua queda ou, ainda, manter no Ministério da Fazenda um dos mais proeminentes ‘Chicago Boys’.

Na ânsia de formar um centro de poder capaz de sustentar a geléia em que se transformava a teoria de que os ricos deveriam ficar mais ricos e os pobres menos pobres, sem qualquer viés ideológico plausível; promoveu uma política de alianças com estes seres que habitam, ou habitarão, as celas dos presídios no cumprimento das penas por furto qualificado e formação de quadrilha, entre outros crimes. Isso, claro, se o país retomar a normalidade democrática.

Adam Smith

Findas as constatações, o que se vê adiante é o deserto. Um país com margens indecentes de desemprego, mergulhado na pior crise econômica de sua História; assolado pelas nações preponderantes, que retiram nacos generosos do patrimônio público brasileiro e dividido pela força da mídia conservadora. Esta que gera movimentos pasteurizados em prol do capitalismo mais selvagem de que se tem conta, no planeta; com o apoio de fundações norte-americanas de ultradireita, desculpe o pleonasmo.

Ainda assim, Lula ocupa a liderança isolada na corrida presidencial, abastecido com os votos dos pobres que ficaram menos pobres, durante a trajetória pela Praça dos Três Poderes. A figura do torneiro mecânico eleito presidente da República paira acima de todos os obstáculos interpostos por aqueles ricos que usaram dos recursos abundantes na gestão do PT, para tomar tudo dos pobres. Estes devem ficar mais pobres, e não o contrário, conforme demanda o ideário de Adam Smith.

A vitória de Lula, nas urnas, pode ser a oportunidade perfeita para que o país siga, doravante, nas trilhas abertas por Luiz Carlos Prestes e defendidas com a própria vida por Marighella e Lamarca. As pessoas evoluem. Parece óbvio que, diante tamanha privação da liberdade, degradação pública e a mais vil iniquidade; Lula saberá reconhecer aqueles que saíram em sua defesa.

Igualdade

E nenhum deles usa black tie.

Assim, garantido o seu direito de votar e ser votado, talvez eleja-se, mais uma vez, para lançar as bases de um país mais justo; no qual o pobre, agora, deixará de ser pobre. Não para que o filho da empregada possa ‘andar de avião’, como diz o líder petista; mas para fundamentar um governo que promova a igualdade econômica e social de toda uma existência.

Onde haja liberdade de imprensa, e não o arremedo criado por seis famílias que dominam a planície dos meios de comunicação.

Uma nação na qual os fascistas sejam reconduzidos aos antros e tocas, de onde nunca deveriam ter saído.

Gilberto de Souza é jornalista, editor-chefe do Correio do Brasil.

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