Baixo crescimento e cenário político mais tenso ampliam fuga de capitais

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Publicado terça-feira, 26 de novembro de 2019 as 16:08, por: CdB

Nem mesmo a aprovação da longamente esperada reforma da Previdência no mês passado, um marco na política liberal do governo de Jair Bolsonaro — foi suficiente para atrair de volta grande volume de investimento estrangeiro, segundo banqueiros de investimento responsáveis por ofertas de ações.

 

Por Redação, com Reuters – de São Paulo

 

As empresas brasileiras levantaram neste ano o maior volume de recursos da década com ofertas de ações, mas ainda não houve sinais deste entusiasmo entre investidores estrangeiros que sustentaram booms anteriores no Brasil; principalmente por conta do baixo crescimento econômico e temores em relação à polarização política.

A cotação do real frente as moedas das principais economias do mundo tem caído fortemente, nos últimos dias
A cotação do real frente as moedas das principais economias do mundo tem caído fortemente, nos últimos dias

Investidores estrangeiros compraram cerca de 40% das ofertas de ações dos primeiros nove meses do ano, segundo dados da B3. Ainda é bem distante da média de 70% de participação estrangeira em outros picos do mercado de capitais brasileiro, como 2007 e 2010.

Nem mesmo a aprovação da longamente esperada reforma da Previdência no mês passado, um marco na política liberal do governo de Jair Bolsonaro — foi suficiente para atrair de volta grande volume de investimento estrangeiro, segundo banqueiros de investimento responsáveis por ofertas de ações.

Medidas liberais

A participação estrangeira continuou baixa nas últimas ofertas, que elevaram o total ofertado em ações para US$ 21,9 bilhões, o mais alto desde a captação de US$ 48,7 bilhões registrada em 2010, segundo dados da Refinitiv.

Gestores de recursos, analistas e assessores das empresas dizem que a recuperação econômica lenta deu pouca razão aos investidores estrangeiros para entrar no mercado nacional, além do temor sobre a polarização política no governo de Bolsonaro após a libertação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

— O cenário político e o risco de reversão de medidas econômicas liberais que foram implementadas nos últimos anos são os maiores desafios — diz Frederico Sampaio, chefe de investimentos da Franklin Templeton Brazil.

Opositores

Lula foi solto em 8 de novembro, um dia depois que o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que não é possível iniciar o cumprimento de pena após condenação em segunda instância. A libertação do ex-presidente, que na ocasião disse que a eleição de Bolsonaro foi “roubada”, reanimou os opositores da agenda de Bolsonaro.

Outros afirmam que a expectativa de um crescimento econômico baixo não anima muito os investidores a comprar ações brasileiras, com a maior parte das empresas levantando recursos para reduzir endividamento e não para investir em expansão. Acionistas que precisam de capital, como o Estado brasileiro, venderam participações em empresas como Petrobras, IRB Brasil Resseguros e Banco do Brasil.

— O potencial de crescimento do PIB brasileiro não é muito alto e a taxa de desemprego não deve cair rapidamente — disse à agência inglesa de notícias Reuters o estrategista de ações do Santander Brasil, Andre Rosenblit.

Muito longe

Embora a economia tenha dado sinais de recuperação, com a inflação contida e taxas de juros em recorde de baixa, os investidores esperavam um efeito mais rápido das políticas pró-mercado do governo Bolsonaro. A dificuldade política para aprovar a reforma previdenciária também provocou dúvidas sobre a capacidade de aprovar outras reformas importantes, como a tributária.

Mas os banqueiros de investimento esperam que os investidores internacionais voltem mais rapidamente no ano que vem, diante da expectativa de maior crescimento econômico.

— Alguns grandes fundos de ações ‘long-only’, que são mais cuidadosos no investimento, analisaram algumas ofertas brasileiras depois da aprovação da reforma da Previdência. É um bom sinal, mas ainda estamos longe do potencial — disse à Reuters o chefe global de renda variável no banco de investimentos do Banco BTG Pactual, Fabio Nazari.

Fluxo intenso

Mesmo sem estrangeiros, espera-se que o mercado brasileiro fechem o ano em níveis recordes, sustentados por um fluxo constante de investidores locais que estão saindo da renda fixa em direção às ações, diante de taxas de juros que atingiram mínimas históricas.

— Nunca vimos um período tão longo com taxas de juros baixas — disse Alessandro Farkuh, chefe da área de banco de investimento do Bradesco.

Uma nova mudança de alocação de R$ 3 trilhões (US$ 714,6 bilhões) de investidores de varejo locais também deve manter a participação dos brasileiros em ofertas de ações mais altas do que no passado.

Guerra comercial

A captação líquida de fundos de ações e multimercados totalizou R$ 120 bilhões de janeiro a outubro, segundo a Anbima, entidade que representa agentes do mercado financeiro e de capitais.

Os investidores internacionais também estão preocupados com outros fatores que podem prejudicar os fluxos para os mercados emergentes, disse Hans Lin, chefe de banco de investimento no Brasil do Bank of America.

— A guerra comercial global, o estado da economia dos EUA e o Brexit são riscos que podem afetar o apetite dos investidores — concluiu Farkuh.

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