Bolsonaro atrai mais adversários do que aliados, revela cientista político

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Publicado segunda-feira, 27 de janeiro de 2020 as 15:05, por: CdB

Durante a semana, Bolsonaro chegou a cogitar retirar de Moro as atribuições da sua pasta sobre a Segurança Pública, recriando o ministério que foi fundido com a chegada do ex-juiz. Diante da repercussão negativa junto aos partidários do “lavajatismo”, Bolsonaro recuou e disse ser “zero” a chance de recriar o ministério.

 

Por Redação, com RBA – de São Paulo

 

O mais recente episódio que quase colocou o presidente Jair Bolsonaro em rota de colisão com o ministro da Justiça, Sergio Moro, o mais popular integrante do seu governo, mostra que ele tem especial capacidade de produzir adversários políticos, em vez de aliados. Segundo o cientista político Cláudio Couto, professor da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP), o presidente é “paranoico” em relação àqueles que enxerga como eventuais concorrentes nas próximas eleições.

Sergio Moro está em uma situação peculiar, no governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido)

— Ao criar conflitos, em vez de consolidar um arco de alianças, o que ele faz é criar adversários. Em vez de ver em Moro um aliado para a sua  reeleição em 2022, o que conseguiu produzir foi um provável adversário — afirmou Couto à agência brasileira de notícias Rede Brasil Atual (RBA), desta segunda-feira.

O professor citou como exemplo a demissão do secretária-geral da Presidência, Gustavo Bebianno que, de um dos mais próximos aliados, se tornou opositor do governo.

‘Espaçoso’

Durante a semana, Bolsonaro chegou a cogitar retirar de Moro as atribuições da sua pasta sobre a Segurança Pública, recriando o ministério que foi fundido com a chegada do ex-juiz. Diante da repercussão negativa junto aos partidários do “lavajatismo”, Bolsonaro recuou e disse ser “zero” a chance de recriar o ministério. Deixou, contudo, a porta aberta para uma eventual retomada da decisão, alegando que “em política, tudo pode mudar”.

Segundo Couto, Moro pode vir a ser um candidato “espaçoso”, ocupando desde as franjas da extrema-direita bolsonarista, passando pela direita, até setores do chamado “centro”, que ainda o enxergam como suposto “paladino” do combate à corrupção.

O analista afirmou que uma eventual candidatura do ministro pode criar problemas para nomes como o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), e o apresentador Luciano Huck, que também almejam participar da próxima disputa presidencial.

— Ele não tem esse estilo tão estúpido e agressivo. Moro é mais capaz de dialogar com o centro em busca de uma certa agregação — destacou.

Agenda

Essa capacidade do presidente — de “produzir conflitos e cisões” — segundo Couto, deve criar novos problemas para o governo ver aprovadas as pautas de seu interesse no Congresso. Os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), devem gozar de grande protagonismo, frente à falta de habilidade do governo na articulação política.

— Hoje, se for aprovada uma reforma tributária, por exemplo, uma coisa aclamada por diversos setores do país há muitos anos, a tendência é que seja muito mais uma reforma vinda do Congresso do que uma proposta apresentada pelo Executivo — afirmou o cientista político.

Um trunfo do presidente, avalia Couto, é a sua aliança com setores religiosos por conta da pauta conservadora nos costumes. Ele comparou Bolsonaro com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, que também congrega o apoio de grupos religiosos conservadores. Esse modelo também se estende a nomes como o presidente da Turquia, Recep Erdogan, do primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orban, dentre outros líderes mundiais.

— Não se trata de uma religiosidade calcada numa única denominação, mas pega tudo aquilo que a gente pode chamar de religiosidade tradicional. Um tradicionalismo do ponto de vista de valores. São valores muito conservadores, até mesmo reacionários. E que produz uma certa simbiose nesses grupos — observa.

Aborto

Couto afirmou, ainda, que a pauta dos costumes deve estar presente nas eleições municipais deste ano, mas que apesar da proximidade de Bolsonaro com tais grupos, pode não tirar o proveito, devido a inexistência de um partido político estruturado.

Para o campo progressista, a dificuldade de lidar com temas como a legalização do aborto também deve prevalecer, na avaliação do cientista político.

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