Bolsonaro faz pouco da devastação na Amazônia, em meio à ira mundial

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Publicado sexta-feira, 18 de setembro de 2020 as 16:50, por: CdB

Ao ser homenageado por representantes do empresariado rural, no município de Sinop (MT), o mandatário disse não ser possível sufocar o agronegócio, que segundo ele seria a garantia a segurança alimentar do país, com novas demarcações de terras indígenas.

Por Redação – de Brasília e Sinop – MT

Diante das piores crises ambiental, econômica, política e de saúde desde o século passado, o país ainda é devastado pela realidade distorcida e mentirosa de um governo dedicado a destruir a segurança social ao disseminar notícias falsas, à luz do dia. O fato se comprovou, nesta sexta-feira, durante o discurso do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), durante uma aglomeração, em plena pandemia, organizada no Estado do Mato Grosso.

Bolsonaro gera uma aglomeração, em plena pandemia de covid-19, e cumprimenta os seguidores, sem máscara ou distanciamento social
Bolsonaro gera uma aglomeração, em plena pandemia de covid-19, e cumprimenta os seguidores, sem máscara ou distanciamento social

Ao ser homenageado por representantes do empresariado rural, no município de Sinop (MT), o mandatário disse não ser possível sufocar o agronegócio, que segundo ele seria a garantia a segurança alimentar do país, com novas demarcações de terras indígenas. Tribos inteiras têm sido dizimadas, sem que o governo federal se mobilize para ajudar etnias prestes a entrar em modo de extinção, conforme denúncias formuladas nos principais foros mundiais de Direitos Humanos.

O contraste entre o discurso e a realidade é tamanho que o avião em que Bolsonaro viajou, entre Brasília e o aeroporto no interior matogrossense, precisou arremeter, na primeira tentativa de pouso, nesta manhã, por causa da fumaça das queimadas. Ainda assim, o mandatário neofascista disse à claque que o Brasil tem sido criticado pelo que chamou de “alguns focos de incêndio”.

Bolsonaro atribuiu as queimadas criminosas, em curso, aos adversários comerciais do país.

— Para nossos concorrentes, quanto mais nos atacarem melhor — afirmou.

Ruralistas

O número de incêndios em biomas até então preservados, no Norte do país, batem recorde sobre recorde, segundo constata o Instituto Nacional de Pesquisa Espacial (Inpe), mas no “ato de homenagem do Agronegócio ao Presidente da República”, Bolsonaro faz o lançamento simbólico do plantio de soja, na região devastada. Parte das terras foram griladas, segundo denúncias de instituições ligadas ao meio ambiente.

O Mato Grosso, no coração do Pantanal, arde em chamas com suspeitas de que ruralistas sejam responsáveis pelos incêndios criminosos. Ainda assim, o presidente divulgou, pela manhã, um vídeo nas redes sociais em que elogia os ruralistas.

— O campo não parou, continuou a alimentar mais de 1 bilhão de pessoas pelo mundo. Agro, a locomotiva da nossa Economia — afirmou.

Enquanto comemorava a homenagem suspeita, o Pantanal brasileiro ultrapassava os 15.756 detectados, na véspera. Trata-se do maior número de queimadas desde 1998, quando os números começaram a ser registrados pelo Inpe. Comparado com 2005, o pior ano da série histórica até então para o período, o número de focos acumulados em 2020 é 56% maior.

Mercosul-UE

No acumulado de janeiro e 16 de setembro, os focos de incêndio aumentaram 208% ante igual período do ano passado, segundo o Inpe. O fogo já destruiu mais de 2 milhões de hectares do bioma.

Enquanto Bolsonaro era homenageado por representantes do agronegócio, felizes pela decisão de manter o grau de devastação das queimadas, na Amazônia, o vice-presidente, general Hamilton Mourão, tentava se disfarçar de para-raio da ira mundial. Segundo o militar, o Brasil precisará usar da diplomacia e das ações que, supostamente, estão em curso na região para responder à intenção da França de não ratificar o acordo Mercosul-União Europeia pelos problemas ambientais no Brasil.

Em uma transmissão ao vivo, pela internet, sobre Amazônia e Segurança, organizada pelo Instituto para Reforma das Relações entre Estado e Empresa (IREE), Mourão chegou a lembrar que na Guiana Francesa, departamento ultramarino da França que faz fronteira com o Brasil, há também desmatamento e garimpo ilegal, mas disse que não ia tratar disso.

— Não vou colocar a discussão nesse nível, essa é aquela discussão do nível baixo. O que eu vou colocar em discussão é que temos que trabalhar por meio da diplomacia e por meio das nossas operações de comando e controle — disse o vice-presidente.

Velha questão

Segundo Mourão, a diplomacia serve para abrir um diálogo e mostrar que o acordo não beneficia apenas os países do Mercosul (Além de Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai).

— Muito pelo contrário, ele abre para os países da União Europeia, que são industrializados e que têm muito mais valor agregado na sua produção do que nós, o mercado aqui do Mercosul. Então, é algo que favorece a ambos, é a velha questão do benefício mútuo, isso é o diálogo diplomático — argumentou.

O acordo Mercosul-UE foi assinado em julho de 2019, depois de mais de uma década de idas e vindas nas negociações, mas ainda precisa ser ratificado pelos 27 países membros do Parlamento Europeu e pelos Congressos dos quatro membros do Mercosul. Na Europa, além da França, Áustria e Holanda já indicaram que podem não ratificar.

Ilegalidades

Nesta sexta-feira, o governo francês informou que seu mais recente relatório sobre desmatamento corrobora a oposição do país ao acordo e que trabalhará com outros parceiros da UE para que se estabeleça “condições ambientais” para retomada de negociações. Mourão acrescentou que as ações de comando e controle na Amazônia servirão para mostrar que as queimadas e o desmatamento não são um problema generalizado na região.

— Existem problemas, existem, mas não é um problema generalizado da forma como se coloca. A questão dessas ilegalidades ocorrem praticamente nas áreas antropizadas da Amazônia a maioria há mais de 20, 30 anos ocupada por propriedades rurais — disse.

O vice-presidente, que é o coordenador do Conselho da Amazônia, afirma que dois terços dos focos de queimadas na Amazônia seriam em áreas de propriedades rurais ou urbanas e apenas um terço seria em áreas de proteção ou indígenas.

Desmatamento

Os dados mais recentes disponíveis pelo boletim de queimadas do Inpe, no entanto, mostram que, até 17 de setembro (quinta-feira) a Amazônia concentrava 68.486 focos de incêndio, 13% a mais do que em 2019 e o maior desde 2010 para o período

Já em relação ao desmatamento, houve um crescimento de 34,5% nos 12 meses encerrados em julho, em relação a igual período anterior, segundo dados preliminares. O período entre agosto de um ano e julho do ano seguinte é considerado como o ano-calendário para a medição anual do desmatamento da Amazônia.

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