Bom dia Zé Dirceu!

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Publicado sábado, 6 de outubro de 2018 as 17:20, por: CdB

Qualquer que seja o resultado, deveremos todos ter a humildade de fazer enfim sua mea culpa e assumir o resultado dessa mea culpa. Grandes e pequenos. Esperemos que ainda haja tempo para se evitar o mal maior.

Por Rui Martins, de São Paulo:

Destino do Brasil nas mãos dos eleitores

Bom dia Zé Dirceu!

Resolvi lhe dar esse bom dia, de leitor ao escritor. Veja só, comecei a ler sua autobiografia, editada pelo nosso amigo comum, o Luiz Fernando Emediato, e não vou largar. Quem sabe irei criticar e divergir no decorrer da leitura, mas estou ainda no começo, desde suas origens mineiras à entrada na PUC. Nada ainda de comprometedor, mas gostei do estilo, da maneira como sua história flui e vai interessando a ponto de me obrigar a continuar.

Para mim foi uma surpresa saber ter vivido também na rua Taguá e ter frequentado o Colégio Paulistano, quase em frente à minha república de estudantes, bem ali na esquina com a rua São Joaquim. Deve se lembrar, ali está o Exército da Salvação que, no prédio junto ao templo, mantinha no subsolo um grande dormitório para indigentes e, no primeiro andar, cinco quartos nos quais viviam onze estudantes, uns já universitários e outros fazendo cursinho para o vestibular. Ali vivi de 1959 a 1966, durante todo meu curso de Direito na USP e meus primeiros anos como jornalista do Estadão.

E gostei mais ainda da leitura do seu livro por revelar-se, por enquanto, um espírito aberto ao contrário do que se costuma pensar dos revolucionários, determinados a chegar aos seus objetivos sem grandes concessões. Nunca nos ocorreu a oportunidade de conversarmos, mas estivemos algumas vezes próximos em manifestações contra a ditadura militar.

Me lembro de uma particularmente, em 1968, nas escadarias da Catedral da Sé com representantes da UEE e UNE, mais embaixo os manifestantes, estudantes na maioria, queimavam um boneco de pano trajado do uniforme verde-oliva, Travassos estava ao seu lado, cada um deu seu recado, eu falei em nome dos jornalistas, Tudo foi muito rápido porque poderia vir a repressão.

Coincidência, nestes dias tenho vivido esses 50 anos passados. Da mesma Geração Editorial acabei de ler, Náufrago da Utopia, o relato do secundarista militante da VPR, Celso Lungaretti. Hoje também colunista aqui neste direto da Redação. O livro estava esgotado, essa a razão por meu atraso na leitura. Foi o próprio Lungaretti quem me ofereceu o exemplar, na minha chegada a São Paulo. E para reforçar ainda esse mergulho nos anos 60/70, fui reviver, no sábado passado, a grande manifestação das mulheres contra o candidato favorito à presidência da República, que elas preferem não dizer o nome, e nem eu, bastando apenas duas palavras #elenão .

Pois é, cá estamos nós de novo no mesmo impasse, correndo o risco de uma nova ditadura. Qual teria sido o erro da esquerda para provocar o surgimento com tanta força desse líder de um populismo da extrema direita, qualificado por tantos de nós como fascismo anacrônico na versão brasileira? O doloroso para nós, e imagino para você também, é o de perceber que esses quase 40% de eleitores se identificam com a plataforma racista, misógina, homofóbica, conservadora, reacionária do já quase vitorioso também defensor de uma nova ditadura para o Brasil.

O clima é ruim, muita gente revoltada com a corrupção, porém não é uma plataforma apenas de moralidade que pedem. E aí fico preocupado porque, na verdade, exigem um retrocesso geral em termos de direitos humanos com relação às mulheres, aos negros, aos índíos, sentindo-se menos culpados por seus maus impulsos recuperados politicamente por agirem juntos, coletivamente. E como virei paranóico, isso me lembra a pátria dos grandes filósofos, escritores, intelectuais, revolucionários, transformada repentinamente, nos anos 1930, na pátria de odientos seguidores do nacional-socialismo de um desequilibrado, Hitler, sedentos de guerra, querendo exterminar judeus, ciganos, comunistas e deficientes físicos.

Onde teria sido o erro da nossa esquerda? Já escrevi muitas colunas a respeito, não é o momento de repetir. Mas o quadro me lembra, há uns 30 anos, um cenário inverso, quando os peruanos, decepcionados com os socialistas preferiram não o liberal Vargas Llhosa, mas o aventureiro Fujimori que, em pouco tempo, acabou com a democracia e instaurou uma ditadura. Ele também era um desconhecido e um incompetente, mas sabia incorporar no seu simples programa os ódios populares.

Amanhã todos vão votar. Alguns revoltados protestarão como se fosse o momento de se eleger um novo Cacareco, outros desejarão realmente a reversão dos avanços sociais e o retorno a uma ditadura sem senadores, deputados e sem suprema côrte.

Onde nós erramos? e seu livro é credível porque nele, logo no começo, você admite ter cometido erros. Onde cada um de nós errou, nós os pequenos que costumam ser chamados de base, ou os líderes como você, Lula, Dilma, Gleisi, Falcão, para criar esse ódio cotra o PT e as reformas sociais? Onde vocês erraram, onde nós erramos?

Qualquer que seja o resultado, deveremos todos ter a humildade de fazer enfim sua mea culpa e assumir o resultado dessa mea culpa. Grandes e pequenos. Esperemos que ainda haja tempo para se evitar o mal maior.

Bom fim-de-semana Zé Dirceu!

Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro Sujo da Corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A Rebelião Romântica da Jovem Guarda, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil, e RFI. Editor do Direto da Redação.

Direto da Redação é um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins.

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