Carlos Bolsonaro é citado em investigação sobre ‘rachadinha’, na Câmara

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Publicado quarta-feira, 12 de fevereiro de 2020 as 15:49, por: CdB

Os irmãos Flávio e Carlos Bolsonaro; além dos ex-assessores, são alvos do MP-RJ em procedimentos sobre suspeitas de uso de funcionários fantasmas para devolução de salários, a prática conhecida como “rachadinha”.

 

Por Redação – do Rio de Janeiro

 

Filho “número 2” do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), o vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ) está um passo mais fundo no pântano em que habitam os cadáveres da ativista Marielle Franco (PSOL-RJ) e seu motorista, Anderson Gomes; entre outras vítimas da milícia armada que domina regiões inteiras nas principais capitais do país.

O vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ) teria instruído seus ex-funcionários, antes do depoimento deles à Justiça

Segundo o diário conservador carioca O Globo, com base em informações acessadas junto ao Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPE-RJ), Bolsonaro é suspeito de orientar os depoimentos de ex-assessores investigados em um esquema ilícito com recursos públicos, conhecido como “rachadinha”.

O jornal revela imagens da portaria e documentos da Câmara Municipal do Rio, obtidos via Lei de Acesso à Informação. Os fatos revelam que quatro ex-assessores de Carlos Bolsonaro investigados pelo MPE-RJ estiveram no gabinete do parlamentar no Palácio Pedro Ernesto, em 30 de outubro do ano passado. Apenas algumas horas depois, eles prestariam depoimentos no âmbito do procedimento de investigação sobre as suspeitas de rachadinha ligadas ao gabinete de Carlos, que estava na Câmara no dia das visitas.

Um ex-auxiliar do hoje senador e ex-deputado estadual Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ), também investigado, esteve no gabinete de Carlos no mesmo dia. “Nenhum deles frequentava mais a Câmara regularmente”, ressalta a matéria.

Plenário

Os irmãos Flávio e Carlos Bolsonaro; além dos ex-assessores, são alvos do MP-RJ em procedimentos sobre suspeitas de uso de funcionários fantasmas para devolução de salários, a prática conhecida como “rachadinha”. Dois dos ex-funcionários, que são irmãos, “constaram como assessores de Carlos entre 2001 e 2008, e a Câmara não tem registro de visita dos dois ao gabinete desde 2015”, acrescenta o jornal.

“Eles entraram no Palácio Pedro Ernesto junto com a mãe no dia 30. Ela foi exonerada no início do ano passado e também não tinha mais retornado ao local. Os dados e fotografias da Câmara Municipal mostram que, em 30 de outubro, Carlos Bolsonaro registrou presença no plenário da Casa às 14h15m.

“No entanto, a sessão daquele dia ficou suspensa até as 15h40m. Ele só surgiu nas imagens da sessão no plenário às 16h12m quando votou pela primeira vez. Carlos esteve no plenário até as 17h36m, quando votou pela última vez naquela tarde. Depois disso, não foi mais visto no plenário”, revela.

Homenagem

Não bastasse o possível envolvimento da família em um esquema ilegal, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) também é citado por fontes policiais no caso do ex-capitão Adriano da Nóbrega, morto em um confronto com policiais militares, na Bahia. Ele estaria na capital soteropolitana, nos dias que antecederam a morte do policial envolvido com a milícia que atua nas zonas Norte e Oeste do Rio.

Até a presidenta deposta Dilma Rousseff (PT) questionou, em entrevista a jornalistas, o motivo do assassinato do ex-capitão que seria o chefe do grupo criminoso Escritório do Crime, no Rio de Janeiro. Ele chegou a ser homenageado durante algumas ocasiões pela família Bolsonaro.

— Por que matar uma pessoa que estava sozinha numa casa? Por que não atiraram para não matar? — questiona a petista, sobre a operação conjunta entre as polícias do Rio de Janeiro e da Bahia, e que encontrou Adriano no interior do Estado nordestino.

Adriano foi abatido pelo Bope da Bahia no último domingo. Próximo ao clã Bolsonaro, Nóbrega teve sua mãe e esposa contratadas pelo gabinete de Flávio Bolsonaro quando deputado estadual do Rio de Janeiro.

‘Ignorância’

Dilma é favorável a uma investigação mais detalhada, por parte do Judiciário, sobre as circunstâncias do assassinato e constata que “a suspeita de queima de arquivo é muito forte”.

— Até porque o advogado veio a público dizer que o próprio Adriano tinha medo seu extermínio — acrescentou.

Sociólogo e estudioso das milícias, o professor José Cláudio Souza Alves afirma que as condições em que ocorreram a morte do ex-capitão do Bope são “preocupantes” e “estranhas”. Segundo afirmou, também em uma entrevista, depois de um ano de investigações, o desfecho da operação não configura um trabalho de “inteligência”, mas de “estupidez” e “ignorância”. Ou então o objetivo, em vez da sua captura, era de fato a sua eliminação.

— Há muitos indícios de queima de arquivo. Tem coisas inexplicáveis. Ele não estava numa área complexa, numa favela, num bunker com homens fortemente armados. Ele estava numa casa relativamente isolada, numa área rural no interior da Bahia. Se quer capturar, faz-se o cerco, anuncia-se o cerco e espera, dissuadindo qualquer tipo de reação — afirmou.

Para o sociólogo, que também é professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e autor do livro Dos Barões ao Extermínio – Uma História da Violência na Baixada Fluminense (APPH, 2003), a morte do miliciano foi “cronometrada” para não atrapalhar as eleições municipais deste ano.

Disputa

Apesar das circunstâncias que apontam para a “queima de arquivo”, Souza Alves afirma que o morto deixou rastros importantes que devem ser “lidos” pelos peritos.

— Por exemplo, há 13 celulares que foram encontrados. Vai depender agora de quem vai ‘ler’ esse morto e traduzir as coisas que estão na ação desse morto. A questão é se há interesse. A polícia, de fato, vai fazer esse trabalho? Ou mais uma vez haverá forças de poder real que interferem e alteram a leitura das ações, palavras e tudo aquilo que ele deixou para trás? A quem interessa realizar esse trabalho bem feito e a quem interessa intervir e atrapalhar, impedindo que tenhamos acesso a essas informações? É essa disputa que está se dando agora — concluiu.

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