Charlie Hebdo e o fanatismo religioso

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Publicado quarta-feira, 2 de setembro de 2020 as 12:48, por: CdB

Eu sou Charlie Hebdo – cinco anos depois do massacre, em Paris, dos cartunistas da revista satírica semanal Charlie por fanáticos jiadistas muçulmanos,  progride o obscurantismo religioso, principalmente no Brasil, onde no lugar dos jiadistas estão os evangélicos.

O fanatismo religioso é uma ameaça constante à liberdade e à democracia

Começa hoje em Paris, o processo dos autores dos assassinatos dos jornalistas de Charlie Hebdo. Junto segue o texto publicado há um ano no Observatório da Imprensa, um alerta contra a ascenção do fanatismo religioso também no Brasil. NÓS SOMOS TODOS CHARLIE

Charlie Hebdo e a volta do obscurantismo

A revista satírica Charlie Hebdo lembrou o atentado do 7 de janeiro de 2015 com uma edição bem sugestiva: a capa mostra à esquerda um cardeal e à direita um imã muçulmano soprando a chama de uma vela.

Com seus sopros provavelmente fétidos de mau hálito, ambos desejam a mesma coisa, em nome de Jesus ou Maomé: o advento do obscurantismo, para se apagar, enfim, o Iluminismo e mergulharmos novamente num novo período de trevas.

O número especial do Charlie Hebdo é mais que uma festa de luto pelo quarto aniversário do atentado cometido por dois jihadistas, fanáticos islâmicos, que liquidaram com rajadas de Kalashnikov a redação. Onze desenhistas e redatores foram mortos, inclusive uma visitante que participava da reunião de pauta da revista.

Esse número especial não quer apenas relembrar a chacina, Charlie Hebdo vai mais longe: esse novo milênio,  profetizado pelo francês André Malraux como religioso, será mais que isso. Será fundamentalista, fanático, intolerante e irá pouco a pouco asfixiar os livres pensadores até acabar por completo com o exercício da livre expressão.

Sem dúvida, dias piores virão para quem precisa de espaço para pensar. Não haverá mais lugar para os descendentes do pensamento livre de Voltaire, nem para a sociedade laica e nem para os ateus ou agnósticos.

Coincidentemente, há quatro anos, no mesmo dia do atentado contra Charlie Hebdo, uma espécie de escritor maldito francês, pois não se enquadra em nenhuma categoria ou escola político-literária, Michel Houellebecq, havia lançado como provocação um livro que já falava desse retorno ao obscurantismo religioso imposto a todos os franceses de uma maneira dócil mas firme. Era “Submissão”, uma descrição gradativa e virulenta de como os franceses tinham eleito, com o apoio dos socialistas, um presidente muçulmano para escapar do extremismo nacionalista de direita de Marine Le Pen.

As tintas eram fortes, Houellebecq teve sua ironia satírica logo taxada de islamofóbica. Não muito longe dos que também qualificam Charlie Hebdo de faltar com o respeito ao Islã e Maomé. Por quê? Porque criticar, rir, gozar das crenças religiosas está virando tabu. Deus, Papa, Maomé, Jesus estão virando personalidades intocáveis.

Todos os anos, no Conselho de Direitos Humanos da ONU, os países árabes tentam criar o delito de ofensa ou desrespeito à religião que, embora sem ser ainda punido, se transformaria rapidamente numa censura oficial a todos os tipos de símbolos religiosos. E, em alguns anos, teríamos o retorno da censura nas questões religiosas e, em seguida, a imposição gradativa dos mitos religiosos a todos.

Sem querer ser Cassandra com suas más profecias, isso logo vai acontecer. Porque mais dia menos dia, os muçulmanos terão o apoio do clero católico e dos evangélicos exportados pelos americanos que, mal conseguiram decidir o resultado das eleições brasileiras, já querem influir no currículo das escolas, acabar com o ensino do darwinismo e evolução das espécies para impor o criacionismo de Adão e Eva. Além de rejeitarem o ensino da sexualidade nas escolas.

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Capa do Charlie Hebdo hoje, em Paris

Riss, o diretor da revista e sobrevivente do massacre da redação, não acredita que seria possível reunir hoje, como ocorreu quatro dias depois do atentado, os líderes mundiais e o povo em favor da liberdade de expressão. Hoje, se houvesse um novo atentado, poucos diriam “Eu sou Charlie!”.

Para ele, embora aparentemente derrotados, os jihadistas estão conseguindo impor sua lei, o respeito aos seus dogmas e aos seus símbolos, enquanto os laicos e não religiosos, os voltarianos se retiram. Por tabela, no Brasil bolsonariano de hoje, o diversificado mas coeso clero evangélico vai tomando o controle e, se não houver oposição suficiente serão como os aiatolás iranianos que controlam o presidente o parlamento no Irã.

E, como os mitos religiosos são fortes, como eram já no antigo Egito, a consequência gradativa é o conservadorismo, a intolerância, o ressurgimento dos tabus sexuais e de comportamento, a desqualificação da igualdade da mulher com o homem. É o retrocesso, o obscurantismo que numa crise econômica pode levar ao populismo, ao fascismo e ao fim da liberdade.

Tanto para Riss, o diretor da publicação, como para Gérard Biard, redator-chefe, tudo vai se tornando blasfematório, enquanto a sociedade francesa vai se tornando anti-Iluminista, recua a liberdade de expressão e aumenta a intolerância. A culpa seria da extrema direita, na polarização que engendra o choque entre religiões, que reforça de uma parte o fundamentalismo cristão e de outra o fundamentalismo muçulmano. Porém, a esquerda seria também culpada por ter perdido sua força na defesa da sociedade laica.

Charlie Hebdo, diante das transformações que ocorrem na sociedade francesa, é uma espécie de trincheira avançada contra o obscurantismo. A prova é a coragem da redatora de sua equipe Zineb El Rhazoui que, apesar da pressão dos devotos, afirmou que a religião muçulmana tem de aceitar as leis da República francesa e se conformar com o humor, a razão e a crítica dos franceses como acontece com todas as religiões. Zineb El Rhazoui vive hoje sob proteção policial depois de ter recebido ameaças de morte ou fátuas.

Gérard Biard cita o peso da ameaça ideológica sobre a sociedade francesa que visa o universalismo, o espírito científico e tudo quanto permite a emancipação individual e coletiva. Guardadas as proporções e as diferenças entre evangelismo e islamismo, percebemos que desses três itens, pelo menos dois são também abominados por alguns membros religiosos do governo Bolsonaro — o universalismo e o espírito científico.

Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro Sujo da Corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A Rebelião Romântica da Jovem Guarda, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil, e RFI.

Direto da Redação é um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins.

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