Deus quer gospel e não MPB

Arquivado em: Arquivo CDB, Boletim, Destaque do Dia, Direto da Redação, Últimas Notícias
Publicado sexta-feira, 16 de outubro de 2020 as 08:30, por: CdB

A música brasileira é pagã, imoral, idólatra, esquerdista, degenerada ou coisa parecida?

A música brasileira ameaçada pelos gospels evangélicos
Imagino como reagiria o ministro da Educação Milton Ribeiro, um presbiteriano dos bons, da linha reacionária, acusado de homofóbico, se escutasse ou visse pelo Youtube o Johnny Hooker interpretando Flutua ou, na mesma linha, A Gente Junto com Ana Vitória.
Se pudesse, no mínimo tiraria do ar, do som, da imagem e do mercado.
Agora, qual seria a reação dos líderes evangélicos Silas Malafaia (que berrava querer um ministro tremendamente de direita, ou seja, de extrema-direita ou neo-nazifascista) e do Edir Macedo diante das sem-vergonhices, quando não esquerdices, cantadas e mostradas nos clips de música brasileira dos novos compositores da safra em formação?
Por estas e outras, a direção dos evangélicos tem um objetivo — transformar a música popular brasileira, MPB, pagã e pecadora, em GLD, ou gospel de louvores a Deus.
Composições para serem cantadas em festinhas de aniversários, noivados e casamentos, sem agarrações e beijações, como mandam a Bíblia e as atuais autoridades sanitárias para nos proteger do coronavírus.
Só se… Só se a reconversão do presidente Bolsonaro ao Centrão repercutir mal na expansão do evangelismo que, há alguns meses, se previa como capaz de ultrapassar, os 50% da população brasileira.
Porém, na hipótese de prosseguir a evangelização brasileira, nos moldes estadunidenses, não serão mais possíveis, por ofenderem a Deus, os grandes sucessos carnavalescos populares irreverentes como o capcioso Mamãe eu quero mamar, cantado por Carmen Miranda, em 1950, e o irreverente Eva me leva pro paraíso agora, de Haroldo Lobo, desrespeitoso com a história bíblica de Eva no Paraíso.
Esses dois sucessos seriam colocados no index, e ficaríamos com aquela dúvida — se Deus existisse seria um cara sério demais, sem jogo de cintura?
Seria assim, tipo tristeza não tem fim? Como dizia Vinicius de Moraes, a felicidade do pobre parece a grande ilusão do Carnaval. Mesmo assim, A Felicidade, esse grande poema seria condenado ao ostracismo por não falar no amor de Deus e pecar por citar o Carnaval.
Nessa destruição iconoclasta da nossa cultura musical, não escapariam nem aqueles versos poéticos pungentes do Humberto Teixeira quando a lama virou pedra e mandacaru secou, contando o drama dos retirantes da seca nordestina, na voz do Luiz Gonzaga. Assim como Asa branca.
Muito menos as canções da boemia, como a do apaixonado pela mulher do cabaré, Quem há de dizer, cantada pelo rei da voz, como era conhecido Chico Alves.
Mas a música popular brasileira, tem sido de resistência — Chico Buarque com Construção, Geraldo Vandré com Caminhando, Gilberto Gil com Procissão, Caetano Veloso cantando É proibido proibir. Com uma pausa romântica de Roberto Carlos, da jovem guarda, buzinando seu Calhambeque em plena ditadura militar.
E há as músicas da bossa nova, como Chega de saudade, de João Gilberto, e Garota de Ipanema, de Tom Jobim.
Existem ainda as canções bregas, a música sertaneja, Tom Jobim, Jair Rodrigues, Nara Leão, Elis Regina, Raul Seixas, Marisa Monte, a Legião Urbana (com Que país é este) e Cazuza e tantos outros cantores, compositores, condenados ao ostracismo musical para dar lugar aos gospels.
Será mesmo? Não acredito! A inspiração brasileira é mais forte e mais livre.
Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro Sujo da Corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A Rebelião Romântica da Jovem Guarda, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil, e RFI.

(Publicado no Observatório da Imprensa e no blog Náufrago da Utopia).

Links –
Flutua, Johnnie Hooker –https://www.youtube.com/watch?v=mYQd7HsvVtI
A Gente Junto, duo Anavitória – https://www.youtube.com/watch?v=QB7Be10XZSE
Mamãe eu Quero, Carmem Miranda – https://www.letras.mus.br/marchinhas-de-carnaval/430751/
Eva – https://www.letras.mus.br/haroldo-lobo/564943/
A Felicidade, Vinicius de Moraes – https://www.youtube.com/watch?v=jJzNszDGn9U
Paraíba, Luiz Gonzaga – https://www.youtube.com/watch?v=tVujX3Pw6vM
Quem há de dizer, Francisco Alves – https://www.youtube.com/watch?v=bfhd8fWTn8Y
Construção, Chico Buarque, Construção – https://www.youtube.com/watch?v=suia_i5dEZc
Disparada, Geraldo Vandré, Disparada – https://www.google.com/search?client=firefox-b-d&q=disparada+geraldo+vandr%C3%A9
Domingo no Parque, Gilberto Gil – Domingo no Parque – https://www.youtube.com/watch?v=bl7xHuEtlyg
Alegria, Alegria, Caetano Veloso – https://www.youtube.com/watch?v=wWhnq5YcBfk
Calhambeque, Robero Carlos – https://www.youtube.com/watch?v=1i_buqQeJcI

Direto da redação é um fórum de debates publicado pelo jornalista Rui Martins.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *