Dilma critica frente de oposição que não pede o ‘Fora Bolsonaro’

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Publicado terça-feira, 7 de julho de 2020 as 16:24, por: CdB

Ex-chefe do Palácio do Planalto, a presidenta deposta Dilma Rousseff (PT) avalia que a chegada de Bolsonaro ao poder representa, agora, a impossibilidade do país em resistir aos “impactos nefastos da crise sanitária”. E a responsabilidade é da elite brasileira, que decidiu apostar na tutela de um quadro da extrema-direita, achando que ele seria “moderado” quando chegasse ao topo do Executivo.

Por Redação – de São Paulo

A presidenta deposta Dilma Rousseff (PT) chamou de “brincadeirinha estarrecedora” a criação de frentes democráticas que não defendem a abertura de um processo de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro.  Dilma concedeu entrevista exclusiva ao diretor de redação da revista de centro-esquerda CartaCapital, Mino Carta, publicada nesta terça-feira. Para a presidenta derrubada no golpe de Estado, em 2016, Bolsonaro não caiu, até agora, porque “a direita ainda não tem substituto”.

Dilma, em sua última aparição pública, neste domingo, após conhecer da sua derrota na eleição para o Senado, por Minas Gerais
A presidenta deposta Dilma Rousseff (PT) foi derrotada também na eleição para o Senado, por Minas Gerais

Alvo de uma articulação no Congresso, Dilma descarta, por exemplo, o vice-presidente Hamilton Mourão e os governadores João Doria (PSDB) e Wilson Witzel (PSC) como quadros imediatos para a elite brasileira aplicar seu programa econômico durante a pandemia do novo coronavírus.

— Essa brincadeirinha de falar numa frente democrática sem ‘Fora, Bolsonaro’ é estarrecedora. Quem impede o país de gerir essa crise é o Bolsonaro, por mais quieto que ele fique. Eles não tem um nome alternativo ao Bolsonaro. Não acho que o Mourão seja — afirmou.

Luciano Huck

Ainda segundo Dilma, “o risco que eles correm é que eles não conseguem executar 1/3 da pauta sem o Bolsonaro. Este é o problema deles, é seríssimo. É quem? Doria? Witzel?”, questiona.

— Esse processo leva à cena fantástica de uma frente pela democracia que é a favor do Bolsonaro. É impossível — declarou.

Dilma também duvida do apresentador Luciano Huck como um quadro imediato para a direita brasileira.

— Huck é um sonho de verão da Globo. Não acredito em uma candidatura Huck, não — analisou a ex-presidente.

Derrota

A ex-chefe do Palácio do Planalto avalia que a chegada de Bolsonaro ao poder representa, agora, a impossibilidade do país em resistir aos “impactos nefastos da crise sanitária”. E a responsabilidade é da elite brasileira, que decidiu apostar na tutela de um quadro da extrema-direita, achando que ele seria “moderado” quando chegasse ao topo do Executivo.

— Eles apostaram na tutela do Bolsonaro, apostaram que ele seria moderado assim que subisse ao poder. Mas o Bolsonaro não tem o chip da moderação. Ele não é moderável. Naquele momento, sofremos a maior derrota. Na medida em que Bolsonaro assume em 2019, e Lula é impedido, nós sofremos uma derrota política — acrescentou.

Ao mesmo tempo, Dilma considera que a esquerda tem condição de se reerguer, porque os instrumentos para isso foram mantidos. Em comparação com a instauração da ditadura militar de 1964, a ex-presidente considera que, naquele tempo, o nível de repressão desencadeou uma “derrota histórica” para as forças progressistas permanecerem “relevantes na conjuntura”.

Golpistas

Atualmente, Dilma acredita que somente uma política ampla de gastos sociais será capaz de fazer o Brasil superar a crise econômica que acompanha a pandemia. É preciso, portanto, reverter a entrada “abrupta e violenta” do país na “idade do precariado”, patrocinadas pela aprovação de medidas de desmonte do Estado de algum bem estar social, como a reforma trabalhista.

— A covid-19 é um genocídio por vários aspectos: na saúde, na desestruturação integral da cadeia produtiva, na perda violenta de emprego. Ou o Bolsonaro mantém os 600 reais, ou nós vamos ter uma revolta social de grandes proporções. Não há como sair da pandemia sem uma política de gastos clara na saúde, para sustar o desastre que vai ser na economia. Não dá para supor que o Paulo Guedes consegue sair desse momento — observa.

Dilma analisou que o golpe sofrido por sua gestão em 2016 tem relação com uma história de golpes na América Latina. Para a ex-presidenta, apenas Hugo Chávez, na Venezuela, conseguiu resistir a golpes da oposição de direita, porque teve consigo a mobilização dos militares. Em sua análise, faltam instrumentos para as democracias na tentativa de conter forças golpistas.

— É um processo que ninguém sabe antes como vai acontecer, nem como. Se soubesse, as democracias teriam mais instrumentos. Elas não têm. Me diz onde que se resistiu a qualquer golpe sem Exército. Aqui na América Latina, nenhum, tirante o Chávez. Me diz um lugar onde um golpe foi feito e houve uma reação que o conteve sem Exército. Nem aqui, nem na Argentina, nem no Chile. Nós perdemos. Além disso, falta mobilização popular — disse.

Consciência

Em um exame sobre os erros das passagens petistas no Planalto, Dilma avalia que os mais de 13 anos no poder não representaram uma mudança no “tratamento político” da população mais pobre em relação a algumas conquistas sociais instauradas.

Para ela, boa parte dos brasileiros atribui mais a Deus, à família ou mesmo ao mérito próprio, quando se trata de medidas que marcaram a era PT, como cotas universitárias ou incentivos à geração de emprego. As disputas políticas que desaguam nessas medidas ficam em segundo plano na consciência popular.

— No Brasil, nós sempre pautamos as transições por cima. Não houve nenhuma transição de regime que houvesse a ampla participação das massas. Acho que os nossos governos, meu e do Lula, onde nós erramos substantivamente? Nós optamos por fazer a gestão, e não a captura das mentes e dos corações. O que estou falando é o tratamento político dessa questão, da luta pela desigualdade. É consolidar uma consciência de que tem muito ainda por conquistar, e que o caminho é largo — pontua.

Candidaturas

Foi nas manifestações de 2013 que Dilma afirma ter visto os primeiros indícios da instabilidade política que resultou na sua derrubada no 2º mandato.

— Fizemos uma avaliação em que estava excluída da pauta, de certa forma, a possibilidade de um golpe, mas ali começa a se ver que não é bem assim — continuou.

Na eleição de 2014, Dilma lembrou que o processo foi vigoroso na direção do golpe, quando o PSDB pede algo que o Brasil não via nos últimos anos: a recontagem dos votos

— O que nós percebemos é que começam a querer, por parte de um segmento do PSDB, uma espécie de ganho fácil do processo eleitoral — diz a ex-presidenta.

Após sua reeleição, Dilma afirma ter notado importante contribuição de Eduardo Cunha na Câmara dos Deputados, com financiamento estratégico de candidaturas e proposição de pautas-bomba.  Ali, ela percebia o presidencialismo de coalizão se esvair. 

Neoliberal

Típico da história do golpismo na América Latina, ela diz:

— Quando não é o Parlamento, é o Judiciário. E sempre um dá suporte para o outro.

Questionada sobre a longevidade do projeto de conciliação do PT com os representantes da elite brasileira, Dilma diz que sua gestão chegou no limite desse modelo.

— A ideia de que a conciliação é possível é a ideia de que se segmentos ganharem economicamente, você os ganha politicamente. Concordo que está errado. Mas eu não acredito que o período em que nós vivemos, recente, havia consciência de que não era adequado o presidencialismo de coalizão mais. Eu cheguei no limite dele. Ela era inviável. Comigo, todas as contradições do presidencialismo de coalizão emergiram — lembrou.

Dilma afirmou, ainda, que “a visão excludente da elite explica como e por que eles são capazes, perfeitamente, de engolir o Bolsonaro o tempo que for necessário, caso ele mantenha a agenda neoliberal que lhes interessa”.

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