Discurso heterodoxo de Guedes, em Davos, atribui crise global aos pobres

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Publicado terça-feira, 21 de janeiro de 2020 as 16:16, por: CdB

Com o PIB estacionado à beira da estagnação, desemprego em massa e a maior redução de investimentos públicos, em séculos de História do Brasil, Guedes optou por atribuir aos mais pobres a culpa pela degradação ambiental, em curso no país. Segundo afirmou, “o grande inimigo do meio ambiente é a pobreza” e “as pessoas destroem o meio ambiente porque precisam comer”.

 

Por Redação, com agências internacionais – de Davos, Suíça

 

Sob intensa pressão no Brasil, por investigações de servidores de sua mais alta confiança em um rumoroso escândalo de corrupção nos fundos de pensão dos quais um dia foi gestor, o ministro da Economia, Paulo Guedes, passou o dia inteiro, na fria e abastada estação de esqui, em conversas com investidores que custam acreditar nos argumentos de um dos mais sombrios Chicago’s Boys, em referência ao grupo de economistas ultraliberais, formados na escola norte-americana.

Com o PIB estacionado à beira da estagnação, desemprego em massa e a maior redução de investimentos públicos, em séculos de História do Brasil, Guedes optou por atribuir aos mais pobres a culpa pela degradação ambiental, em curso no país. Segundo afirmou, “o grande inimigo do meio ambiente é a pobreza” e “as pessoas destroem o meio ambiente porque precisam comer”.

As declarações, durante o painel“Moldando o futuro da indústria avançada”, uma das atividades do Fórum Econômico Mundial, foram seguidas das alegações de que os países ricos se preocupam com a agenda ambiental porque já desmataram as suas florestas.

— Eles (os pobres) têm todas as preocupações que não são as preocupações das pessoas que já destruíram as suas florestas, que já lidaram com suas minorias étnicas, essas coisas — disse Guedes.

PIB

Guedes foi a Davos para representar o governo brasileiro, após o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) alegar “questões de segurança” para o cancelamento de sua participação. No ano passado, Bolsonaro provocou constrangimentos ao proferir discurso de apenas cerca de seis minutos e também ao ser visto almoçando, sozinho, no restaurante popular de um supermercado local.

Mesmo diante da falta de liquidez na economia brasileira, Guedes reforçou que o congelamento de salários do funcionalismo público, iniciativa que consta na Proposta de Emenda à Constituição (PEC) Emergencial, é uma das maiores medidas do governo na frente das despesas. Ele acrescentou, ainda no painel, que, com a iniciativa perdurando por um ano ou dois, a situação fiscal será controlada.

Guedes citou a reforma da Previdência e a diminuição dos gastos com o serviço da dívida como as outras duas maiores medidas de controle de despesas, ambas já implementadas no ano passado. Segundo Guedes, o governo reduziu em R$ 100 bilhões o serviço da dívida de 2019 para 2020. O Ministério da Economia prevê alta de 2,4% para o Produto Interno Bruto (PIB) em 2020, mas há controvérsias quanto ao número previsto.

Percepção

O crescimento econômico brasileiro, contudo, não consta na agenda de renomados economistas, convidados de honra do Fórum Econômico Mundial. A realidade mostra o PIB estacionado entre zero e 1%, para 2019 e um número ainda incerto, para este ano. A visão controversa de que cortar gastos agressivamente estimulará e acelerará o crescimento econômico espanta alguns deles.

Em documento intitulado “Consolidação fiscal expansionista no Brasil”, publicado em 31 de dezembro, o governo argumentou que a limpeza das finanças públicas alimentará a confiança e a demanda do setor privado e, finalmente, um ‘boom’ na atividade econômica. Segundo o texto, que reflete o pensamento do ministro da Economia, Paulo Guedes, a consolidação fiscal em andamento terá um impacto positivo quase instantâneo.

“Essa consideração está baseada na percepção de que a política fiscal apresenta efeitos não-Keynesianos no atual contexto da economia brasileira, em contraste com a visão alternativa, a nosso ver equivocada, que propõe aumentar gastos como forma de estimular a atividade econômica”, disse o documento.

Crise financeira

Mas a noção de que esse empecilho ao crescimento, por si só, de alguma forma aumenta os investimentos e os gastos do setor privado tem sido amplamente criticada — muitos diriam desmascarada — desde a crise financeira de 2007-09.

Robert Skidelsky, professor emérito de economia política da Universidade Warwick, no Reino Unido, ridicularizou a noção de “fada da confiança” como não mais crível que a fada dos dentes, argumentando que “a recuperação (econômica) pode ocorrer apesar da austeridade fiscal, mas nunca por causa dela”.

Embora os mercados tenham respondido fortemente após a reforma da Previdência, a economia não tem feito o mesmo e, provavelmente não irá, segundo Monica De Bolle, pesquisadora sênior do Instituto Peterson de Economia Internacional, em Washington, ouvida pela agência inglesa de notícias Reuters.

Austeridade

Embora o Brasil precise recuperar as finanças públicas de maneira mais equilibrada, De Bolle diz que não há evidências empíricas ou históricas de que a “austeridade expansionista” proporcione crescimento econômico. O Brasil deveria visar as ineficiências do setor público para gerar economia e financiamento de programas sociais para proteger os mais vulneráveis dos efeitos da austeridade em vez de reduzir o tamanho do Estado em si.

Mais do que isso, um aperto tão agressivo é desnecessário. Ao contrário da Argentina ou do Brasil no final dos anos 1990, o país hoje não enfrenta uma crise no balanço de pagamentos. O Brasil possui 360 bilhões de dólares em reservas em moeda estrangeira, o investimento direto estrangeiro mais do que cobre o déficit em conta corrente e as empresas locais estão emprestando mais em reais, reduzindo a exposição do setor privado à dívida em moeda estrangeira.

— Essa idéia de austeridade expansionista deveria ter morrido com as experiências dos mercados emergentes nos anos 1990. Falhou miseravelmente, especialmente na Ásia. É uma mistura de ideologia e má economia — conclui De Bolle.

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