A divergência tática está na estratégia

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Publicado sexta-feira, 24 de julho de 2020 as 09:58, por: CdB

Errado quem pensa que no processo cumulativo de uma frente ampla em defesa da democracia antes há que se celebrar a união de todas as forças de esquerda.

Por Luciano Siqueira – de Brasília

Errado quem pensa que no processo cumulativo de uma frente ampla em defesa da democracia antes há que se celebrar a união de todas as forças de esquerda.

Nunca foi assim.

Tancredo Neves teve apoio de uma ampla frente para derrotar a ditadura militar no Colégio Eleitoral, em 1985
Tancredo Neves teve apoio de uma ampla frente para derrotar a ditadura militar no Colégio Eleitoral, em 1985

Basta ver que em nossa história recente, quando do lance final que derrotou a ditadura militar, a vitória de Tancredo sobre Maluf no Colégio Eleitoral, da Aliança Democrática, então constituída justamente para inverter a correlação de forças, correntes à esquerda se omitiram, inclusive o então ascendente PT.

Não funciona, portanto, nem aqui nem alhures, esse roteiro esquemático. Porque prevalecem, em alguns partidos, incompreensões e mesmo uma concepção da luta jamais vitoriosa, mas suficiente para encarcerá-los no ciclo estreito e estéril do principismo.

Ao quase centenário PCdoB, especialmente do início dos anos sessenta em diante, a compreensão arguta e astuciosa da luta destinada a corroer as bases do adversário principal não tem faltado. É uma das marcas de sua lucidez tática.

Principais líderes

Não são poucos, entretanto, no dramático cenário de agora, que se perguntam sobre o porquê da rejeição, pelo PT e pelos seus principais líderes, a uma conjugação de forças ampla indispensável para isolar, enfraquecer e derrotar o governo Bolsonaro de tantas desgraças.

Afinal, Lula se elegeu e governou por oito anos quando, enfim, adotou a amplitude e a pluralidade para alcançar a maioria.

Dilma se elegeu e se reelegeu nesse mesmo diapasão. Sofreu o impeachment em parte quando se descuidou da correlação de forças real.

Onde está, afinal, o cerne da discórdia?

Está no programa partidário, vale dizer, no projeto estratégico, uma diferenciação importante entre comunistas e petistas.

O PT, pelo menos suas correntes internas majoritárias, vislumbra como objetivo estratégico a reconquista do governo central, ainda que o Estado mantenha a sua essência, escala de poder suficiente para alterar o sentido de políticas públicas em favor da maioria da população, dentro dos marcos do bom funcionamento das instituições democráticas.

Nada errado nisso, porém insuficiente , nas atuais circunstâncias críticas do mundo, sobretudo, para a superação da prolongada crise estrutural da sociedade brasileira, que frustra necessidades e aspirações do povo, enfraquece as salvaguardas da soberania e mina gradativamente as bases do Estado nacional.

Reformas estruturais

O PCdoB peleja igualmente nessa trincheira, mas mirando o plano mediato propugna reformas estruturais progressistas, tributária, agrária, urbana, educacional, midiática, judiciária; fortalecimento do SUS, instituição de um Sistema Nacional de Segurança Cidadã, enfeixadas num plano nacional de desenvolvimento, que, uma vez conquistadas mediante ampla e prolongada mobilização social, proporcionarão substancial elevação no padrão de vida material e espiritual do povo e o alcance de uma consciência social avançada, apta a vislumbrar a própria superação do sistema dominante.

Para tanto, urge deter o desmonte gradativo do Estado democrático de direito pelo bolsonarismo.

Não cabe simplesmente aguardar que a situação se agrave e se crie, dois anos e meio à frente, ambiente eleitoral favorável a um a nova vitória das forças progressistas.

Muito cartesiano para que dê certo.

Aí está a diferença de fundo. O que não invalida a aliança, digamos, estratégica entre os dois partidos,  momentaneamente díspares nas intenções táticas.

 

Luciano Siqueira, é médico, vice-prefeito do Recife, membro do Comitê Central do PCdoB.

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil

 

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