Esgoto na Billings ameaça alimentação de indígenas Guaranis

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Publicado terça-feira, 6 de agosto de 2019 as 13:47, por: CdB

Em períodos de pouca chuva, como o inverno, mesmo com preservação da comunidade, poluição no corpo central da represa tem avançado e contaminado peixes.

Por Redação, com RBA – de São Paulo

Indígenas guaranis que vivem à margem da represa Billings, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista, estão com a segurança alimentar ameaçada. Dependentes da agricultura e da pesca proveniente do braço de rio da região, em períodos de pouca chuva como o inverno, os impactos da poluição na Billings ficam mais evidentes aos povos originários.

De acordo com gestor ambiental e indigenista, em março já houve uma grande mortandade de peixes

Na aldeia Guyrapaju, cercada pela Mata Atlântica, a liderança guarani Karay Mirim relata ao repórter Jô Miyagui, do Seu Jornal, da TVT, que a comunidade tem deixado de pescar, por exemplo, por receio de que os peixes estejam contaminados. “Olhando para a água já dá para perceber isso (poluição), porque vem um volume esverdeado que dá para perceber que ela não está boa”, explica Mirim. “Quando eu tinha 6, 7 anos, lembro que a gente pescava muito e isso traz um pouco de saudade da infância”, recorda.

Qualidade da água

Pesquisadora e professora em gestão ambiental pela Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), Marta Marcondes, que coleta e analisa a qualidade da água da Billings em diversos pontos, afirma que o avanço da poluição sobre o território indígena, onde a água tem qualidade razoável, pode ser em decorrência de um baixo volume de água ou do aporte maior do corpo central da represa, entre São Paulo e Diadema, que tem os piores índices de qualidade. “O corpo central acaba comprometendo os braços (do rio) que são mais limpos”, ressalta a especialista.

O indigenista e gestor ambiental Edmilson Gonçalves acrescenta que, a despeito da preservação feita pelos indígenas, o esgoto na Billings também acaba atrapalhando na subsistência dos guaranis.

Em março, de acordo com o gestor, chegou a ocorrer uma grande mortandade de peixes na represa. “Você tem pelo menos quatro espécies de peixes que podem alimentar toda essa população, são cinco aldeias que abrange a represa. E, com o caso da poluição ambiental, isso interfere diretamente nos animais e, por consequência, na alimentação dos indígenas”, destaca.

Polícia de São Paulo

Na noite de 4 de maio, Rafael Aparecido Almeida de Souza, de 23 anos, viu o irmão sendo abordado por policiais. Interessado em saber o que acontecia, se aproximou.

Quando estava a cerca de 100 metros de distância, foi alvejado por um tiro disparado por um dos soldados. Caiu no chão e morreu. No boletim de ocorrência, o policial disse que Rafael Aparecido tentou tirar sua arma. Depois, na reconstituição, ao se verificar a distância de que Rafael estava da cena, o policial mudou o discurso e confessou ter disparado por “medo de que algo acontecesse”.

Dezessete dias depois, em 21 de maio, Rian Rogério dos Santos, de 18 anos, passava de moto em frente a uma escola de São Paulo quando foi atingido na cabeça por golpe de cassetete efetuado por um policial. Ao cair, bateu a cabeça, teve traumatismo craniano e morreu depois. “Várias testemunhas dizem que não houve nenhuma motivação. Era um jovem que frequentava a igreja Congregação Cristã, sem nenhum tipo de antecedente, trabalhador”, diz o advogado Ariel de Castro Alves, membro do Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Humana de São Paulo (Condepe), em entrevista à jornalista Marilu Cabañas, na Rádio Brasil Atual.

Assim como Rian Rogério, o jovem Rafael Aparecido também trabalhava, estudava e não tinha histórico de crime. Ambos estão agora na estatística das 414 pessoas mortas pela polícia de São Paulo no primeiro semestre, sendo 358 mortas por policiais em serviço e 56 por PMs de folga. Em comparação com igual período de 2018, houve aumento de 11% nas mortes cometidas por policiais em serviço.

– Isso é inaceitável e mostra o enorme despreparo dos policiais que estão sendo, através dos comandantes, influenciados para que pratiquem violência cada vez mais – critica Ariel. Em geral, muitas das 414 pessoas mortas pela polícia são suspeitas de ter cometido algum crime. Na prática, em certos casos, como dois jovens Rafael Aparecido e Rian Rogério, não cometeram nenhum crime. O membro do Condepe destaca que há situação em que os policias inclusive simulam confronto e resistência, colocando arma de numeração raspada na mão do morto e efetuando disparos para que apareçam resíduos de pólvora na mão.

– Temos que considerar o aumento da violência policial em razão dos discursos do próprio governador João Doria, que tem dito, desde a campanha, que contrataria os melhores advogados para os policiais que matam, que iria defendê-los. O Doria também disse que ‘lugar de bandido é no cemitério – afirma Ariel.

Para ele, o estímulo à violência propagado pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL) e o pacote anticrime do ministro da Justiça, Sergio Moro, o qual prevê o excludente de ilicitude toda vez que o policial matar e alegar que estava com medo ou agiu sob violenta emoção, são elementos que têm legitimado a violência policial. “Temos mandantes desses assassinatos cometidos por policiais, inclusive desses dois inocentes, o Rafael de Souza e o Rian Rogério. Os mandantes são o governador João Doria, o ministro Sergio Moro, que tem proposta para aumentar a violência policial, e o próprio presidente Jair Bolsonaro. Eles estão incentivando a violência policial e seriam, então, espécies de mandantes de toda essa brutalidade que tem aumentado bastante em São Paulo e no Brasil.”

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