Esquerda propõe “barreira de contenção” contra o bolsonarismo

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Publicado sexta-feira, 29 de novembro de 2019 as 18:33, por: CdB

No Brasil, essa conjuntura internacional sombria desembocou no governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro, significando ruptura do pacto político trazido pela Constituição de 1988. É um governo caracterizado por “autoritarismo visceral em alta

 

Por Redação, com Sueli Scutti/vermelho.org – de São Paulo

Com o tema O Estágio Atual do Desenvolvimento, suas Repercussões sobre a Democracia e a Política de Saúde – Nossos Desafios!, Renato Rabelo, presidente da Fundação Mauricio Grabois, fez a conferência de abertura do 6º Encontro Nacional de Saúde do PCdoB, em curso na sede da agremiação partidária. Ele analisou a situação político-econômica do Brasil sob um cenário internacional em que há movimentação de forças entre as superpotências.

Renato Rabelo, dirigente do PCdoB, ressalta a necessidade da formação de uma reação ao neofascismo crescente, no país
Renato Rabelo, dirigente do PCdoB, ressalta a necessidade da formação de uma reação ao neofascismo crescente, no país

A seu ver, há uma “tendência de decomposição estrutural da hegemonia dos Estados Unidos, ascensão de novos polos de poder e crescente multipolarização”, na qual se destaca a Ásia, particularmente China, Índia e Rússia. Para Renato, acirra-se a disputa pela hegemonia mundial A guerra comercial entre as duas grandes potências – Estados Unidos e China – é a ponta do iceberg pelo predomínio tecnológico.

Ele ressalta que a crise estrutural do capitalismo traz como consequência crise social e mudanças políticas, em escala mundial. Crise que se desdobra em hipertrofia financeira que, por sua vez, acarreta recessão, desenvolvimento medíocre e déficit de demanda persistente. Nesse contexto, “o outro lado da moeda é a ascensão econômica chinesa, um fenômeno dos mais impressionantes dos últimos tempos”.

Ortodoxia

Esse cenário põe em questão a própria capacidade de as democracias liberais ocidentais se apresentarem como alternativa viável e abre caminho para grupos neofascistas e xenófobos que põem a extrema-direita em evidência em vários países, como Espanha, Alemanha, Itália, Áustria, França e Reino Unido. Renato entende que essa transição na ordem mundial provoca duro impacto na América Latina e, sobretudo, na América do Sul. “O que está em jogo é a dominância neoliberal e neocolonial, com formas autoritárias, fascistizantes, versus a luta antineoliberal e antineocolonial”.

No Brasil, essa conjuntura internacional sombria desembocou no governo de extrema-direita de Jair Bolsonaro, significando ruptura do pacto político trazido pela Constituição de 1988. É um governo caracterizado por “autoritarismo visceral em alta; ímpeto pela aplicação do ultraliberalismo, ao modo de uma ortodoxia já superada em outros países; e neocolonialismo de profunda capitulação perante os Estados Unidos”. Isso tudo sob o manto do “fundamentalismo religioso”.

A aplicação da política ultraliberal requer “casamento com uma política autoritária”, diz Renato. Para a grande burguesia financeira e empresarial associada ao capital estrangeiro, “nesse jogo a democracia política é menos importante que a economia neoliberal”. O “eixo central do governo é o desmonte do Estado nacional desenvolvimentista, das instituições democráticas, da soberania do país e da legislação trabalhista”. Não consta da agenda do governo qualquer plano para retomar o crescimento econômico e atenuar a crise social.

Soberania

O dirigente da Fundação Mauricio Grabois alerta para o equívoco de se considerar que Bolsonaro é um “desastre passageiro”. O atual presidente da República simboliza uma tendência mundial e conta com apoio de uma base social considerável e ativa, formada por parte majoritária da classe dominante e do aparato militar e policial.

Diante de convulsão social e institucional em países vizinhos e de protestos contra o seu governo aqui no Brasil, o presidente brasileiro ameaça com recrudescimento do aparato de repressão política e policial e alimenta a tensão, o preconceito, a selvageria e a perseguição a adversários – reais ou imaginários –, como combustível para seus seguidores e como forma de se sustentar.

Renato evidencia que a oposição ao governo de “feições fascistas” se movimenta no Parlamento, no consórcio programático dos governadores do Nordeste e na ação popular nas ruas, conforme o nível de acumulação de forças do momento. E cita o exemplo da reforma da previdência, em que a oposição, embora sem força para derrotar a emenda constitucional, foi decisiva para evitar uma tragédia ainda maior para os trabalhadores brasileiros.

— Estamos diante de uma situação emergencial, e é preciso dialogar e unir todas as forças políticas possíveis de serem unidas, para defender a democracia e a Constituição — afirmou.

Barreira

Uma bandeira que “cabe não só à esquerda, mas a todas as forças democráticas, liberais sensatas e patrióticas”. A emergência da luta democrática se impõe, “podendo reunir múltiplas oposições de vários setores sociais que levantam essa bandeira. As lutas pela soberania do país e pelos direitos destroçados estão interligadas”, afirma o dirigente.

Para ele, a unidade das forças democráticas e progressistas deve ser buscada já para as eleições municipais de 2020, sobretudo nas capitais e em grandes centros urbanos. Ainda que, circunstancialmente, essas forças possam “marchar separadas”, elas precisam ter a capacidade de “golpear juntas” para alcançar êxitos na disputa do próximo ano, armando uma “barreira de contenção” ao retrocesso patrocinado por uma minoria extremada, barulhenta e violenta liderada pelo presidente da República.

O encontro, que prosseguia nesta sexta-feira, tem a participação de parlamentares, pesquisadores, professores, gestores públicos de diversos estados, servidores, conselheiros e usuários do sistema de Saúde, dirigentes de movimentos comunitários, lideranças dos trabalhadores e representantes de conselhos profissionais.

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