O Estado a serviço do desmatamento

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Publicado sexta-feira, 9 de agosto de 2019 as 09:37, por: CdB

A negação à ciência é uma das características mais marcantes do governo Bolsonaro. Após atacar as universidades públicas e as instituições científicas como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE ) e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a vítima da vez da cruzada obscurantista foi o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

Por Wadson Ribeiro  – de Belo Horizonte

Com o intuito de agradar o agronegócio e de abrir mão do controle da Amazônia, o governo tenta desqualificar os dados sobre desmatamento e aparelhar uma instituição científica que não pode servir aos interesses de governo, mas sim ao Estado brasileiro.

O governo tenta desqualificar os dados sobre desmatamento

A demissão do físico Ricardo Galvão do comando do Inpe, após a divulgação dos dados que atestam o aumento vertiginoso do desmatamento na Amazônia (que no mês de julho deste ano cresceu 278% em relação ao mesmo período do ano passado), significa um duro golpe de Bolsonaro na independência e na qualidade dos órgãos responsáveis pelo monitoramento do desmatamento no Brasil. Para Douglas Morton, diretor do laboratório de Ciências Biosféricas no Centro de Voos Espaciais da Nasa, os dados do Inpe, além de “inquestionáveis”, são, na verdade, “inconvenientes” para Bolsonaro e refletem como o atual governo encara a ciência no Brasil.

O trabalho do Inpe consiste no processamento e na análise de imagens de satélites que monitoram as áreas de desmatamento na Amazônia. O Instituto, por meio do sistema Prodes, produz a taxa anual de desmatamento, verificando em tempo real através do Deter (Detecção de Desmatamento em Tempo Real) a evolução do desmatamento.

Foram em função de sistemas como esses, que disponibilizam dados para a atuação do Ibama, que o Brasil havia conseguido diminuir nos últimos anos os índices de desmatamento. Esse sistema é uma ferramenta que permite que os órgãos de controle ambiental identifiquem o descumprimento da lei e, assim, coibirem ações criminosas, contribuindo para a preservação do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável.

Ministro da Agricultura

O ministro da Agricultura, Ricardo Salles, anunciou que pretende criar uma nova metodologia para divulgação dos dados sobre desmatamento da Amazônia e que irá contratar uma empresa privada para exercer o monitoramento, extinguindo assim o Deter.

Para o físico Ildeu Moreira, presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), é arriscado abrir mão do conhecimento da Amazônia, com as riquezas e o potencial que ela tem. Na verdade, o que o governo pretende é jogar por terra qualquer controle sobre a expansão do agronegócio, da extração ilegal de madeira e do garimpo predatório na Amazônia, além de abrir mão de controle para beneficiar os interesses do capitalismo estrangeiro.

O desenvolvimento da ciência e a produção de novas tecnologias para a preservação do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável são ativos importantes para um país com um enorme volume de recursos naturais como o Brasil.

Nosso necessário desenvolvimento econômico, industrial e tecnológico não precisa percorrer caminhos como o da Revolução Industrial inglesa, onde o desenvolvimento esteve atrelado à destruição ambiental. O mundo atual, especialmente o Brasil, precisa de um salto civilizacional, algo somente possível no plano da razão científica e de um mundo habitável.

Wadson Ribeiro, é presidente do PCdoB-MG, foi presidente da UNE, da UJS e secretário de Estado.

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil

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