Evangelismo brasileiro copia o formato iraniano

Arquivado em: Arquivo CDB, Boletim, Destaque do Dia, Direto da Redação, Últimas Notícias
Publicado segunda-feira, 23 de dezembro de 2019 as 18:10, por: CdB

O evangelismo brasileiro, aparentemente uma versão popular e um tanto caricata do protestantismo, é um movimento mais político que religioso. Seu objetivo principal nada tem de divino: é o de utilizar a fé ingênua de seus seguidores para impor no Brasil um regime teocrático, semelhante aos que os iranianos criaram, o da religião acima do Legislativo, Executivo e Judiciário. Um regime sem liberdade  num Estado de economia liberal.

Rui Martins, editor do Direto da Redação:
Teocracia evangélica brasileira poderá acabar com a democracia, e isso em nome de Deus

Para quem é pesquisador, o momento é único, pois mostra uma transformação no comportamento religioso dos brasileiros, praticamente inédita, sem qualquer forma aparente de pressão, cujas consequências se fazem sentir na política, mas sorrateiramente poderão modificar os hábitos sociais, a música, a literatura, as expectativas de vida, com reflexos no cinema, no teatro e no próprio comércio. O Brasil é um país em mutação.

E a pergunta se impõe: mutação para melhor ou pior? Vou procurar alinhar os fatos, deixarei a conclusão aos leitores e pesquisadores.

Se começássemos pelo fim, frustraríamos quem prefere acompanhar a evolução dos processos sociais. Por isso, vamos ver onde tudo começou, sem ter de fazer um grande retrocesso, pois tudo ocorreu de maneira rápida, mesmo se tratando de um fenômeno envolvendo tradições e gerações de seres humanos.

O ponto de partida fica há 200 anos, 1820, quando chegaram ao Brasil os primeiros imigrantes alemães e suíços. Alguns foram para São Paulo e Rio Grande do Sul; a maioria, porém, se dirigiu para o leste de Minas Gerais. O ciclo da cana-de-açúcar estava chegando ao fim e ia começar o do café.

Esses lavradores, que logo se impuseram na região, não eram católicos como os brasileiros, mas luteranos e uns poucos calvinistas. Para viver na região e nela assegurar o desenvolvimento da agricultura, tinham recebido o direito de manter sua fé protestante e o império brasileiro garantia o pagamento de um salário mínimo para o primeiro pastor imigrante. Era, porém, proibida a construção de igrejas, para evitar uma concorrência com a religião oficial, o catolicismo.

Essas regiões prosperaram, tornaram-se importantes cidades e os grupos protestantes se desenvolveram. Enquanto as comunidades luteranas progrediam no Sul, porém, o quadro era diferente nas Minas Gerais: por falta de pastores luteranos, havia uma dispersão dos fiéis. Essa lacuna seria preenchida no fim do século XIX pelos presbiterianos.

Bandeira da teocracia iraniana

Ao contrário dos luteranos, cujo credo foi levado ao Brasil pelos imigrantes, a Igreja Presbiteriana, de origem calvinista, chegou ao país na metade do século XIX por um missionário norte-americano, Ashbel Green Simonton, com o objetivo de promover a evangelização dos brasileiros. Ao chegarem a Minas Gerais, os primeiros presbiterianos encontraram os luteranos, que a eles se agregaram. É importante a participação dos mineiros convertidos do catolicismo para o presbiterianismo, que substituíram os missionários norte-americanos, na expansão dessa denominação protestante, pois Minas funcionou como um celeiro de pastores para as igrejas presbiterianas de outros estados brasileiros.

Entre eles, o mineiro Boanerges Ribeiro, que, depois de formado no Seminário de Campinas, foi ser pastor na cidade portuária de Santos, justamente na época em que o Partido Comunista, de volta à legalidade após a libertação de seu líder, Luís Carlos Prestes, tinha conseguido a maioria absoluta na Câmara Municipal. Boanerges transformou a congregação de presbiterianos de Santos, que se reunia no templo da Igreja Luterana, numa frente avançada contra o comunismo, recuperando para a igreja muitos dos membros simpatizantes do partido.

Depois de deixar Santos e passar alguns anos nos EUA, e de ser reconhecido como um dos mais inteligentes e cultos líderes do presbiterianismo, tendo sido escritor e diretor da Universidade Mackenzie, Boanerges Ribeiro chegou ao posto máximo de presidente do Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana.

O Brasil vivia o começo da ditadura decorrente do golpe de 1964.

Dentro da Igreja Presbiteriana e de seus seminários, expandia-se a ideologia do evangelho social. A intervenção de Boanerges Ribeiro foi forte, com o fechamento de seminários, a expulsão de pastores considerados esquerdistas e mesmo denúncias ao governo militar. Entre os pastores expulsos estava James Wright, filho de missionários norte-americanos no Paraná, conhecido por sua participação na missa em memória de Vladimir Herzog.

Não foram apenas os presbiterianos os apoiadores do golpe de 64, mas todas as denominações protestantes ou evangélicas. Tinha sido um rompimento com as próprias origens libertárias do protestantismo europeu. O protestantismo verde-amarelo nada tinha a ver com Lutero ou Calvino, atrelado que já estava ao conservador protestantismo norte-americano.

Nessa época, os protestantes não chegavam a 4 milhões em todo o Brasil. A Igreja Católica ainda era socialmente ativa, mas regrediu alguns anos mais tarde, abandonou a AP e os movimentos inspirados em um evangelho social. Foi quando as denominações evangélicas norte-americanas mais conservadoras decidiram invadir o Brasil. Primeiro com o movimento popular de cura divina e, logo a seguir, adaptando à teologia cristã a teoria de best-sellers americanos – como O Poder do Pensamento Positivo, de Norman Vincent Peale – para a ideologia do Evangelho da Prosperidade.

A visão capitalista do Evangelho da Prosperidade vem derrubando o tradicional catolicismo e conquistando fiéis seguidores, principalmente entre os brasileiros mais pobres – até 2050, deve haver mais evangélicos do que católicos no Brasil. Hoje, já são mais de 30%. As denominações protestantes tradicionais, inclusive os presbiterianos, não participam dessa expansão. Ela é exclusiva das chamadas igrejas evangélicas: Assembleia de Deus, Igreja Pentecostal, Congregação Cristã e Igreja Universal, entre as principais.

Até aí, essa expansão evangélica nada teria de reprovável. Poderia ser qualificada como um fenômeno de moda, se não fosse a decisão dos evangélicos de se reunir em termos políticos. Isso significou a eleição do atual presidente Bolsonaro e o aumento das bancadas evangélicas na Câmara, no Senado e, logo mais, nas Câmaras municipais. Deixando de lado as frases de Cristo, “o meu reino não é deste mundo” e “a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, os evangélicos querem hoje repetir, no Brasil, o que a Igreja Católica foi até o fim da Idade Média e o regime em vigor nos Estados teocráticos muçulmanos, como o Irã.

No Irã, nação teocrática que poderia estar entre os mais democrático dos países muçulmanos, existem dois poderes. O religioso é superior e controlador do poder político. Hoje, ao que parece, os evangélicos pretendem criar no Brasil, de alguma forma, a supremacia do poder evangélico sobre o poder político, incluindo a criação e a revogação de leis e a supremacia sobre o STF.

A experiência com a eleição de Bolsonaro foi conclusiva para os evangélicos. Com o crescimento dessas igrejas, com seu evangelho de consumo e a inspiração capitalista baseada na prosperidade econômica, os evangélicos logo disporão de maioria no Parlamento e dominarão a vida política brasileira. Serão capazes de mudar nossos códigos Civil e Penal e de ditar a vida social brasileira, acabando, por exemplo, com o Carnaval e os cultos de origem africana, instituindo uma espécie de rigoroso governo teocrático. A ditadura de Deus será mais terrível que a dos militares. (Publicado também no Observatório da Imprensa).

***

Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Foi criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro sujo da corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A rebelião romântica da Jovem Guarda, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil e RFI.

Direto da Redação é um fórum de debates editado pelo jornalista RuiMartins.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *