Hanoi, Vietnã, relato de viagens – Introdução

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Publicado sexta-feira, 4 de maio de 2018 as 11:34, por: CdB

Nosso correspondente Rui Martins conta sua ligação com o Vietnã, começada  em fevereiro de 1968, na Redação do Estadão, e suas duas viagens a Hanoi. Hoje publicamos a Introdução e, a seguir, o Vietnã nos nossos dias, 43 anos depois de conquistada a paz e da derrota técnica dos Estados Unidos.

Por Rui Martins, de Hanoi, Vietnã:

Estávamos em 1994, em Hanoi, Vietnã. Lembrando dos meus tempos de serviço militar, como cabo no 6GACosm, em Santos, prestei homenagem aos heroicos vencedores da França e dos Estados Unidos

Hanoi, capital do Vietnã, era uma cidade mítica no meu imaginário de jovem jornalista do antigo Estadão, da rua Major Quedinho. Todos os dias crepitavam no telex as notícias daquele país distante, onde o povo lutava com a cara e a coragem contra a máquina de guerra americana.

Vez ou outra, Miguel Urbano Rodrigues, naquela época meu guru, vinha junto de minha mesa de ferro como todas da redação, forrada na superfície com uma camada de borracha verde escura para amortecer o barulho das máquinas de escrever.

Trazia nas mãos pedaços das bobinas de telex que, como editorialista, podia ir buscar nas cabinas e, no seu entusiasmo de português comunista e anti-salazarista, refugiado no Brasil, me contava como os americanos não conseguiam avançar principalmente na época das monções, atolando na lama, caindo em armadilhas e reagindo com bombardeios de aldeias com helicópteros que, vez ou outra, eram derrubados por viets escondidos nas florestas, disfarçados e nela integrados como folhas, galhos e troncos de árvores.

De nada adiantavam as bombas com o terrível agente laranja, o desfolhante herbicida com dioxina, que destruía as florestas e cujos efeitos iriam se prolongar por mais de cinquenta anos.

Logo se formavam grupinhos, Mathias Arrudão, Hélio Damante católico progressista, Mazzini, meu vizinho de mesa, Ivan de Barros Bela, e outros cujos nomes me faltam, para comentar. Em janeiro de 1968, a guerra no Vietnã deu a grande virada que levaria às primeiras negociações de paz em Paris e os americanos se convenceram terem entrado num atoleiro do qual deveriam sair, o que se concretizou só em 1975.

Era o avanço do Têt, uma tática militar do general Giap, o mesmo de Diem Bien Phu, de envergadura nacional destinada principalmente a sensibilizar a opinião pública americana, já que uma vitória se tornava impossível face ao poderio bélico dos EUA. Essa ofensiva do Têt, ficou assim conhecida por ocorrer no primeiro dia do ano do calendário vietnamita, o Têt Nguyên Dán.

Nosso pequeno grupo se excedeu, houve como que uma pequena comemoração e o pior me aconteceu – no dia seguinte, Tácito Costa, encarregado do contato com o pessoal da Redação, me comunicou minha demissão imediata. Era fevereiro de 1968, lá fora continuava a ditadura militar. Essa demissão me foi muito dolorida, porque eu gostava do jornal, do seu ambiente e porque me privava em definitivo do pequeno grupo de “conspiradores”. Mas não há razão para chorar, no dia seguinte eu já era o chefe da Redação de São Paulo, da Última Hora do Rio, a UH do Samuel Wainer.

Em outubro de 1969, eu estava no Café Sarah Bernhardt, na Île de la Cité, em Paris, já como exilado e, em torno do café, jovens manifestantes e policiais se enfrentavam, alguns vinham se bater nas proteções de vidros do café, totalmente fechado. Era uma manifestação contra a guerra no Vietnã. Os franceses conheciam bem a região, para eles, tinha sido a Indochina, da fragorosa derrota frente aos vietnamitas comandados pelo general Giap, em Diem Bien Phu. O mesmo Giap, da ofensiva do Têt. Guerra e paz, ali naquele café, eu selava um romance de amor que durou dezesseis anos e me daria duas filhas parisienses.

Hanoi, 1994. Fazia dezenove anos terminara a guerra, e eu ali desembarcava de uma longa viagem, passando por Bangkok, convidado por Philippe Stroot, da Organização Mundial da Saúde, como jornalista, para cobrir uma conferência mundial sobre a lepra, nome que no Brasil os militares tinham mudado, havia alguns anos, para hanseníase. Já que não se vence o mal, muda-se o nome. Havia um escândalo brasileiro, a lepra era curável mas o Brasil ignorava. Contei para a Isto É. A reportagem sobre o Vietnã na paz, ficou com o Estadão. E um relato diário para a Rádio Excelsior, ou já era CBN?

Em 1994, as ruas estavam cheias de bicicletas em Hanoi e eu, no meio, conhecendo a cidade

Comprei um capacete e um tshirt de viet com a estrela vermelha e, nos intervalos da conferência, descobria a cidade sozinho numa bicicleta, emprestada por um colega da Agence France Presse. Centenas de bicicletas ao meu lado e o calafrio vinha nos cruzamentos. Essa descoberta de Hanoi me fazia pedalar num estado de êxtase. Me lembro mesmo de ter comprado, na rua, um pedaço de jaca para comer no hotel. Me encantavam os bebês e, no vôo, um casal de franceses levava orgulhoso, para viver em Marselha, seu pequeno vietnamita transformado em filho de adoção.

Cutuquei Philippe Stroot, ao meu lado:

– Esses bebês vietnamitas bonitinhos, de rostinho rechonchudo, sorridentes, me despertaram o instinto paternal. Quando chegar em casa, vou ver se convenço Hanna, para fazermos um irmãozinho ou irmãzinha para minha filha Julie!

Veio uma irmãzinha, Elisa, hoje com 23 anos, mesmo sem ter  olhos puxados, há nela alguma coisa da minha história com o Vietnã.

Contei essas coisas, em Hanoi, no fim do ano passado, para os vietnamitas que estavam na recepção ao nosso grupo de jornalistas vindos de Genebra, oferecida pelo vice-primeiro ministro, e eles aplaudiram. E eu quase chorei!

4 de maio de 2018 – Correspondente do Correio do Brasil na Suíça. Editor do Direto da Redação.

Rui Martinsjornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro Sujo da Corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A Rebelião Romântica da Jovem Guarda, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil, e  RFI.

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