Isolamento de Bolsonaro aumenta com atendimento às pautas ideológicas

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Publicado segunda-feira, 1 de julho de 2019 as 14:17, por: CdB

Um exemplo desse comportamento foi a decisão do presidente de incluir em uma nova medida provisória a transferência da competência da demarcação de terras indígenas da Fundação Nacional do Índio (Funai).

 

Por Redação, com Eduardo Simões/Reuters – de Brasília

 

Ao insistir em pautas caras à sua base ideológica já rejeitadas pelo Legislativo e pelo Judiciário, o presidente Jair Bolsonaro tem optado por dar satisfação a seus seguidores mais fiéis em detrimento a um esforço para ampliar seu apoio popular e ao custo de um acirramento nos laços com os demais Poderes.

Jair Bolsonaro está cada vez mais distante dos índices observados no início do mandato
Jair Bolsonaro está cada vez mais distante dos índices observados no início do mandato

Um exemplo desse comportamento foi a decisão do presidente de incluir em uma nova medida provisória a transferência da competência da demarcação de terras indígenas da Fundação Nacional do Índio (Funai), ligada ao Ministério da Justiça, para o Ministério da Agricultura. A proposta já havia sido rejeitada pelo Congresso ao analisar a MP que promoveu uma reforma administrativa.

Gueto

Após a reedição do tema, Bolsonaro sofreu duas derrotas. No Supremo Tribunal Federal, o ministro Luís Roberto Barroso deu liminar suspendendo a medida, aceitando argumentação de que um tema rejeitado não pode ser reeditado na mesma sessão legislativa. No Legislativo, o presidente do Congresso, senador Davi Alcolumbre (DEM-AP), devolveu o trecho da nova MP que tratava da demarcação.

— Ele está governando para o público dele, que não é majoritário. Ele nem tem a maioria pragmática nas duas Casas e ele nem tem um diálogo majoritariamente com a população. Ele está conversando com um gueto. E por que ele reedita? Ele reedita porque ele está dando satisfações ao gueto — afirmou o cientista político do Insper Carlos Melo.

Instituições

Mais que isso, com essa estratégia, Bolsonaro reforça o discurso de que está tentando mudar a forma de governar e cumprir o que prometeu na campanha eleitoral e coloca sua base ideológica em choque com os demais Poderes.

— Ele fala que fez a parte dele e lava as mãos. Agora, é claro que isso implica em maior desgaste da Câmara e do Senado com a base do Bolsonaro, porque ele está alimentando, para a sua base, o conflito entre as instituições — argumentou Melo.

O cientista político entende que Bolsonaro pode estar fazendo um cálculo errado, o de que a parcela do eleitorado que o apoia de forma mais enfática, principalmente nas redes sociais, representa a vontade da maioria da população.

— Ele faz um cálculo que talvez seja um cálculo equivocado. Ele acha que a base dele nas redes sociais é a maioria do país, mas não é. Alguém precisa falar para ele que ele atinge 10 milhões de pessoas, que é gente para caramba, mas o país tem 210 milhões de pessoas — avaliou Melo.

Ojeriza

O cientista político da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Adriano Oliveira vai além e diz que o comportamento do presidente é de quem tem repulsa à política.

— Bolsonaro não faz política, ele não cede ao Congresso. Ele quer, na verdade, entregar ao Congresso a sua ideia e quer que o Congresso aprove. Quando o Congresso não aprova, ele reclama do Congresso. Ele mostra cada vez mais a sua ojeriza em fazer política… Ele tem um comportamento presidencial de soberano, e não um comportamento presidencial que exige um diálogo, que exige a formação de uma coalizão — disse.

O decreto que flexibilizava o porte e a posse de armas é outro episódio em que Bolsonaro priorizou sua base mais radical. Diante de uma derrota iminente no Congresso que caminhava para derrubar a medida, o presidente revogou o decreto, mas editou outros três e enviou projeto de lei ao Parlamento para tratar do tema.

Antilulistas

Antes, usou suas redes sociais e fez um apelo à população para pedir ao parlamentar em que votou para que não derrubasse o decreto.

Para Oliveira, o presidente fala com apenas 15% do eleitorado, que é o percentual de eleitores que seriam, na avaliação do cientista político, ideologicamente fiéis ao presidente.

— Pesquisa do Ibope que saiu agora mostra que 32% aprovam o governo, dentro desses 32% tem o eleitorado bolsonarista convicto e os outros 17% são eleitores que estão esperando o presidente fazer alguma coisa —têm uma admiração pelo presidente, são antilulistas, não querem que o PT volte, e estão ainda dando uma chance — disse.

Estratégia

Pesquisa CNI/Ibope divulgada na quinta-feira mostrou uma avaliação de governo muito dividida. Enquanto 32% dos entrevistados consideram o governo Bolsonaro ótimo ou bom, 32% acham que ele é regular e 32% avaliam como ruim ou péssimo.

Ao mesmo tempo, o levantamento mostrou aumento dos que não confiam no presidente e dos que desaprovam sua forma de governar.

— É um presidente que não fala para a sociedade brasileira, ele fala para segmentos. A estratégia de comunicação dele só tem surtido efeito no eleitorado dele — conclui Oliveira.

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