Jornalista não é vacinado contra má notícia

Arquivado em: Destaque do Dia, Direto da Redação, Últimas Notícias
Publicado quarta-feira, 4 de novembro de 2020 as 14:17, por: CdB

A imagem de um jornalista, para a maioria, é a de alguém imunizado diante dos acontecimentos a serem transformados em notícia. Alguém capaz de permanecer impassível, frio e sem reações diante de acidentes, tragédias, incêndios, bombardeios ou assassinatos. Essa ausência de sentimentos seria essencial para garantir a neutralidade das informações.

Jornalistas também sofrem com os atentados

O jornalista seria antes de tudo sem coração e teria sempre os olhos secos.Essa imagem corresponde à realidade? Geralmente mas nem sempre. O jornalista é um ser humano com sangue nas veias e isso quer dizer, tem seus momentos de fraqueza ou, se quiserem, de humanidade; tem suas insônias provocadas por reportagens realistas demais.

Não há uma vacina, um soro, um antídoto que possa proteger o jornalista dos impactos ou das dores provocados pelas más notícias, seja ao fazer seu relato descritivo ao vivo daquilo do qual é testemunha, seja ao elaborar seu comentário distante e solitário do ocorrido.

Toda essa introdução para me justificar da depressão ou do baixo astral, por mim vivida ao tomar conhecimento, na semana passada, do assassinato de um professor na periferia de Paris, por um extremista islamita. O crime foi cometido com grande crueldade e consistiu na decapitação da vítima, em represália a uma aula sobre liberdade de expressão, na qual o professor mostrou as caricaturas de Maomé publicadas na revista satírica Charlie Hebdo. Para quem não acompanhou, no dia 7 de janeiro de 2015, dois irmãos extremistas islamitas assassinaram com fuzil-metralhadora a redação da revista e as pessoas que ali se encontravam.

Durante dias, jornais, televisão e jornais noticiaram e comentaram o ato bárbaro, mostrando a ferida deixada aberta desde o massacre na redação de Charlie Hebdo. Difícil suportar a dor pela morte de um jovem professor, difícil suportar a revelação do clima de ódio religioso contra a afirmação de um dos preceitos básicos da França, a laicidade.

Se, no passado, a luta contra o colonialismo francês provocou numerosos atentados, nestes últimos anos, o principal motivo determinante de atentados na França é religioso. São cometidos em nome da Jihad, ou a guerra santa contra os inimigos da religião muçulmana.

Pouco antes do assassinato do professor, o presidente francês Emmanuel Macron havia denunciado o separatismo muçulmano na França. Diante do assassinato, as medidas preservadoras da laicidade na França serão logo aplicadas. Elas incluem alguns comportamentos simples vigentes na comunidade francesa muçulmana, cujo objetivo é separar o gênero feminino na sociedade. Entre elas, não serão mais concedidas dispensas de piscinas mistas ou de classes mistas para as meninas e jovens muçulmanas como era de hábito conceder aos pedidos feitos pelos pais em nome de exigências religiosas. Os muçulmanos trabalhando para empresas públicas francesas não poderão se negar a dão a mão para mulheres e as mulheres funcionárias públicas não poderão usar o chale religioso que cobre a cabeça.

Dezenas de milhares de filhos franceses de casais muçulmanos não frequentam as escolas públicas francesas e fazem sua instrução escolar privada em casa, geralmente religiosa. No próximo ano, todas as crianças deverão frequentar as escolas públicas a partir dos três anos, exceto se tiverem algum problema físico ou de saúde devidamente comprovados.

Uma decisão europeia em 1977, havia criado o Ensino de Língua e Cultura de Origem para os filhos da imigração, vindos da Argélia, Croácia, Espanha, Itália, Marrocos, Portugal, Sérvia, Tunísia e a Turquia. Diante do separatismo engendrado, o presidente Macron decidiu acabar com esse tipo de ensino, chamado Elco. “Porque a escola deve inculcar, em primeiro lugar, os valores da República e não os de uma religião, afirmou Macron no seu recente discurso sobre o separatismo.

E acrescentou: “Tenho confiança nos franceses de confissão muçulmana e na sua capacidade de se mobilizar para contribuir a essa batalha republicana contra o separatismo islamita e na sua vontade de se organizar para construir um Islã das Luzes”.

Outra decisão é a de acabar progressivamente com a vinda de imãs, dirigentes religiosos estrangeiros, pagos por seus países de origem. Eles são 301 atualmente, a maioria turcos, o que explica o recente protesto do presidente turco Erdoğan contra Macron, abrindo uma crise entre os dois países.

Macron, no seu discurso contra o separatismo, destacou ainda a existência de milhares de jovens sem qualquer conhecimento da história francesa, das leis e dos seus deveres de cidadãos franceses. “Tudo que for contrário aos princípio da laicidade e da igualdade será proibido”, disse Macron. “A laicidade é a liberdade de crer ou de não crer”, juntou o presidente.

Essa decisão do presidente Macron de fazer a França retornar ao respeito da laicidade é muito importante neste momento em que certas conquistas cidadãs correm o risco de serem abandonadas. Como a questão da liberação do aborto, contra o qual se declararam diversos países retrógrados e contrários à liberdade e respeito das mulheres. Trata-se da Declaração do Consenso, de Genebra, na qual o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, junto com os Estados Unidos e 31 países se declararam contra o aborto. Um retrocesso, motivado pela religião, cristã de uns e muçulmana de outros.

Enquanto a França reafirma seu passado de país laico, o Brasil retrocede em diversos setores, cedendo aos evangélicos de diversas tendências e colocando em perigo conquistas importantes do passado em favor das mulheres. Publicado também no Observatório da Imprensa.

***

Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro Sujo da Corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A Rebelião Romântica da Jovem Guarda, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil, e RFI.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *