Líderes europeus fazem ofensiva para salvar acordo com Irã

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Publicado segunda-feira, 23 de abril de 2018 as 11:13, por: CdB

Primeiro Macron, depois Merkel: líderes europeus vão aos EUA tentar convencer Trump a não abandonar o pacto nuclear. Mas há ceticismo dos dois lados do Atlântico

Por Redação, com DW – de Paris/Berlim:

As visitas do presidente francês, Emmanuel Macron, e da chanceler alemã, Angela Merkel, a Donald Trump nesta semana configuram o esforço europeu mais visível até aqui para convencer o presidente americano a permanecer no acordo nuclear iraniano, que ele descreveu repetidas vezes como “o pior de todos os tempos”.

Macron e Merkel com Trump o G20, em 2017: interesses são difíceis de conciliar

A ofensiva diplomática para salvar o acordo de 2015 é apenas a ponta do iceberg. Ainda correm as negociações entre o chamado grupo E3 (Alemanha, França e Reino Unido); e os EUA para alcançar um pacto capaz de satisfazer as demandas feitas por Trump em 12 de janeiro, quando decidiu – “pela última vez” – manter as sanções suspensas.

Antes das viagens de Macron (nesta segunda) e Merkel (na quinta) a Washington; centenas de parlamentares europeus escreveram uma carta aberta exortando; o Congresso norte-americano a apoiar o acordo nuclear. Mas, segundo ex-funcionários de alto escalão norte-americanos e diplomatas europeus baseados; em Washington, a força-tarefa europeia pode não surtir efeito.

Eles estão céticos de que Trump possa ser convencido antes de 12 de maio, data em que terá que ser renovado o alívio de sanções ao Irã, passo tido como fundamental para manter o acordo vivo. Até agora, segundo a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), Teerã vem cumprindo sua parte no acordo.

– Infelizmente, no momento atual, eu não conheço ninguém nos EUA que esteja particularmente otimista em relação à renovação da assinatura de alívios das sanções – prevê Laura Holgate, embaixadora dos Estados Unidos junto à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) até a posse de Trump, em janeiro de 2017.

Richard Nephew

Richard Nephew, principal especialista em sanções na equipe norte[americana que negociou com Teerã durante o governo Barack Obama, e Elizabeth Rosenberg, que se ocupava do mesmo tema durante sua passagem pelo Departamento do Tesouro, compartilham do ceticismo de Holgate.

– Estou muito pessimista – diz Nephew. “Estou pessimista desde; que Trump foi eleito. Eu simplesmente acho que o que queremos alcançar é muito pequeno e realmente será necessária uma combinação de fatores muito difícil de visualizar funcionando”, comenta.

– Estou muito menos esperançosa sobre o fato de os EUA continuarem cumprindo suas obrigações com o acordo. Ou seja, tenho dúvidas de que os EUA vão continuar no acordo – afirma, por sua vez, Rosenberg.

Quem fala pela Europa?

Parlamentares europeus que pediram para não serem identificados expressaram; à agência alemã de notícias DW a esperança de que os negociadores sejam capazes de encontrar pontos em comum. Mas continuam céticos sobre se isso; em última instância, será suficiente para Trump.

– Estou esperançoso, mas não confiante – disse um diplomata europeu. “Ninguém sabe o que Trump acabará fazendo”.

Um diplomata de outro país europeu ouvido pela DW afirmou que espera; que um documento conjunto possa ser negociado; mas que, no momento atual, até mesmo funcionários do governo norte-americano não podem dizer com certeza se o presidente vai aceitá-lo.

Trump exigiu que sejam corrigidos três “defeitos” para que ele prolongue o alívio de sanções ao Irã; o programa de armas balísticas de Teerã, o aumento do acesso da AIEA a instalações iranianas e as chamadas “cláusulas de temporização”; que determinam, essencialmente; por quanto tempo vale o acordo. Especialistas dos EUA e da Europa afirmam que este último ponto é o mais difícil para se achar um meio termo.

Enquanto o governo Trump quer ampliar efetivamente os limites para o programa nuclear de Teerã; que, segundo o acordo, deverão expirar completamente em 2031 – os europeus relutam em fazê-lo; dizendo que isso representaria, na verdade, uma renegociação do pacto.

Para o analista de sanções ao Irã Richard Nephew, da perspectiva dos Estados Unidos; o que complica as negociações é: até que ponto Alemanha, França e Reino Unido realmente podem falar por todos os outros países europeus; já que alguns defendem uma abordagem mais branda em relação a Teerã?

Alemanha

– A Alemanha não pode forçar retaliação de sanções à Itália. E o Reino Unido; com tudo o que está acontecendo com o Brexit; certamente não pode exigir nenhuma resposta da UE – explica Nephew.

Mas a raiz do problema talvez esteja simplesmente na oposição fundamental; e de longa data de Trump ao acordo nuclear com o Irã; uma visão que possivelmente só será ampliada com o novo assessor de Segurança Nacional da Casa ;branca, John Bolton. Num artigo publicado há três anos, Bolton defendeu, por exemplo: “Para impedir a bomba iraniana, bombardeiem o Irã”.

– Há tanta ênfase no histórico de Trump, tanto quanto candidato, quanto como presidente; direcionada, mesmo de forma ideológica, contra esse acordo; que parece difícil acreditar que vai haver alguma solução diplomática mágica que permitirá que ele desdenhe do pacto ao mesmo tempo em que ele o deixe em paz – avalia Elizabeth Rosenberg.

Dada a animosidade profundamente enraizada de Trump contra o acordo nuclear iraniano; a conquista marcante da política internacional de seu antecessor; o que, de maneira realista, Merkel e Macron podem fazer para tentar convencer o presidente americano a não deixar o pacto?

A influência dos dois líderes é limitada, argumentam os especialistas norte-americanos. Eles sugerem que os europeus tentem estabelecer uma relação pessoal cordial com Trump; e que eles sejam transacionais; ou seja, tenham uma oferta pronta que possa incentivá-lo a apoiar a permanência dos EUA no acordo.

Porém, segundo Laura Holgate, Merkel e Macron deveriam tentar explicar o motivo pelo qual não acabar com o pacto internacional é do interesse de Washington.

AIEA

– O único argumento em que eu consigo pensar é realmente demonstrar como seria o dia após a quebra de um acordo – exemplifica a ex-embaixadora dos Estados Unidos junto à AIEA.

– Como pode ser do interesse dos EUA ver a nossa aliança europeia em frangalhos; ter um Irã sem restrições e talvez ainda mais motivado do que nunca, em 15 anos; a sentir que eles realmente precisam de uma bomba nuclear para se defenderem contra alguma ação futura dos EUA? Simplesmente não consigo conceber como um mundo sem o acordo seria mais interessante para os EUA”, diz

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