Lista suja de Bolsonaro monitora jornalistas, acadêmicos e influenciadores

Arquivado em: Brasil, Últimas Notícias
Publicado terça-feira, 1 de dezembro de 2020 as 14:38, por: CdB

Uma pasta com os nomes de 44 jornalistas é constantemente atualizada e cada nome é acompanhado de um comentário sobre o que a pessoa tem escrito nas redes sociais a respeito do governo e, em particular, de Paulo Guedes. Oito deles têm anexado o número do telefone celular.

Por Redação – de São Paulo

Nos moldes do Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) do Exército, nos anos de chumbo da ditadura militar, o governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) mantém a produção de relatórios sobre as atividades de intelectuais, no país. Lista vazada para a mídia conservadora, nesta terça-feira, revela o mapeamento de um grupo de 81 jornalistas e “outros formadores de opinião” considerados influenciadores em redes sociais.

O jornalista Xico Sá, citado como um dos 'detratores' do governo, mandou uma indireta para os autores da lista suja de Bolsonaro
O jornalista Xico Sá, citado como um dos ‘detratores’ do governo, mandou uma indireta para os autores da lista suja de Bolsonaro

De acordo com nota do colunista Rubens Valente, do portal UOL, de propriedade do diário conservador paulistano Folha de S. Paulo, ele teve acesso à lista, em arquivo Excel. O relatório divide os 81 “influenciadores” em três grupos: os “detratores” do governo Bolsonaro e do Ministério da Economia, de Paulo Guedes; os “neutros informativos” e os “favoráveis”.

Acadêmicos

Uma pasta com os nomes de 44 jornalistas é constantemente atualizada e cada nome é acompanhado de um comentário sobre o que a pessoa tem escrito nas redes sociais a respeito do governo e, em particular, de Paulo Guedes. Oito deles têm anexado o número do telefone celular. Entre os “detratores” constam o analista da Globonews Guga Chacra, os jornalistas Xico Sá, Hildegard Angel, Cynara Menezes, Carol Pires, Luis Nassif e George Marques, entre outros.

A lista, no entanto, grava informações sobre professores universitários e acadêmicos como Silvio Almeida, Laura Carvalho, Jessé Souza, Claudio Ferraz, Sabrina Fernandes, Conrado Hubner, Rodrigo Zeidan, entre outros. Felipe Neto, Nathália Rodrigues e Jones Manoel são os influenciadores considerados críticos ao governo.

Na outra ponta, Roger Rocha Moreira, Milton Neves, Rodrigo Constantino, Guilherme Fiuza, Winston Ling, Camila Abdo, Tomé Abduch são as pessoas consideradas favoráveis ao governo.

Os ‘detratores’

Com esse expediente, o governo do mandatário neofascista monitora e classifica as atividades dos jornalistas nas redes sociais. Sobre o influenciador Felipe Neto, o relatório diz que ele é “contra o governo e faz duras críticas ao ministro da Economia no que tange as questões da pandemia, porém é a favor do auxílio emergencial, tendo inclusive feito publicidade com a Picpay (empresa de carteira digital) sobre o tema”.

O jornalista Xico Sá, que tem 1,5 milhão de seguidores no Twitter, também tem uma análise sobre suas notas. “Faz oposição contumaz ao governo, além de reverberar matérias de teor desfavorável à gestão Bolsonaro”. A recomendação sobre Xico é o “monitoramento preventivo das publicações do influenciador em conteúdos relativos ao Ministério da Economia”, aponta o relatório.

O professor universitário Silvio Almeida, autor de Racismo estrutural e outras obras importantes, também é classificado como crítico do governo Bolsonaro. “Afirmou que o liberalismo do ministro Paulo Guedes é um dos pilares mais importantes do fascismo e que deve ser combatido. Afirmou que o ministro Paulo Guedes tem simpatia pela Alemanha Nazista e pela ditadura de Pinochet e disse ainda que ‘Quem compra Guedes que leve o Presidente’”, afirma o relatório.

Monitoramento

Diante dessas análises, o monitoramento recomenda as seguintes medidas: “Envio de matérias e projetos da pasta. Monitoramento preventivo das publicações do influenciador. A partir dos posts que fizer sobre economia, monitorar se há debate equivocado e trazer esclarecimentos relativos a esses conteúdos”.

Esta não é a primeira vez que o governo Bolsonaro monitora seus críticos. Em julho deste ano, o Ministério da Justiça elaborou um dossiê contra servidores estaduais e federais que identificam como “antifascistas”. A ação sigilosa do governo Bolsonaro listou um grupo de 579 pessoas, com nomes e, em alguns casos, fotografias e endereços de redes sociais das pessoas monitoradas.

Ainda no campo dos supostos “detratores” aparecem youtubers e influenciadores como Felipe Neto, Nathália Rodrigues e Jones Manoel. Os oito “neutros informativos” citados são Alex Silva, Malu Gaspar, Altair Alves, Cristiana Lôbo, Mônica Bergamo, Marcelo Lins, Ricardo Barboza e Octavio Guedes.

Alvos do monitoramento, em curso, os ‘detratores’ reagiram com críticas e ironias ao relatório. Xico Sá mandou uma indireta quanto à semelhança do relatório e as ações da ditadura: 

“Fiquem tranquilas, autoridades do Governo, hoje só tem receita de bolo e sonetos de Camões” – trata-se de uma referência ao tempo da censura, em que os jornais publicavam sonetos de Camões no espaço em que seriam veiculadas reportagens censuradas (O Estado de S.Paulo) e receitas de bolos (Jornal da Tarde).

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *