Moro, no olho do furacão, perde toda credibilidade

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Publicado quinta-feira, 13 de junho de 2019 as 16:58, por: CdB
Depois da descoberta, graças ao The Intercept, do conluio, cumplicidade ou dobradinha entre o ex-juiz Sérgio Moro e procuradores da força tarefa Lava Jato, caiu a credibilidade do atual ministro da Justiça. Num país normal ele e seus amigos cúmplices deveriam se demitir ou ser demitidos. Porém, uma coisa é certa, Sérgio Moro nunca mais será ministro do STF, diante das revelações, pois nunca obterá pelo Senado a aprovação, no caso  de sua indicação.  Mesmo porque o presidente já havia manifestado seu desejo de, antes de Moro, nomear um jurista evangélico, o que é também transgredir nossa Constituição de país laico. (Nota do Editor) – Segue o artigo de Leonardo Sakamoto.
Por Leonardo Sakamoto, de São Paulo:
Sérgio Moro no olho do furacão

Para a parcela antipetista e o naco bolsonarista da população, as revelações dos diálogos em que Sérgio Moro orienta a força tarefa da Lava Jato não afetam sua admiração pelo então juiz federal. Primeiro, porque ele já era visto como o “chefe” da Lava Jato, mesmo que a função de um juiz seja a de julgar, não de vingar. Além disso, o fim (Lula preso, PT fora do poder) justificaria os meios (passar por cima da lei) – mesmo que a razão pela qual queiram Lula preso é de que ele teria desrespeitado a lei.

Se há a possibilidade disso bloquear politicamente a indicação de um Moro enfraquecido ao Supremo Tribunal Federal ou mesmo levá-lo a sair do governo, a depender do que for revelado de agora em diante, outro efeito colateral também pode ser empurrá-lo para a disputa presidencial em 2022 ao invés de 2026, caso fique sem alternativas.
Pesquisa da empresa Atlas Político, entre os dias 10 e 12 deste mês, ou seja, após o furdúncio já estar estabelecido, mostra que 50,4% dos entrevistados consideram a imagem de Moro positiva – frente a 60% no mês passado. Segundo o levantamento, ele se manteve como o político mais popular do Brasil, agora tecnicamente empatado com Bolsonaro, com 50,3%.

Vale ressaltar que o governo tem 30,4% de bom e ótimo e 37,4% de ruim e péssimo. Em abril, de acordo com a última pesquisa Datafolha disponível, enquanto 32% consideravam o governo Jair Bolsonaro como ótimo ou bom, Moro alcançava 59% de imagem positiva.

O ex-juiz que condenou Lula aceitou ser avalista e fiador do governo, o que inclui ser usado para “lavagem de marca” e “vacina contra denúncias de corrupção”. Ele diz que o objetivo é implementar seu projeto de combate à corrupção e à criminalidade, mas há também uma troca. A cadeira pode ser um trampolim para o Supremo Tribunal Federal ou mesmo ao Palácio do Planalto.

O que ele não imaginava é que deixar a magistratura também seria um atalho para o cadafalso.

As revelações arranharam a imagem de Moro junto a uma parte da população, mas está longe de podermos afirmar que o grosso da sociedade lhe deu às costas. Sem contar que muitos não repudiam os métodos ilegais adotados na condução de um processo desde que concordem com a condenação ou absolvição. Em um país que frequentemente passa pano para torturas em interrogatórios e para a execução de pobres nas periferias em nome da “segurança”, isso não deveria surpreender.

A condenação de Lula e de outros levados à cadeia pela Lava Jato podem até ser revistas diante de uma suspeição a ser decidida pelo Supremo Tribunal Federal. Mas dificilmente isso será aceito como prova para punir a ele ou aos procuradores.

Não se sabe o que ainda virá – a revelação de áudios e vídeos é sempre mais impactante do que de textos – e, ao que tudo indica, eles devem aparecer. Dependendo do que surja, Moro pode ser levado a deixar o cargo ou permanecer nele com poder reduzido. Hoje, enfrentaria resistência no Senado Federal para a confirmação de seu nome para uma das duas vagas que devem abrir no STF durante o atual governo. Mas amanhã, quem sabe.

Os números da segurança pública sobre 2018 devem vir melhores por conta da redução nas mortes na guerra de facções. Não deve chegar nem perto dos 65 mil homicídios do ano anterior, o pior de nossa história recente. Mesmo que não tenham mérito algum nisso, Moro e Bolsonaro vão tentar capitalizar, por exemplo.

O ministro tem popularidade e continua com o endosso de ser um “herói nacional” para uma grande parcela da população, imagem construída com a ajuda de mídias que foram parceiras da Lava Jato. E, apesar de ocupar um cargo político e das gravações provarem que ele fez politicagem por anos, não se considera dessa forma, vendendo-se como um outsider.

Em quase dois meses, reuniu quase um milhão de seguidores no Twitter. Mesmo descontando robôs e contas falsas, ainda assim é muita coisa até porque medições mostraram que ele já causava mas impacto dos que Os Bolsonaros, antes dos vazamentos. A política não é uma arena fácil, a inabilidade com a qual trata o Congresso Nacional mostra que ele tem muito a aprender. Ma como me disse uma pessoa que transitava na alta cúpula brasiliense, Moro agora está no árido frio e descampado da política ao invés da casinha quentinha do Judiciário. Está exposto, sem a proteção de seus pares.

E antes das revelações, o ministro já se contorcia para administrar sua pasta sem a interferência de um presidente da República que parece não respeitar sua opinião, querendo-o a seu lado para usá-lo e contê-lo. Com a revelação da quinta reportagem do Intercept Brasil, mostrando mais conversas entre Moro e o procurador da República Deltan Dallagnol, via Telegram, sintetizada na expressão “In Fux We Trust”, um profissional que já elegeu governador e atuou em campanha presidencial comentou com o blog sobre o possível efeito eleitoral-colateral: “Moro pode ser o candidato dos escombros bolsonaristas porque é o único do condomínio da extrema direita conservadora a rivalizar com o próprio Bolsonaro em popularidade”.

É difícil saber se isso vai se manter. Talvez a equipe de Intercept Brasil possa ter uma ideia, mas como mesmo as revelações dependem de vários fatores para mudarem opiniões.

Se o governo Bolsonaro mantiver o Brasil na reta do crescimento econômico pífio e continuar salpicando casos de corrupção, como laranjais e imóveis familiares, e a popularidade de Moro sobreviver às revelações de que como organizava procuradores para ter o melhor resultados de seus julgamentos, isso pode abrir caminho para ele em 2022

O efeito colateral pode ser uma queda para cima. O futuro de Moro depende também de outro fator: seu chefe. Bolsonaro não deve suportar ver um membro de sua equipe maior do que ele próprio entre seu grupo de fãs e seguidores, principalmente um que pode tomar seu lugar. Mas precisa mantê-lo por perto.

Nesse sentido, os vazamentos ajudaram o monarca a reforçar a seu cavaleiro mais ilustre que este lhe deve vassalagem em troca de proteção e apoio. A cena dos dois com camisetas do Flamengo em um jogo, nesta quarta (12), é lamentável, mas cumpre um papel. E custa caro a Moro. Pois isso está longe de ser solidariedade. É Bolsonaro fazendo política do seu jeito.

Em tempo: Ao ser questionado se considera normal um juiz e um procurador conversarem sobre uma investigação em curso, Bolsonaro adotou a resposta infanto-juvenil do tipo “mas o Luizinho fez coisa pior”. Escapando de tratar o mérito, perguntou se o normal é “conversar com doleiros”. No registro da Folha de S.Paulo: “Normal é conversa com doleiro, com bandidos, com corruptos, isso é normal? Nós estamos unidos do lado de cá para derrotar isso daí”.

A hashtag “DeportaGreenwald” confirma que o poço não tem fundo no Brasil

Após publicar uma série de reportagens trazendo diálogos comprometedores que envolvem o então juiz federal Sérgio Moro e procuradores da força tarefa da Lava Jato, o site Intercept Brasil passou a ser atacado por pessoas exigindo o seu fechamento. E o jornalista Glenn Greenwald, um dos autores das matérias e um dos fundadores do site, tornou-se alvo do ódio de bolsonaristas e daqueles que não aceitam críticas à operação. A xenófoba hashtag #DeportaGreenwald chegou a figurar entre as mais compartilhadas, no Twitter, pedindo sua expulsão. Glenn, que é norte-americano e mora no Brasil, sendo casado com o deputado federal David Miranda (PSOL-RJ), também vem sofrendo ataques homofóbicos desde que trouxe as informações a público.

Ganhador do Prêmio Pulitzer 2014, um dos mais importantes do jornalismo mundial, Glenn Greenwald foi um dos responsáveis, junto com Edward Snowden, ex-funcionário da CIA, por mostrar como o governo de seu país monitorava ilegalmente e em massa a comunicação dos cidadãos.

Uma parcela da sociedade não entende ataques a jornalistas como um ataque à liberdade de expressão, um pilar da democracia. Vê isso como uma manifestação banal do descontentamento. Incendiada por conteúdos superficiais distribuídos pelas redes sociais e não acostumada ao debate público de ideias, à aceitação da diferença de opinião e à empatia pelo outro, parte para a ignorância. Cede aos discursos fáceis e toscos de analistas, apaixona-se pela violência de seus líderes.

Algumas lideranças sabem o tamanho de sua caixa de ressonância, o fanatismo de alguns de seus seguidores, que agem como torcida organizada, e o gigantismo de redes simpáticas a eles ou por eles controladas. Ao ter consciência disso e não agir para evitar ataques, tornam-se cúmplices das consequências de seus atos. Dizem não incitar a violência com suas palavras. Mas, como já disse aqui, muitas vezes não são eles que atacam, mas é a sobreposição de seus discursos ao longo do tempo que distorce o mundo e torna a agressão banal. Ou, melhor dizendo, “necessária” para tirar o país do caos e levá-lo à ordem. Acabam por alimentar a intolerância, que depois será consumida por fãs malucos ou seguidores inconsequentes que fazem o serviço sujo.

Você pode não gostar da cobertura do Intercept Brasil ou de outros sites, jornais, revistas, canais de rádio e de TV, do posicionamento de colunistas e blogueiros e discordar profundamente da pauta conduzida por um veículo. A imprensa, como qualquer outro ator social, pode e deve ser criticada. Caso veja erro ou má fé em um conteúdo publicado por uma empresa jornalística, alguém retratado deve buscar, junto ao veículo de comunicação, seu direito de resposta. E se isso for insuficiente, procurar na Justiça a reparação.

Contudo, o que vemos em abundância são ataques traduzidos na invasão da vida privada dos profissionais, distorcendo fatos, expondo dados pessoais, ameaçando seus filhos e pais. Por vezes, essa violência transborda a rede e vai para a rua, para o restaurante, para a porta da casa. Não raro, transforma-se em socos, pontapés, pedradas, cusparadas, empurrões. A perseguição é sempre mais violenta quando o alvo são mulheres (quando o ataque também ganha cunho sexual), além de negros e da população LGBTTQ.

O processo de ataque aos jornalistas se assemelha à tortura – instrumento de trabalho do açougueiro Brilhante Ustra, assassino da ditadura militar, apontado como herói pelo presidente Jair Bolsonaro. Não é usado para que o jornalista em questão seja punido pelo que supostamente fez, mas para que, traumatizado, nunca mais tenha coragem de fazer novamente.

Nesse sentido, o presidente da República tem sido um exemplo para os inconsequentes que atacam jornalistas. Em um momento, se vale de uma notícia claramente falsa para atacar uma repórter do jornal O Estado de S.Paulo. Em outro, comete assédio contra uma da Folha de S.Paulo durante uma entrevista. Na esteira disso, milhares de seguidores em fúria acusam, condenam e promovem um linchamento punitivo nas redes.

Pelas declarações de Glenn Greenwald e de sua equipe, isso não vai mudar o curso da investigação. Afirmam ter recebido uma grande quantidade de informação de uma fonte anônima e muita coisa ainda deve ser divulgada. O que não significa que não estão tomando cuidado. Ser jornalista no Brasil pode ser mais perigoso do que cobrir guerras.

Fui convidado para falar em uma audiência pública na Câmara dos Deputados, no dia 4 de junho, sobre a violência contra jornalistas e comunicadores, que vem crescendo em todo o país, e o que isso significa para a democracia. Organizada pelas Comissões de Direitos Humanos e Minorias e pela Comissão de Cultura, contou com a participação da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão, do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos e da ONG Artigo 19, além de parlamentares.

Lembrou-se que o respeito à integridade dos jornalistas, sejam eles de veículos tradicionais ou alternativos, mídia grande ou pequena, liberal ou conservadora, segue sendo um dos pilares da democracia.

O Brasil já é um dos países mais violentos para jornalistas e comunicadores, com pessoas assassinadas no exercício da profissão. Além de acabar com a impunidade de quem incita e quem comete violência, ação a ser tomada pelo Estado, é fundamental reduzir a ultrapolarização do debate público – que vem normalizando ataques a quem divulga algo diferente do que um grupo ideológico quer ouvir, seja à esquerda, seja à direita. Casos como o de Glenn Greenwald deveriam ser acompanhados de perto pelo Congresso Nacional, pelo Ministério Público Federal e pelo Conselho Nacional de Justiça.

Cabe à sociedade decidir se quer uma imprensa livre, mesmo que discorde dela, e sair em sua defesa. Ou se está satisfeita com a proposta colocada à mesa nas eleição de 2018: substituir a pluralidade e o contraditório por mensagens falsas postadas em grupos de WhatsApp que confirmam uma limitada visão de mundo.

Leonardo Sakamoto, jornalista com doutorado pela USP, professor de jornalismo, diretor da ONG Reporter Brasil e conselheiro da ONU no Fundo contra o Trabalho Escravo.

Direto da Redação é um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins.

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