Nem a Copa diminui nossa desesperança

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Publicado domingo, 17 de junho de 2018 as 17:23, por: CdB

Estou triste, muito triste porque não existe mais uma seleção brasileira do povo: as pessoas já não se animam a rabiscar incentivos nos muros, ficaram com preguiça de pintar as ruas de verde e amarelo, enjoaram dessa camisa canarinho que andou tendo outros usos, menos nobres.

Por Apollo Natali, de São Paulo:
Hoje nem o futebol nos traz alegria

A seleção brasileira hoje mudou de dono. A seleção brasileira hoje pertence aos cartolas corruptos, aos patrocinadores que pagam uma nota preta (nada contra), aos impingidores de mercadorias e manipuladores de sonhos.

Hoje existe a seleção brasileira do Galvão Bueno, e digo mais: o dono da seleção brasileira é a Rede Globo.
Hoje a seleção brasileira conta com boleiros de talento, mas que deixam a amarga impressão de não passarem de uma legião estrangeira.
Talvez esteja aí a chave do enigma: temos um grupo de jogadores qualitativamente superior aos das três últimas Copas, pelo menos; talvez até o melhor desde 1982, quando só mesmo o mau humor dos deuses dos estádios ou o Sobrenatural de Almeida podem explicar a desventura de cracaços como Falcão, Sócrates, Zico, Cerezo, Júnior.
Decoração de rua em Engenho de Dentro (RJ), 2010
Mas, os astros do selecionado de hoje não representam mais a realidade do futebol brasileiro. Tornaram-se melhores demais que os de nossos clubes do coração.
O Neymar não é mais o Neymar que o Santos revelou, capaz de alternar lances de absoluta genialidade com as mais inconsequentes pirraças. O Barcelona processou o seu futebol e a sua imagem com tamanha eficiência que hoje ele exibe uma perfeição inexistente nestes tristes trópicos onde quase ninguém mais escuta sabiás cantando nem vê as palmeiras nostálgicas do Gonçalves Dias balançando ao vento.
Nem o Gabriel Jesus é o mesmo do Palmeiras, muito menos o Marcelo que um dia foi do Fluminense. Até o Paulinho perdeu um tantinho de sua cativante simplicidade e deu de exibir visuais da moda.
Não conseguimos imaginar nenhum deles voltando a ser o que era quando jogava aqui. De um jeito ou de outro, ficaram parecendo prósperos rebentos do mundo desenvolvido, praticantes de um futebol luxuoso a ponto de fazer com que nos sintamos novamente vira-latas embasbacados diante das coisas maravilhosas existentes nas Oropa.
Grafitte numa rua paulistana, 2014
E por que só agora os brasileiros começaram a perceber que o escrete é uma imagem retocada do tosco futebol exibido nos estádios brasileiros?  Talvez por causa das decepções com os políticos crapulosos e do desalento com a  crise econômica que há tanto nos fustiga e não parece ter saída à vista.
Mas, se não tínhamos o país que pensávamos ter e agora a ilusão se dissipou, de nada adiantará piorarmos as coisas mais ainda com nosso amargor. Resmungos não mudam a realidade, é a vontade dos homens que faz isto.
Esperávamos que os políticos, os partidos, os governantes, o pai dos pobres, Deus ou o diabo criassem tal país. Se há uma lição a tirarmos das desventuras recentes é que cabe a nós, e só a nós, construirmos um Brasil do qual possamos nos orgulhar.
Quanto ao escrete, talvez a onda de pessimismo esteja nos impedindo de ver o outro lado da moeda.
Sim, os craques da seleção são imensamente melhores do que os jogadores que jogam aqui. Sim, os grandes clubes estrangeiros vêm fazer uma limpa em cada janela de transferências, levando o sumo e nos deixando o bagaço. Sim, hoje estamos reduzidos à condição de formadores de pés-de-obra que atingirão seu apogeu lá fora, assim como outrora éramos (e em muitos casos ainda somos) fornecedores de matéria-prima para processamento alhures.
Há muitos motivos para desânimo em 2018

Mas, a excelência de nossos artistas do futebol serve também para comprovar que nem de longe estamos condenados à inferioridade eterna.O grito que brotou do fundo de nossa alma em 1958 –Com o brasileiro, não há quem possa!– continua válido até hoje. Mas, precisamos acreditar.

Nosso potencial é enorme, nesse e em tantos outros campos; só que, infelizmente está sendo quase todo desperdiçado.
Mais um motivo para nos decidirmos, de uma vez por todas, a tomar nosso destino nas mãos. Até para devolvermos às ruas a alegria que hoje não está existindo mais.
“…o grande cordão/ cantava o refrão que crescia/ da simples canção/ 
que era de João e Maria/ E o povo na rua/ pensou que era sua/ 
de tanto que andava/ atrás de qualquer alegria…”
Apollo Natali, jornalista, primeiro redator da Agência Estado.
Direto da Recdação é um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins.

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