O capitalismo se autodevora para sobreviver

Arquivado em: Arquivo CDB, Boletim, Destaque do Dia, Direto da Redação, Últimas Notícias
Publicado sábado, 19 de setembro de 2020 as 17:40, por: CdB

Quer uma prova de que o capitalismo chegou ao seu limite existencial? A divulgação de uma série de artigos do New York Times, intitulada Imperative21. Ela reflete a preocupação das empresas de consultoria econômica com questões que vão desde o desemprego estrutural e a concentração de renda (individual e empresarial) até as agressões climáticas. (Por Dalton Rosado)

A crise desencadeada pelo coronavírus demonstrou as fraquezas do capitalismo

A pandemia virótica demonstrou aquilo que saltava aos olhos mas não se queria ver.

Paralisou ainda mais um sistema que já anunciava uma depressão mundial (e não apenas localizada), com intensidade comparável ou superior à da iniciada em 1929 e que persistiu pela década de 1930 adentro, sem que os Estados economicamente combalidos pela dívida pública impagável e crescente possam intervir pela via de mecanismos keynesianos (investimentos públicos em obras e financiamento da iniciativa privada).

Diante do óbvio, os capitalistas liberais, seguidores de Milton Friedman (aquele que dizia que “não há almoço grátis” e que “o negócio do negócio é o negócio”), viraram keynesianos.

Aliás, como tenho afirmado, ninguém é mais keynesiano do que um liberal no poder (vide Paulo Guedes, que está aceitando como um cordeirinho a guinada populista de Boçalnaro, o ignaro, ainda que isto signifique mandar às favas o orçamento público) e ninguém é mais liberal do que um socialdemocrata keynesiano num período de ascensão capitalista.

Pois bem, não é que os mais proeminentes defensores da proposição de que o capitalismo liberal seria, em si, inclusivo, estão agora a propor uma nova lógica de relação social sob bases capitalistas, visando promover… exatamente a inclusão social?!

Segundo Jay Coen, da agência McKinsey, devemos deixar de promover o capitalismo shareholder, voltado para a pretensa democracia dos investidores, para o sistema stakeholder, que teoricamente deveria proporcionar participação nos lucros empresariais a todos os cidadãos.

Vale lembrar, de imediato, que a Constituição brasileira prevê a participação no lucro dos empregados, algo impossível de acontecer e que se torna letra morta por razões da própria lógica capitalista, conforme adiante demonstraremos.

A nova onda do Imperative21, levantada no último encontro do Fórum Econômico Mundial (aquele de Davos, na Suíça), quer pensar um capitalismo humanizado, definindo-se define pela sigla inglesa ESG – Ambiental, social e governança. Trata-se da social-democracia defendida por liberais, mas que quer desconhecer ou camuflar a natureza subtrativa e cumulativa da sustentação do capital.

Tal proposição ou é ingênua ou desonesta.

Tais proposições que ciclicamente se renovam, parecendo novidades mas sendo apenas mais outra tentativa de justificar-se o injustificável, me fazem refletir sobre o porquê de há mais de 160 anos tentarem negar (sem comprovação científica e empírica) a crítica da economia política de Marx.

Ao invés de terem a honestidade de admiti-la como a mais brilhante prospecção sobre a essência da forma-valor, relação social criada e desenvolvida pelo homem mas fadada à destruição social (Marx não previu a destruição ecológica, embora tenha palpitado sobre a relação do homem com a natureza, de forma filosófica-histórico-crítica) e à sua autodestruição histórica.
Imperitive21 não passa da reformulação mambembe de velhas e carcomidas premissas socialistas conciliadoras sob a égide do capital, agora feitas por liberais.
A teoria da queda tendencial da taxa de lucro, de Karl Marx, identificou que a guerra concorrencial de mercado obriga os produtores industriais a intensificarem os seus investimentos financeiros em capital fixo (máquinas e instalações) em detrimento de investimento em capital variável (gastos com trabalho abstrato, da compra de força de trabalho humana).

Tal norma comportamental capitalista, ditada pelo mercado (a mão invisível pretensamente restauradora de verdade, segundo Adam Smith), além de reduzir gradativamente a taxa de lucro e requerer cada vez mais investimentos em capital fixo, leva os empresários menos avisados a suporem equivocadamente que as máquinas aplicadas à produção de mercadorias, e que assim proporcionam lucro empresarial localizado, criam massa maior de valor global.

Não se percebe ou não se quer perceber que, quanto menos força de trabalho formadora do capital e sua cumulatividade pela extração de mais-valia haja, mais se prenuncia o fim do capitalismo (que não pode ser dimensionado no tempo de uma vida humana).

Marx explicou que quanto mais se suprime o volume de capital destinado ao investimento em capital variável, mais se suprime a produção da massa de valor global, decaindo, como consequência, a taxa de lucro por capital investido, o qual sempre necessita de mais capital para a frenética corrida ao pote de ouro embaixo do arco-íris.

Esta é a razão pelo qual a lógica de acumulação progressiva do capital não permite a sua distribuição equitativa; pelo contrário, grandes empresas monopolistas (como a Ambev, no Brasil) são obrigadas a se juntarem para melhor monopolizar o mercado. Uma estratégia de sobrevivência de curto prazo, ditada pela voracidade da acumulação capitalista.

Os novos defensores do capitalismo humanizado, por ingenuidade ou perversa desonestidade intelectual, fazem formulações como essa série de artigos veiculados pelo New York Times, empresa jornalística cujo objetivo primeiro é o lucro, que vem bem antes de informar corretamente os seus leitores.

Esses neokeynesianos querem algo assim como um cassino que distribuísse aos jogadores prêmios superiores ao valor total das apostas, ou seja, que a lógica do roubo possa ser moralmente justificada a partir de uma ética criminosa estabelecida.

Eis como Coen justifica a nova onda:
A ideia não é desconstruir o conceito de Friedman [acima, uma charge sobre seu envolvimento com lobbismo no pós-guerra] , mas mostrar que o mundo mudou. O próprio Friedman já falava que a responsabilidade de um negócio era maximizar o lucro operando dentro da lei e de forma ética.
A lei muda à medida que as pessoas decidem que têm necessidades diferentes. E temos um entendimento maior dos riscos para a vida e para os mercados trazidos pela cultura do capitalismo focado no acionista.
Nos anos 70 a geração era muito focada no indivíduo, mas agora sabemos que estamos conectados, que o meu futuro está ligado ao seu.
Ora, o conceito de ética é diferente do conceito de moral. O primeiro é circunscrito à convenção grupal; o segundo ao conceito universal de justiça.
Podemos ter uma ética estabelecida a partir de uma forma de relação social injusta, como o são as regras estabelecidas pelas normas jurídico-constitucionais capitalistas (que p. ex., admitem a posse, por um mesmo proprietário, de milhares de imóveis, e que autorizam o despejo de um casal de velhinhos por não pagar o aluguel), as quais, nem por isso, deixam de ser moralmente execráveis.

O capitalismo precisa ser superado in totum, e não reformado de modo a lhe dar uma impossível versão humanizada. O capital privilegia sempre um grupo numericamente inferior àquele que não participa desses privilégios, e não há forma de mudar essa sua natureza intrínseca, já que ela decorre de uma relação matemática subtrativa de grupos sociais majoritários.

Esopo explica: a natureza do escorpião o leva a picar a rã, mesmo quando está atravessando o rio no seu lombo e assim se condena a morrer afogado. (Publicado no blog Náufrago da Utopia)
Dalton Rosado, advogado, carioca de Fortaleza, colaborador do blob Náufraqo da Utopia
Direto da Redação é um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *