O fardo do ‘cidadão de bem’

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Publicado segunda-feira, 14 de maio de 2018 as 10:28, por: CdB

“O Fardo do Homem Branco” (The White Man’s Burden) é um poema escrito pelo inglês Rudiyard Kipling, publicado há exatos 120 anos, para romantizar os incontáveis crimes cometidos pelas principais potências imperialistas da época

Por Luciano Rezende – de Brasília:

No contexto da interiorização da anexação da África e Ásia pelos europeus, e da ocupação e ingerência dos Estados Unidos nas Américas, era necessário justificar essas agressões. Assim, odes à violência eram comuns para se exaltar a firmeza de espírito e a retidão de caráter dos colonizadores que, altruisticamente, abriam mão do conforto de seus lares para salvar os selvagens e bárbaros das trevas de suas existências.

Charge satiriza o poema do inglês Rudyard Kipling representando os EUA e a Inglaterra carregando seus respectivos fardos (os não brancos) rumo à civilização.

Pois o “fardo do homem branco” de ontem é o “fardo do cidadão de bem” de hoje. Passa-se o tempo; mas o cerne do preconceito de classe continua o mesmo, ainda que por formas distintas. É assim desde séculos e séculos. As classes dominantes, em todo o mundo; posam como a vítima de um pesado fardo atribuído a si próprias, como se destinadas a sofrer pelos desvalidos. Quanta generosidade!

Desse modo, a invasão dos EUA no Iraque nada teve a ver com o petróleo; mas tão somente com ensinar os iraquianos incultos a votarem. Na Síria, também, nada relacionado aos interesses geopolíticos da região; mas apenas a compartilhar o modo de vida americano com a população local atrasada.

Manifesto

Na Venezuela, o nobre manifesto destina-se apenas em promover eleições limpas organizadas; obviamente, a partir de Washington, livrando os venezuelanos de sua verve bolivariana.

O Fardo do Homem Branco, embora tenha sido um dos poemas mais curtos de Kipling, certamente foi o mais extenso em análises e críticas. Kipling justificava o imperialismo não pela busca e exploração dos recursos naturais; mas sim como uma necessidade de se levar a “civilização” aos lugares mais “atrasados” do planeta.

Nossa elite continua a pensar exatamente dessa forma. Os eleitores que elegeram Lula e Dilma são em sua maioria mal instruídos e pouco alfabetizados; restando aos “cidadãos de bem” corrigir essa barbaridade.

Cidadãos de bem

Talvez o que mais simbolize esse fardo atual dos “cidadãos de bem” (ou de bens); no Brasil é o discurso contra os benefícios de programas sociais; para a população mais carente. O bolsa família, por exemplo, seria um enorme fardo para a classe média por ter de financiar uma multidão de seres acomodados e indolentes.

A atualização do poema de Kipling, escrita pelos “cidadãos de bem” no Brasil; poderia passar a mensagem de se levar a “civilização” das elites que galgaram os postos mais altos da Administração Pública; e do mercado de trabalho na iniciativa privada por meio da nova providência divina rebatizada como meritocracia, aos “habitantes sem cultura”; indignos de serem chamados de cidadãos e, portanto, de terem seus votos respeitados, em nome do divino manifesto neoliberal.

Fardos

Muitos são os fardos de nossos sofridos “cidadãos de bem”; principalmente aqueles que residem em São Paulo ou Sul do país; e são obrigados a fazer algo; para salvar o país da ignorância dos eleitores do Norte e do Nordeste, fanáticos que são; e que teimam em votar em Lula. Segundo eles, carregam o país nas costas.

É nesse espírito que surge a tal República de Curitiba. Um poder paralelo, composto por “homens de bem”; eleitos por Deus (Deltan Dallagnol que o diga), para liderarem uma cruzada moralista contra os bárbaros de esquerda. O fardo de Sérgio Moro é salvar seus pares daquilo que chamam de populismo.

O verdadeiro fardo que a imensa maioria do povo brasileiro é obrigada a carregar se chama neoliberalismo. O resto não passa de As aventuras de Tintim para catequizar selvagens a acreditarem; que a corrupção de um sistema é a corrupção de um governo em especial.

Luciano Rezende, é professor. Diretor de Temas Ecológicos e Ambientais da Fundação Maurício Grabois. Membro do Comitê Central do PCdoB.

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