O sonho pode ter acabado, mas ainda restará algum pão doce…

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Publicado quarta-feira, 22 de julho de 2020 as 21:44, por: CdB

Alguns, para quem o livre-pensar é crime, que desafiam as leis da Física e mentem, com toda sinceridade, comandam nações inteiras. Destroem o que podem e, geralmente debaixo de vara, são excomungados para os quintos dos infernos.

Por Gilberto de Souza – do Rio de Janeiro

Os seres humanos são animais que adoram fantasias, sociedades perfeitas, elites pensantes, olhos azuis, dentes perfeitos; gente capaz de perguntar se o outro sabe com quem está falando. Pedaços de carbono que se imaginam seres superiores a outros pedaços de carbono por conta da cor da pele, do que comeu no café da manhã; do número de horas que passou nos bancos escolares, nesse ou naquele emprego, cargo, ou o que seja.

É preciso muito sangue frio para não ceder ao pensamento de Schopenhauer e cair em depressão profunda
É preciso muito sangue frio para não ceder ao pensamento de Schopenhauer e cair em depressão profunda

São capazes, essas heranças de um passado de supertições ainda com o cheiro das bruxas queimadas entranhado nos livros de História, de ir à guerra contra os vizinhos, com o mundo até, porque pensam de forma diferente desse ou daquele outro. Tais alguns, para quem o livre-pensar é crime, que desafiam as leis da Física e mentem, com toda sinceridade, para sustentar pontos de vista completamente anacrônicos, chegam ao comando de nações inteiras. Destroem o que podem e, geralmente debaixo de vara, são excomungados para os quintos dos infernos de onde tentam sair, de tempos em tempos.

Empoderados por legiões de adoradores do desatino, como aqueles ratos encantados pela flauta de Hamelin, que soa nas redes sociais e aparatos para transmissão em massa de mensagens, em bilhões de telefones celulares, os mestres do absurdo chegam a criar obras assustadoras. Vide a Repubblica di Salò, e os horrores nela praticados. Ou o Eixo, formado pela Alemanha, Itália e Japão, com satélites como Hungria, Bulgária, Croácia, Romênia e Eslováquia, no leste europeu; ou os governos nacionalistas de Nanquim e Manchukuo, na China de seis, sete décadas atrás.

O mesmo fio condutor que teceu os horrores do holocausto, no período nazista, ou os assassinatos e estupros cometidos pelas forças imperiais do Japão é o mesmo que carrega o discurso de ódio disperso pela consistente política de comunicação da Cambridge Analytica, formulada por Steve Banon. Trata-se do estrategista de ultradireita norte-americano que forjou as campanhas de Donald Trump, nos EUA; de Jair Bolsonaro, no Brasil, e de Viktor Orbán, na Hungria, não sem antes influir na organização do neofascismo italiano, com a Liga Norte.

Dinheiros

Com instrumentos de difusão bem mais eficazes do que o rádio de ondas curtas e o cinema, nas décadas de 20, 30 e 40 do século passado, as forças que contagiam um séquito de mentes distorcidas pela mensagem cantada na obra de Wagner — de heróis míticos dispostos a pisar a cabeça da serpente comunista, ou algo parecido, para serem levados ao Valhalla por loiras peitudas a uma eternidade de porres homéricos, camaradagem entre homens e afins, com o uso indiscriminado das mulheres — os Siegfrieds de araque têm encontrado um campo fértil na desilusão provocada pelo vazio que o capitalismo deixa na mente humana.

A vida será um tédio, se resumida ao ciclo de sobrevivência em busca de um sonho pintado pelas coelhinhas da Playboy, em automóveis velozes; uma existência de luxo absurdo e mais dinheiro do que todas as suas gerações posteriores jamais usufruirão, antes que o mundo vire cinzas. As modelos da revista masculina estão todas na ‘melhor idade’, a publicação circula, hoje, enviesada em bancas de jornais e revistas, prestes a desaparecer; e os carros, daqui a pouco, nem queimarão mais petróleo, tamanha destruição que espalharam, mundo afora.

De tudo, resta sempre o eterno desejo de acumular mais e mais dinheiros; comprar ingresso para o encontro dos tais poderosos, aqueles que imaginam não precisar de máscara, em plena pandemia, e ainda acham que podem xingar o guarda; rasgar a multa e não ser punido por isso. Trata-se de uma espécie de fetiche que se dissemina entre os que aprenderam, muitas vezes com o discurso truncado dos governos populares que antecederam este que hoje habita o Palácio do Planalto. São seres distanciados da revolução social necessária à constituição de uma sociedade justa e igualitária, que aprenderam a odiar a empatia e valorizar o racismo, os valores imperialistas, a ignorância completa, no exato momento em que perceberam a empregada doméstica sentada na cadeira ao lado, no voo para a Europa.

Cansaço

A confusão mental dessa gente é tamanha, tão imensa e avassaladora, que consegue imprimir uma velocidade alucinante na destruição de conquistas históricas, a exemplo da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT). Transforma os trabalhadores em escravos modernos, tremendamente orgulhosos por ser explorados que sequer percebem a condição vergonhosa em que se encontram, diante da própria existência. Por sorte, a imensa maioria concorda que deverão ocorrer eleições, de tempos em tempos.

O maior risco para a sobrevivência dos brasileiros que insistem em permanecer ao lado dos avanços da Ciência, do pensamento lógico e distantes da maré de estupidez que invade até as comunidades mais abandonadas desse quase continente, no entanto, está na aliança perversa que setores mais avançados da sociedade formam com seus algozes. Não é mistério para ninguém que ultracapitalistas patrocinam um sem-número de sites, blogs e organizações supostamente voltadas para o humanismo que, na realidade, não passam de portais por onde cruzam as orientações para a derrocada de qualquer iniciativa mais próxima do campo socialista. A presidenta deposta Dilma Rousseff (PT) pode dar uma aula sobre o assunto.

Sem ceder ao pensamento de Schopenhauer e cair em depressão profunda, alguns heróis da resistência se mantêm na expectativa de, um dia, bater um cansaço tão grande nos habitantes desse país com o engodo e a total ausência de caráter dos atores pagos para “iludir o povo com os slogans de liberdade e igualdade”, segundo o velho camarada, que essa terra ainda há de se tornar “um imenso Portugal”, cantou outro companheiro, bem mais jovem.

Torçamos para estar vivos, até lá.

Gilberto de Souza é jornalista, editor-chefe do jornal Correio do Brasil.

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