Paraíba do Norte, Maranhão

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Publicado segunda-feira, 22 de julho de 2019 as 09:28, por: CdB

 

Alguns poucos que me leem por aqui perguntam a razão do meu sumiço, os motivos do meu silêncio. Desconverso, alego o pouco tempo, o trabalho muito, a correria de cidade em cidade, a vida cobrando o seu tributo pesado.

Por Joan Edesson de Oliveira – de Brasília

A verdade mesmo é que a escritura cansa, diante de tanta coisa ruim, de tanto desgoverno, tanto descalabro, tanto ódio, tanta imbecilidade.

O país do presidente é branco, rico e sulista.

A escritura entra em estado depressivo, um torpor do qual não é fácil sair. É que o escriba olha para os lados e começa a se perguntar se vale a pena escrever, se na situação em que nos encontramos alguém prestará atenção na sua escritura.

A cada dia tenho a sensação de que são incontáveis os degraus que ainda restam até o fundo do poço. Descemos cada vez mais, e a impressão que dá é que esse torpor que me atinge ameaça contaminar a nação inteira.

Reúno forças para escrever, entretanto, depois de mais um dos inumeráveis absurdos vomitados pelo ódio e pelo preconceito do abjeto capitão.

Sertão do Ceará

Sou um sertanejo, um matuto do sertão do Ceará, do oco do mundo, de um lugar quase esquecido numa dobra do mapa. Aprendi desde cedo a peitar o preconceito e o ódio. Matuto pobre, nordestino, convivo desde há muito com a desconfiança em relação ao meu lugar de origem, e com a pergunta que invariavelmente se segue: de qual família você é?

A mais recente diatribe do presidente (com minúscula, por favor) revira fundo a velha ferida. Paraíba, baiano, matuto, beiradeiro, esses nomes que carrego com orgulho, são pronunciados como ofensa, com desdém, com desprezo.

Gente como o presidente, que fala em pátria e tem a palavra Brasil rasa na boca mas que bate continência para a bandeira dos Estados Unidos, gente assim enxerga apenas o Brasil e a pátria que lhe interessam. O país do presidente é branco, rico e sulista. Para ele, o nordeste, esse bando de paraíbas, não conta, não interessa.

Assim, mesmo com toda a indignação, não me surpreende a fala dele. Um amigo, prefeito de uma cidade vizinha, desde antes da eleição me dizia: “Se Bolsonaro ganhar vamos comer capim”.

A fome

Ainda esta semana, lembramos do que ele dissera e concordamos que não estamos longe disso. A fome, que o presidente desconhece, já bate a nossa porta. Em breve, a depender de como ele pretende tratar os estados do nordeste, nem capim nos restará.

E nós, o que faremos? Romperemos o torpor para combater a torpeza, que outro caminho não há.  E vamos cantar, e falar, e denunciar, e escrever, pois como na letra da canção que dá título a coluna, de Paulo César Pinheiro e João Nogueira, “quem morre calado é boi de corte”.

E se, como dizem os dois artistas, “quem canta mais forte espanta a morte”, quando a falange bolsonarista entoar seu canto vil de morte ao povo, cantemos mais forte pela vida, pela dignidade e pela democracia.

Joan Edesson de Oliveira, é educador, mestre em educação brasileira pela Universidade Federal do Ceará.

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil

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