A pólvora do Brasil e Stanislaw Ponte Preta

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Publicado segunda-feira, 16 de novembro de 2020 as 09:39, por: CdB

O diário do ridículo brasileiro para todo o mundo registrou esta semana a fala do capitão na presidência: “Quando acaba a saliva, tem que ter pólvora, senão não funciona”. Ora, essa fala se viu desmentida e desmoralizada em notícia da Folha de São Paulo: segundo dados levantados pela IFI (Instituição Fiscal Independente).

Por Urariano Mota – de São Paulo

O diário do ridículo brasileiro para todo o mundo registrou esta semana a fala do capitão na presidência: “Quando acaba a saliva, tem que ter pólvora, senão não funciona”.

“Quando acaba a saliva, tem que ter pólvora, senão não funciona”
“Quando acaba a saliva, tem que ter pólvora, senão não funciona”

Ora, essa fala se viu desmentida e desmoralizada em notícia da Folha de São Paulo: segundo dados levantados pela IFI (Instituição Fiscal Independente), órgão ligado ao Senado, foram investidos R$ 12,8 bilhões em defesa no ano passado, de um orçamento total de R$ 116 bilhões da pasta. O resto do orçamento foi R$ 50 bilhões de pagamento de militares inativos e pensionistas. E mais R$ 28,6 bilhões para salários dos militares na ativa.

Notem que para investimento em armas houve pouco mais que 10% do orçamento. E não exatamente para pólvora, porque o dinheiro foi diluído em compra de helicópteros, investimentos na estatal Empresa Gerencial de Projetos Navais, projeto de compra de caças e sistema de monitoramento de fronteiras. Ou seja, pólvora mesmo que é bom, o que temos mais é saliva.

A vergonha nacional

O mais curioso é que a vergonha nacional no poder foi antecipada há mais de 50 anos pelo gênio de Stanislaw Ponte Preta. Nosso trabalho agora é lembrar o gênio de Stanislaw nas linhas a seguir:

“Esta historinha ocorreu no Recife, onde o número de boateiros, desde o movimento militar de 1.° de abril, cresceu assustadoramente.

Falam que havia um sujeito tão boateiro, que chegava a arrepiar. Onde houvesse um grupinho conversando, ele entrava na conversa e, em pouco tempo, estava informando: “Já prenderam o novo Presidente”, “Na Bahia os comunistas estão incendiando as igrejas”, “Mataram agorinha o Cardeal”, enfim, essas bossas.

O boateiro encheu tanto, que um coronel resolveu dar-lhe uma lição. Mandou prender o sujeito e, no quartel, levou-o até um paredão, colocou um pelotão de fuzilamento na frente, vendou-lhe os olhos e berrou:

– Fogoooo!!!

Ouviu-se aquele barulho de tiros e o boateiro caiu desmaiado.

Sim, caiu desmaiado porque o coronel queria apenas dar-lhe um susto. Quando o boateiro acordou, na enfermaria do quartel, o coronel falou pra ele:

— Olhe, seu pilantra. Isto foi apenas para lhe dar uma lição. Fica espalhando mais boato idiota por aí, que eu lhe mando prender outra vez e aí não vou fuzilar com bala de festim não.

Vai daí o coronel soltou o cara, que saiu meio escaldado pela rua e logo na primeira esquina encontrou uns conhecidos:

— Quais são as novidades? — perguntaram os conhecidos.

O boateiro olhou pros lados, tomou um ar de cumplicidade e disse baixinho:

— O nosso Exército está completamente sem munição”.

Como veem, além de gênio, Stanislaw Ponte Preta era um profeta.

 

Urariano Mota, é Jornalista do Recife. Autor dos romances Soledad no Recife, O filho renegado de Deus e A mais longa duração da juventude.

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil

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