Práticas idênticas: Bolsonaro persegue a Folha como Dilma perseguiu a mídia independente

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Publicado terça-feira, 30 de outubro de 2018 as 01:54, por: CdB

Ao participar, ativamente, do golpe de Estado que abriu a Caixa de Pandora e liberou os monstros violentos e fascistas que hibernavam na sociedade brasileira, a FSP criou o fantasma que lhe assombra o futuro.

 

Por Gilberto de Souza – do Rio de Janeiro

 

Embora a Folha de S. Paulo (FSP) seja um diário conservador e atrelado aos interesses internacionais; um dos veículos alinhados ao golpe de Estado que resultou na eleição da extrema direita, no país, poderá prestar um serviço inestimável à civilização. Hoje, aquele veículo sustentado pelas verbas generosas dos governos petistas — embora lhes tenha dissuadido em uma oposição irresponsável e panfletária, da forma mais sórdida — agora se vê na mesma condição dos demais diários independentes, em circulação no país, oprimidos na última era petista por razão semelhante: não agradava ao governante de plantão.

Dilma, Temer e Bolsonaro equivalem-se na perseguição à mídia que não lhes é simpática
Dilma, Temer e Bolsonaro equivalem-se na perseguição à mídia que não lhes é simpática

Ao participar, ativamente, da derrubada de um governo legítimo e soltar os monstros violentos e fascistas que hibernavam na sociedade brasileira, a FSP alimentou a alma que, nesta segunda-feira, durante entrevista ao noticioso de maior audiência na TV aberta, prometeu não lhe destinar mais um centavo da publicidade estatal. Isso, se não promover uma perseguição calada junto aos demais anunciantes que tenham negócios na máquina federal. E são muitos.

O Correio do Brasil conhece bem essa prática de exceção. Ainda que há 18 anos, nos estertores do tempo em que tucanos mandavam alguma coisa, o CdB garanta aos seus mais de 15 milhões de leitores um noticiário independente e a opinião progressista, sem filiação partidária; o jornal tem conhecido a perseguição contumaz dos governos da centro-esquerda e de todo o arco da direita. A má vontade vem desde a posse da presidenta deposta Dilma Rousseff (PT) até agora, no mandato golpista de Michel Temer.

Subserviência

Dilma não disse, claramente, com todas as letras, conforme o fez nesta noite o presidente eleito, Jair Bolsonaro, quanto à Folha; que tentaria, sem quartel, sufocar a voz dissonante. Fez pior.

O governo Dilma perseguiu — sem tamanho alarde, mas com extremada dedicação — aqueles veículos que se recusaram a participar da política orquestrada pela Secretaria de Comunicação Social (Secom). Justo este jornal, que lhe abriu as portas para a vitória, em 2010, ao denunciar a campanha vil do candidato tucano, José Serra, em relação ao aborto. Enquanto isso, privilegiava a mídia conservadora com noticiário exclusivo, na tentativa de se alinhar ao mundo corporativo; além de destinar mais de 90% das verbas federais às Organizações Globo, FSP et caterva, que o derrubariam alguns anos depois. Foi iludido e, agora, paga o preço pela burrice; por desconhecer os sinais luminosos que indicavam o caminho para o fundo do abismo onde agora se encontra. A estupidez foi tamanha que a presidenta chegou a ocupar capa da revista semanal de ultradireita Veja e a quebrar ovos em programa matinal da Rede Globo. Humilhou-se e a todos os seus eleitores. Foi humilhada.

Enquanto isso, na contramão da História, tentava manter na condição de subserviência os meios de comunicação que não se submeteram às determinações sabujas do governo. Falo em nome do CdB e posso afirmar, de pé, que o jornal nunca serviu de massa de manobra aos planos mequetrefes daquela esquerda alinhada a Washington. Assim, foi perseguido, incansavelmente, durante os longos anos da presidenta no poder e adiante. Mas aí é compreensível, por ser o único diário brasileiro a se referir a Temer como “o presidente de facto” que é, na realidade. Mas nunca se deixou abater. Manteve-se, na época, da forma como assegura sua existência, até hoje: nas assinaturas de nossos leitores e na publicidade conquistada pela área comercial. Os governos passam e os jornais sérios permanecem. Quanto aos demais perseguidos, não tenho procuração alguma para citá-los.

Conferência de imprensa

Pode ser que, diante da escalada de uma horda fascista e letal feito essa que nos assola desde a noite de domingo, a FSP faça o mea culpa que tanto exige do PT. E este, finalmente, talvez lhe dê o braço a torcer. A Folha, por participar de forma ativa dos governos golpistas, enquanto trabalhava para ajudar na instalação de um ódio viceral à esquerda brasileira. Em especial ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Este sim, um homem injustamente privado de sua liberdade por questões políticas. Jogado ao cárcere em mais um episódio que envergonha o Poder Judiciário brasileiro, aqui e no exterior.

Quanto à direção petista, esta deveria se ajoelhar no milho por executar, ao longo de seus últimos anos na condução do país, uma obstinada perseguição justamente àqueles que lutaram ao seu lado contra a barbárie que ora se instala. Por atirar contra suas próprias trincheiras. Precisa, sem dúvida alguma, admitir tais atos de vilania com um sincero e histórico ato de contrição. Um honesto pedido de desculpas. E arrepender-se, penhoradamente, pela atitude parva na gestão de uma área tão sensível quanto é a Opinião Pública.

Eventualmente, no momento em que a FSP sente na pele o quanto dói uma saudade, possa se tornar algo útil à sociedade brasileira. E o PT, frente ao pântano em que se meteu e a todos os mais de 40 milhões de brasileiros que se opõem à selvageria, precisa começar a lutar, de verdade, para deter a concentração da mídia, no Brasil. E mobilizar o que resta de seu contingente para elaborar uma política consequente, justa e eficaz de Comunicação, com vistas à resistência necessária para trazer o país de volta ao presente.

O CdB, se convidado, participará desta conferência de imprensa.

Gilberto de Souza é jornalista, editor-chefe do Correio do Brasil.

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