Precisamos nos proteger

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Publicado segunda-feira, 30 de dezembro de 2019 as 09:00, por: CdB

Mas a história muda. Os ventos mudam. Os modos de produção se sucedem, o velho fica para trás e o novo demora a chegar, chega.

Por Elias Jabbour – de Brasília

O PCdoB sempre foi alvo de patrulhamento. Seria pior se nós um dia nos auto-denominarmos à sociedade como os paladinos da moralidade, contra os “corruptos”, da luta do “bem” contra o “mal”. Nunca fomos uma força política que fabricasse dossiês contra adversários políticos. Não somos, e nunca seremos, o partido que separa a política entre a “velha” e a “nova”. Trata-se de uma forma de negar a política, típica de um lugar comum do comportamento da pequena-burguesia e suas vaidades: as redes sociais. Aos comunistas não existe “nova” ou “velha” política. Existe tirocínio estratégico. Instinto de poder. Não somos denunciantes da ordem. Queremos superar essa ordem. Não somos a negação. Somos a negação da negação.

O “Movimento 65” é uma resposta do PCdoB à radicalização da luta de classes no Brasil
O “Movimento 65” é uma resposta do PCdoB à radicalização da luta de classes no Brasil

O nome de tudo isso que está escrito acima pode ser resumido em uma única palavra: política. E se comportar como político e se apresentar como partido político tem um alto preço a pagar em tempos de ódio generalizado e polarização. É justamente esse preço, o preço da negação da política sob a forma de principismos vazios, é que o PCdoB paga por fazer o que outros partidos fazem ou deveriam fazer. Política.

Qual o problema de fundo na decisão política de um partido em lançar um movimento com vistas a formar um verdadeiro cinturão de segurança sobre si mesmo, alvo prioritário de fascistas fanáticos, em uma época em que o presidente da República fala em varrer os vermelhos? Vai aparecer alguém com alguma frase pronta retirada de algum livro de Lênin e jogar na nossa cara para nos fazer parecer “impuros” diante da letra da doutrina. Não sou um literato do marxismo, prova disso são as poucas citações que faço de nossos clássicos em meus textos e artigos acadêmicos. Confesso que li até menos do que a média dos acadêmicos e teoricistas marxistas brasileiros – o que pode ser um demérito dado o baixíssimo nível do marxismo produzido na universidade, só perdendo para as seitas ou grupos de estudo. Me considero, antes de marxista-leninista, um “hegeliano-marxista”. E acima de tudo um brasileiro e “estou” membro do Comitê Central do PCdoB desde 2013.

Mas a história muda. Os ventos mudam. Os modos de produção se sucedem, o velho fica para trás e o novo demora a chegar, chega. E tudo muda novamente. Mudam as teorias relativas a cada modo de produção correspondente. Da mesma forma agem as leis da política. As teorias do século XIX só lançam luzes para entender a realidade cambiante. Digo isso para dizer que aos que quiserem se colocar em condições para enfrentar a brutal luta de classes que está se abatendo sobre nós só resta uma solução: se reinventar. Temos que assumir que perdemos a guerra, estamos passando por uma blitzkrieg e o trator passará por todos, inclusive os “puros”. Os comunistas serão os primeiros. E sabemos disso.

O “Movimento 65” é uma resposta do PCdoB à radicalização da luta de classes no Brasil. Consideramos a política a única arma que os trabalhadores tem diante de si para se protegerem contra os ataques que enquanto classe tem sofrido. Sabemos que a fragmentação só interessa ao inimigo principal (sim, falamos em “inimigo principal”, pois não nos metemos na tática de outras forças políticas – cada um com sua opção e as respeitamos) e que somente uma ampla corrente de caráter patriótica e popular pode ser capaz de barrar o frenesi fascista que nos ameaça. Isso é contra a “doutrina”? Lênin faria o mesmo hoje que em 1905?

“Reinvenção” é diferente de ser revisionista. O PCdoB não abre mão de seus princípios, cor, bandeira e símbolos. Mas sua tática muda em correspondência com a realidade objetiva. A quem interessa a difamação dos comunistas do PCdoB? Quando o PCdoB faltou com o Brasil? Quando traímos as aspirações da classe trabalhadora? O que temos de provar que outras forças de nosso campo não o tem? As respostas a estas questões estão na história. Me entristece em perceber que o anticomunismo é uma doença e uma patologia que atinge todo espectro político nacional e internacional, pela direita e pela esquerda. O inimigo joga com as contradições do nosso campo e tem avenida aberta para isso na mesma proporção que entre o Brasil e a classe trabalhadora pode-se escolher o próprio umbigo e partir à polarização que só interessa ao… inimigo.

Precisamos nos proteger. O Movimento 65 convida todos os patriotas e defensores da classe trabalhadora, da democracia e da nacionalidade a preencher nossas fileiras. Não somos donos da verdade. Mas não a relativizamos. Não embarcamos no “consenso liberal”, nem tampouco na “pós-política”. Porém, nos negamos o direito de entregar ao inimigo o nosso destino e nossa vida. Os comunistas não querem ter razão ou perder com honra. Queremos o poder político. Mas da mesma forma que o ser humano precisa de condições materiais para fazer história, nós precisamos acumular forças transformando quantidade em qualidade. Uma lei objetiva para quem atua no mundo real.

Quem pensa diferente, sem problemas. Não se esconda atrás de um livro ou de um perfil em alguma rede social. Apresente a nós a “receita”. Também estamos em busca dela…

Elias Jabbouré Doutor e Mestre em Geografia Humana (FFLCH-USP). Professor Adjunto da FCE/UERJ. Membro do Comitê Central do PCdoB.

As opiniões aqui expostas não representam necessariamente a opinião do Correio do Brasil

 

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