Presença de Bolsonaro na posse de Pou, no Uruguai, exclui ideologias

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Publicado sábado, 29 de fevereiro de 2020 as 14:51, por: CdB

Lacalle Pou é considerado um nome da centro-direita uruguaia e filho de um ex-presidente do país, Luis Alberto Lacalle, que governou o Uruguai entre 1990 e 1995.

Por Redação, com Sputniknews – de Montevideo e Rio de Janeiro

O Uruguai celebrará, neste domingo, a posse do presidente do país, Luis Lacalle Pou, e inaugura, assim, uma nova página nas relações com o Brasil. Em novembro de 2019, o novo presidente uruguaio venceu a Frente Ampla, coalizão de esquerda do candidato Tabaré Vázquez que governava o país há 15 anos.

O candidato de centro-direita Luis Lacalle Pou, do Partido Nacional
O presidente de centro-direita Luis Lacalle Pou, do Partido Nacional, toma posse no cargo, neste domingo

Lacalle Pou é considerado um nome da centro-direita uruguaia e filho de um ex-presidente do país, Luis Alberto Lacalle, que governou o Uruguai entre 1990 e 1995. A posse de Lacalle Pou contará com a presença do presidente do Brasil, Jair Bolsonaro – a primeira cerimônia do tipo com a participação do líder brasileiro.

A ida de Bolsonaro ao Uruguai chama a atenção, pois o presidente não esteve na posse de Alberto Fernández na Argentina no final de 2019, quebrando uma tradição do Brasil de marcar presença nesse tipo de cerimônia no país vizinho que é também o maior parceiro comercial do Brasil na região.

Alinhamento

Para Paulo Velasco, professor de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), ouvido pela agência russa de notícias Sputniknews, a presença de Bolsonaro no Uruguai é decorrência da percepção de uma proximidade ideológica com Lacalle Pou, o que é diferente do caso de Fernández.

— (A ida de Bolsonaro a Montevidéu) se justifica no fato de haver um alinhamento ideológico e mesmo de interesses com o presidente do Partido Nacional agora no Uruguai. Os dois, de fato, convergem com uma bandeira mais à direita no espectro latino-americano com orientação econômica mais liberal, algo que certamente não combina tanto com as posições assumidas até aqui pelo presidente Fernández — afirmou.

Apesar da aparente proximidade, durante a campanha presidencial no Uruguai, Lacalle Pou promoveu esforços para descolar sua imagem do presidente brasileiro. Isso porque Bolsonaro, assim como no caso argentino, tornou pública a sua preferência por um candidato à direita no país, no caso, o próprio Lacalle Pou, que avaliou à época que o apoio do brasileiro seria negativo para sua campanha.

Ditadores

Para Velasco, há certamente interesses ideológicos em comum entre ambos, mas há limites para essa aproximação, como no caso da abordagem sobre o período da Ditadura Militar.

— O que certamente o Uruguai não aceita e não aceitará jamais é qualquer tipo de posicionamento que a gente faça em defesa do período da Ditadura Militar aqui no Brasil. O Uruguai fez um trabalho muito sério de memória histórica, então é absolutamente intolerável para a sociedade uruguaia qualquer elogio a ditadores militares de qualquer tipo e de qualquer nacionalidade — pontuou.

Velasco também comenta sobre o Mercosul, apontando que apesar da importância da Argentina nas disputas internas do bloco, ter o apoio do Uruguai será necessário.

— Ainda há muitas arestas a serem aparadas e realmente ter o governo de Montevidéu ajuda certamente no avanço de algumas pressões e na busca por entendimento com Buenos Aires, sim. O grande desafio aí é a busca de um denominador comum nas negociações com o governo argentino — avalia.

Ideologia

O professor ainda comenta sobre o papel que a ideologia tem desempenhado no governo de Jair Bolsonaro, influenciando diretamente as relações com países da região – o caso de Uruguai e Argentina.

— A ideologia acaba contaminando as relações bilaterais, o que é muito negativo. Ainda mais tendo em vista a importância desse relacionamento, a aliança estratégica que existe entre Brasil e Argentina. Os interesses de Estado deveriam ficar acima de eventuais paixões ideológicas e político-partidárias, mas não é o que temos visto — concluiu o professor Velasco.

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