Quando nossa esquerda fala como Bolsonaro

Arquivado em: Arquivo CDB, Boletim, Destaque do Dia, Direto da Redação, Últimas Notícias
Publicado quinta-feira, 12 de novembro de 2020 as 16:12, por: CdB
Estávamos perto da reta da chegada das eleições estadunidenses. A CNN ia juntando, ao vivo, o total dos votos dos grandes eleitores para Trump e Biden, à medida que avançavam as apurações. Faltando ainda contar os votos em seis Estados, percebia-se, pouco a pouco, que aumentava a vantagem de Biden, tornando impossível a Trump recuperar a diferença. Já se via a vitória de Biden, embora ainda faltassem as viradas ocorridas na apuração dos votos da Georgia e Pensilvânia.
O que é (era) bom para o Trump é (era) bom para o Bolsonaro
Foi nesse momento que recebi pelo WhatsApp uma curta mensagem coletiva, de um conhecido grupo de esquerda, dizendo para ninguém se entusiasmar com a próxima vitória do Biden, porque (para não usar o linguajar chulo) tanto Biden quanto Trump eram farinha do mesmo saco. E a mensagem vinha seguido de um tweet #ForaBiden. No dia seguinte, num WhatsApp, alguém queria me explicar porque Biden e Trump eram a mesma m…, ou farinha do mesmo saco.
Minha primeira impressão foi de desolação por constatar que nossa esquerda falava quase como Bolsonaro, num discurso populista sem profundidade, sem inteligência, destinado a alimentar o fanatismo de seguidores desprovidos de qualquer visão de política internacional. Esse recurso à repetição de chavões me lembra mesmo a descrição do totalitarismo na distopia 1984, de George Orwell, com seus minutos de ódio. Tudo muito elementar. Um populismo delirante.
Bolsonaro não queria a vitória de Joe Biden e continua não querendo, tanto que até agora não reconheceu a vitória do democrata, assim como os dirigentes russos e chineses. Por quê? Porque sua desastrosa política até agora aplicada no Brasil copiava a do desastroso Donald Trump.
Como um cachorrinho amestrado, vinha imitando seu dono e já via o Brasil participando de um grupo de países conservadores, reacionários e retrógrados europeus, liderados pelos Estados Unidos de Trump.
Não é à-toa que a catástrofe do coronavírus no Brasil se assemelha à dos Estados Unidos. Trump ria das máscaras e Bolsonaro mandava seu gado tomar cloroquina para se curar da gripezinha. Tanto um como o outro são responsáveis pelo grande número de mortos registrado nos EUA e no Brasil e pelo abandono da Organização Mundial da Saúde.
Bolsonaro e seu ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles queriam prosseguir, com a benção de Trump, devastando a Amazônia e mostrando o dedo do meio para quem falasse em aquecimento global e necessidade de se salvar o planeta com a aplicação do Acordo de Paris sobre o Clima. Bolsonaro seguia Trump por sentir-se livre de qualquer inibição ao mandar às favas os direitos humanos.
E o que significa para nós a vitória de Biden? A necessidade de o Brasil levar a sério as recomendações da OMS de proteção à população e de combate ao coronavírus. Ou existe um nacionalismo verde-amarelo contra a OMS, em favor da cloroquina e de um recorde mundial em número de mortes? Será antipatriótico apagar-se o fogo na Amazônia sob pressão estadunidense?
Nossos coleguinhas dessa esquerda delirante queriam mesmo a derrota do Trump ou acreditam que, quanto pior é o inimigo, é melhor para quem quer fazer a revolução?
Sentem-se agora decepcionados com a perspectiva de terem um inimigo diferente, com propostas aceitáveis, capazes de comprometer o impacto das campanhas anti-imperialistas, esquecendo-se de que vivemos todos numa comunidade global, onde cada avanço, em cada país, contribui para o avanço em todo o planeta?
Enquanto escrevia, me chegavam por WhatsApp acusações, distribuídas por setores da esquerda, também contra a vice-presidente Kamala Harris, dando as razões pelas quais nos devemos opor a ela. Daqui a pouco, vai circular outro tweet #ForaKamalaHarris ou será o filho do Bolsonaro quem está atacando Biden e Kamala, na esperança de um vitória tardia de Trump?
Fora das repercussões no Brasil, no que o governo de Biden será diferente do dirigido até agora pelo Trump?
Ele pretende engajar toda força dos EUA na defesa do clima e dotar o país de geradores eólicos de eletricidade, limpos e sem combustíveis, acionados pelo vento. Isso é ruim ou bom para o socialismo?
E manterá os EUA no Acordo de Paris, uma medida criará centenas de milhares de empregos, diminuirá a poluição atmosférica e será mais saudável para quem vive nos centros urbanos. Serão ações contra-revolucionárias?

Biden pretende baixar os impostos para a classe média e aumentar para os mais ricos e para as grandes empresas. Com isto também poderá aumentar em 200 dólares o salário-mínimo federal.

Outro setor visado por Biden é o da saúde. Existem nos EUA 21 milhões de pessoas sem seguro de saúde e, por isso, sem médico e sem hospital. Os EUA, mesmo com o Obamacare, não têm um seguro de saúde para todos como nosso SUS, que o Bolsonaro queria destruir.
Nos EUA, é necessária a participação em convênios de saúde, ao qual a camada mais pobre não tem acesso. Biden pretende aplicar milhões de dólares numa expansão do Obamacare, ao qual se terá acesso pagando-se 8,5% do salário. Se aplicada como está no programa de governo, esta medida revolucionará o setor da saúde nos EUA. Biden não é contra o aborto, como os evangélicos, conservadores e a extrema-direita de Trump.
Ele também preconiza um governo sem preferências raciais ou de gênero. A prova é ter feito parceria com Kamala Harris de origem indiana e jamaicana, ampliando o caminho da representação das mulheres brancas ou negras na política. Biden não pretende anular tudo quanto foi feito por Trump, assim será mantido o recente acordo multilateral assinado com Israel e países árabes.
Biden não é um presidente de esquerda, não fará a revolução socialista nos EUA, nem fará jogo mole com o Brasil no comércio internacional, nem usará de ameaças nas relações com a China. Mas, para o povo estadunidense, deverá ser bem melhor que Trump. E as eleições, apesar de todas ameaças e tentativas de pressões de Trump, confirmaram a democracia existente no país.
É nesse quadro que nossa esquerda deve propor, com inteligência e sem o uso do populismo e do fanatismo, suas reformas. E preparar-se para os shows, comédias e ameaças que Bolsonaro fará dentro de dois anos, quando, por certo, não será reeleito. (Publicado no Observatório da Imprensa)
Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Criador do primeiro movimento internacional dos emigrantes, Brasileirinhos Apátridas, que levou à recuperação da nacionalidade brasileira nata dos filhos dos emigrantes com a Emenda Constitucional 54/07. Escreveu Dinheiro Sujo da Corrupção, sobre as contas suíças de Maluf, e o primeiro livro sobre Roberto Carlos, A Rebelião Romântica da Jovem Guarda, em 1966. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil, e RFI.
Direto da Redação é um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *