Pressão interna na Lava Jato aumenta após atritos entre Moro e Dallagnol

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Publicado sexta-feira, 19 de julho de 2019 as 19:01, por: CdB

Reportagens da agência norte-americana de notícias Intercept Brasil, a partir de vazamentos obtidos no programa para celular, apontam que Dallagnol e Moro são suspeitos de formar um conluio para atingir a democracia brasileira, durante as eleições de 2018.

 

Por Redação – de Brasília, Curitiba e São Paulo

 

Investigador destacado da Operação da Lava Jato e ligado ao ex-juiz Sérgio Moro, hoje ministro da Justiça e Segurança Pública, o procurador federal Deltan Dallagnol encontra-se desgastado junto à opinião pública e aos próprios colegas, que promovem uma revoada do grupo que investiga ilícitos na Petrobras. A primeira grande divergência entre Moro e Dallagnol foi exposta, nesta sexta-feira, em reportagens estampadas nos principais veículos da mídia conservadora, antes aliada de ambos; até a eclosão do escândalo da Vaza Jato.

Sem responder às perguntas dos opositores, Moro agradeceu aos elogios dispensados por aliados do governo
Sem responder às perguntas dos opositores, na Câmara dos Deputados, Moro agradeceu aos elogios dispensados por aliados do governo

Na revista semanal de ultradireita Veja, reportagem mostra que Dallagnol foi aconselhado a se afastar do comando da força-tarefa. O procurador não apenas discordou da ideia e permaneceu na operação, mas segue usando o aplicativo Telegram para assuntos de trabalho.

Reportagens da agência norte-americana de notícias Intercept Brasil, a partir de vazamentos obtidos no programa para celular, apontam que Dallagnol e Moro são suspeitos de formar um conluio para atingir a democracia brasileira, durante as eleições de 2018; com a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Conteúdos

Entre outras faltas, Moro teria sugerido o acréscimo de informações na produção de provas, questionado a capacidade de uma procuradora para interrogar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e interferido nos acordos de delação premiada.

Diante tamanho desgaste, tanto de Moro quanto de Dallagnol — que já posaram de heróis junto aos brasileiros mais crédulos — o número de procuradores que deixaram a Lava Jato entre o período das eleições 2018 e as vésperas da Vaza Jato da Intercept Brasil — um intervalo de menos de um ano — é maior do que em todo o tempo anterior, quatro anos e meio, de vigência da operação.

“Todos pediram para sair”, revela levantamento do jornalista Hugo Souza, no blog Come Ananás.

Força-tarefa

Chamaram atenção do jornalista outros dois pedidos de demissão de nomes ligados à Lava Jato, esses já com a Vaza Jato a pleno vapor. Primeiro, no último 9 de julho, Giselly Siqueira deixou a assessoria de comunicação do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Giselly é nora da jornalista Miriam Leitão.

A jornalista é casada com o também jornalista Vladimir Netto, autor de um best-seller cujo lançamento Sergio Moro foi prestigiar: um “livro-reportagem” que “se debruça” sobre o trabalho de Moro como juiz da Lava Jato, seu “vasto conhecimento técnico, as perguntas meticulosas, as sentenças fundamentadas e a coragem de enfrentar a pressão de advogados de renome”.

Três dias depois, no dia 12, o coordenador da Lava Jato na Procuradoria-Geral da República, José Alfredo de Paula Silva, pediu exoneração do cargo, por “motivos pessoais”, poucos dias antes de a procura-geral da República, Raquel Dodge, reunir-se com Dallagnol e mais sete procuradores da força-tarefa do MPF em Curitiba para prestar-lhes “apoio institucional” diante das revelações da Vaza Jato.

Bate-boca

“A crônica jornalística brasileira, porém, deu conta de que José Alfredo pediu para sair porque estava insatisfeito com a intenção de Raquel Dodge de se reconduzir ao cargo, de “correr por fora” da lista tríplice com os candidatos a Procurador-Geral da República mais votados pelo conjunto dos procuradores do Ministério Público”, acrescentou.

As mais recentes revelações da Vaza Jato, publicadas na última quarta-feira, mostram que as interferências de Sergio Moro no trabalho da força-tarefa do MPF no Paraná causou pelo menos um bate-boca, via chat, em 2015, entre Deltan Dallagnol e Carlos Fernando dos Santos Lima.

Enquanto Dallagnol, chefe da força-tarefa, defendia a interferência de Moro, ao combinar com o juiz, pedir-lhe autorização para cada passo dos procuradores da Lava Jato, especialmente a respeito dos acordos com delatores, Carlos Fernando reclamava de “jogar para a plateia”, “dobrar demasiado o colaborador” e de falta de “boa fé”.

Dominós

“Carlos Vc quer fazer os acordos da Camargo mesmo com pena de que o Moro discorde? Acho perigoso pro relacionamento fazer sem ir FALAR com ele”, digitou Dallagnol a Carlos Fernando no dia 25 de fevereiro de 2015.

Em outro chat datado de fevereiro de 2015, Carlos Fernando levou uma dura reprimenda do chefe, que é 15 anos mais jovem do que ele, por causa do desconforto na equipe de procuradores com o fervor palestrante de Dallagnol: “não me encham o saco”.

Exatamente um mês antes de deixar a Lava Jato, portanto no dia 21 de agosto do ano passado, Carlos Fernando dos Santos Lima fez sua primeira e até hoje única publicação em sua conta no Twitter: um link para um comentário que o próprio Carlos Fernando fizera no Linkedin sobre um artigo da revista britânica The Economist.

A matéria na revista britânica trata da necessidade de os chefes prezarem pelo “controle ético” das atividades da sua equipe; da “necessidade de proteção (pelos chefes) dos empregados e do ambiente de trabalho”; sobre, palavras de Carlos Fernando, “a observância orgânica do compliance“, acrescentou Souza.

O título do artigo é “Horrible bosses”. Carlos Fernando traduziu e destacou a primeira frase do texto: “eles estão caindo como dominós”.

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