Queimadas seguem o rastro do desmatamento na Amazônia, diz Instituto

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Publicado quarta-feira, 21 de agosto de 2019 as 13:22, por: CdB

Em estudo, Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) mostra que, com aumento da derrubada da floresta, o número de focos de calor também se eleva, contrariando discursos de Ricardo Salles e Jair Bolsonaro.

Por Redação, com RBA – de São Paulo

De acordo com nota técnica elaborada pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), o aumento no número de queimadas na região amazônica tem relação com a ação humana e a prática de “limpar” áreas recém-desmatadas e outros tipos de terreno.

Aumento do número de queimadas não é resultado de estiagem, mas de ação humana

O estudo indica que o desmatamento é o provável fator responsável por este cenário, e não a estiagem, como defendeu o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, em seu perfil no Twitter. “Tempo seco, vento e calor fizeram com que os incêndios aumentassem muito em todo o País”, disse na rede social.

O Ipam lembra que, apesar da seca, há mais umidade na Amazônia hoje do que havia nos últimos três anos, o que não justificaria o aumento no número de focos de calor. “A ocorrência de incêndios em maior número, neste ano de estiagem mais suave, indica que o desmatamento possa ser um fator de impulsionamento às chamas, hipótese testada aqui com resultado positivo: a relação entre os focos de incêndios e o desmatamento registrado do início do ano até o mês de julho mostra-se especialmente forte. Os 10 municípios amazônicos que mais registraram focos de incêndios foram também os que tiveram maiores taxas de desmatamento. Este municípios são responsáveis por 37% dos focos de calor em 2019 e por 43% do desmatamento registrado até o mês de julho”, aponta a nota.

As queimadas são usadas para “limpar o terreno” depois da derrubada das árvores, em geral para que a terra seja utilizada por atividades econômicas como cultivo agrícola ou pastagem para gado.

“Com a queda do desmatamento entre 2005 e 2012, os incêndios florestais arrefeceram. A retomada do desmate nos últimos anos, contudo, trouxe as chamas de volta e esfumaçou o cotidiano da população no campo e nas cidades. A relação entre desmatamento e fogo mostra-se particularmente forte neste ano de 2019. Pessoas nas cidades da Amazônia, e mesmo fora dela, passaram a respirar um ar mais poluído do que o encontrado em conglomerados urbanos como São Paulo. Os prejuízos para a saúde podem ser potencialmente catastróficos”, afirma o documento.

O Acre preocupa

De acordo com o Ipam, os registros de incêndios em 2019 são nitidamente maiores nos estados do Acre, Amazonas, Mato Grosso, Rondônia e Roraima, se comparados àqueles dos últimos quatro anos. O destaque ainda mais negativo, contudo, fica para o estado do Acre, onde o impacto das queimadas pode resultar em prejuízos para a saúde pública.

“Um efeito preocupante das queimadas e incêndios é o comprometimento da qualidade do ar. Nas últimas três semanas, as cidades acreanas têm enfrentado poluição pela fumaça, com situação crítica nos municípios de Assis Brasil, Manoel Urbano, Rio Branco e Sena Madureira. Em todos, os índice de concentração de material particulado estão bem acima do recomendação da Organização Mundial de Saúde”, pontua o Instituto, destacando que o governo estadual já decretou situação de alerta em 9 de agosto.

O Ipam adverte que o número de focos de calor no Estado em 2019 já superou o de 2016, quando houve um período de estiagem severa. “Este ano já foram registrados para todo o estado do Acre, até 14 de agosto, 1.790 focos de calor. Este número é 57% maior que o registrado em 2018 e 23% maior que o observado em 2016, ano com seca extrema, ocasionado por um dos El Niños mais fortes das últimas décadas. Paradoxalmente, assim como no restante da região amazônica, o número de dias sem chuva indica que a região não sofre uma estiagem severa neste ano, e está longe da seca intensa
registrada em 2016.”

O Ipam recomenda como medidas a serem adotadas a intensificação do “combate à derrubada ilegal da floresta e apoiar agricultores para que deixem de usar o fogo no preparo da terra. Reduzir o uso do fogo tem impactos positivos no bem-estar da população das cidades e do campo e resulta em menos gasto com saúde ou reposição de perdas agroflorestais”.

Sem provas, mais uma vez, Bolsonaro acusa Ongs

Na manhã desta quarta-feira, o presidente Jair Bolsonaro voltou a atacar Ongs e insinuou que elas poderiam estar por trás das queimadas que atingem a região amazônica.

“O crime existe e nós temos que fazer o possível para que não aumente, mas nós tiramos dinheiro de ONGs, repasses de fora, 40% ia para ONGs, não tem mais. De modo que esse pessoal está sentindo a falta de dinheiro. Pode estar havendo, não estou afirmando, a ação criminosa desses ‘ongueiros’ para chamar a atenção contra minha pessoa contra o governo do Brasil”, afirmou.

Ao abrir mão de recursos da Noruega e Alemanha, que bloquearam repasses para o Fundo Amazônia, Bolsonaro não fragilizou as “Ongs”, mas sim o próprio sistema de proteção da Amazônia, segundo a representante do Instituto Socioambiental (ISA) Adriana Ramos. “Todo o orçamento ambiental, que já é frágil, fica ainda mais frágil com a saída desses parceiros internacionais”, aponta, em entrevista. sofrem também com as queimadas.

O Fundo Amazônia financia projetos da União e de Estados e arcou inclusive com custos de estruturação de ações de prevenção e combate a incêndios na região junto ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e ao Instituto Nacional de Pesquisas Especiais (Inpe), além de parcerias com o Corpo de Bombeiros do Acre, Pará e Mato Grosso.

 

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