Ter orgulho de ser brasileiro no desgoverno Bolsonaro

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Publicado quinta-feira, 15 de agosto de 2019 as 15:32, por: CdB

Nesses tempos bicudos, muitos brasileiros andam cabisbaixos, com vergonha de nosso país, sobretudo quando tomam conhecimento da nossa imagem na mídia estrangeira.

José Ribamar Bessa Freire, de Niterói:
Stalislaw Ponte Preta se divertiria com Bolsonaro

Convém levantar os ânimos e renovar as esperanças, seguindo o exemplo da irmã Consolata, nossa professora no Ginásio de Aparecida, em Manaus. No ano do golpe de 1964, ela leu e releu em sala de aula as “Poesias Infantis” de Bilac e o livro do conde Affonso Celso “Por que me ufano do meu país”, publicado em 1900.

Lá, o escritor monarquista apresenta onze razões pelas quais podemos nos orgulhar do Brasil, entre as quais a diversidade e a beleza de sua natureza hoje agredida.

Porque me ufano do meu país: dez razões

“Ama com fé e orgulho a terra em que nasceste!

Criança, não verás país nenhum como este”.

(Olavo Bilac, Poesias Infantis, 1904)

De lá para cá, o Brasil mudou muito, a mata atlântica cedeu lugar a grandes empreendimentos que trouxeram o progresso como as barragens da Cia. Vale do Rio Doce em Mariana e Brumadinho. Temos assim que atualizar as razões para nos ufanearmos. É o que agora faremos.

1ª razão – O Brasil hoje é presidido por um estadista destemido e de raro brilho intelectual, como ficou claro nesta sexta (28) na reunião do G20 no Japão. Quando a chanceler alemã Ângela Merkel veio com o mimimi de que a floresta amazônica está sendo desmatada provocando o aquecimento global Bolsonaro, altaneiro, falou grosso com ela: “Em matéria de preservação, os alemães têm a aprender muito conosco. O presidente do Brasil que está aqui não é como alguns anteriores que vieram aqui para serem advertidos por outros países”. No olho! Tá pensando o quê? Os nossos rios podem estar poluídos, mas as crianças vão decorar a fórmula H2O.

É preciso ter muito peito para dar um chega pra lá no pais mais rico da Europa, o quarto maior parceiro comercial do Brasil, com um intercâmbio comercial que em 2018 atingiu US$ 15 bilhões. Não importa se isso pode prejudicar economicamente o Brasil. O importante é dar o troco, talquei?

2ª razão – O Brasil tem um ministro de Segurança Institucional, o general Augusto Heleno, que obedeceu o capitão e também botou quente: “Quem tem moral para falar da preservação de meio ambiente do Brasil? Estes países que criticam? Vão procurar sua turma”. Esses argumentos tiveram tanta eficácia que, segundo o ministro da Educação Abraham Weintraub, foi por causa dessa porrada que Merkel começou a se tremer toda. Já Trump, da nossa turma, declarou que Bolsonaro “é um homem especial”. Criança, nem em Tróia verás um Heleno guerreiro como este:  “In Trump we trust”.

3ª razão – Se o presidente viaja, temos um vice à altura. O sargento preso pela polícia da Espanha, transportando 39 kg de cocaína no avião da FAB da comitiva do presidente Bolsonaro, nos envergonhou ante o mundo. Cadê a Segurança Institucional? Cadê a revista policial no embarque? O general Hamilton Mourão, para quem “a indolência dos índios e a malandragem dos africanos” formou o ethos nacional, teve a coragem desassombrada de colocar os pontos nos ii: o sargento é uma “mula qualificada”, ou seja “filho de padre”, “mula-sem-cabeça”, até que se conheça o chefe do tráfico.

4ª razão – Diga lá, meu amigo, qual o país do mundo que tem um ministro da Educação do naipe de Abraham Weintraub, cuja educação, delicadeza e senso de humor conseguem provocar riso generalizado do Oiapoque ao Chuí? Hoje, ele é a alegria dos brasileiros, seja “singing in the rain”, seja minimizando o episódio da cocaína ao comentar – ha ha ha – que “o avião presidencial já transportou drogas em maior quantidade. Alguém sabe o peso do Lula ou da Dilma?  Ha! ha! ha! Abraham representa esse humor refinado e inteligente característico do brasileiro. Um Zé Carioca da Disney.

5ª razão – Não existe em 193 países do mundo nenhum ministro da Justiça que, como o juiz Sergio Moro, foi capaz de romper regrinhas bestas da legalidade para condenar quem ele tinha certeza de que era corrupto, embora o procurador alegasse que as provas eram inconsistentes. Lugar de corrupto é na cadeia, menos os corruptos do nosso lado. Por isso, ao mesmo tempo, esse juiz durão, motivo de orgulho de todos nós, sabe também ser misericordioso, quando perdoou Onyx Lorenzoni, réu confesso no uso de Caixa 2, “porque ele já admitiu e pediu desculpas”, ao contrário de Lula.  Criança, não verás juiz nenhum como este.

6ª razão – Criança, diz-me em que país do mundo um ministro do Meio Ambiente tem a coragem de um Ricardo Salles para propor uma política antiambiental, contrariando os ecochatos? Precisa ter aquilo roxo para querer transformar a Estação Ecológica Tamoios, em Angra dos Reis, numa Cancún brasileira, aberta ao turismo internacional, gerando emprego e renda, como Brumadinho e Mariana. O ousado Salles não hesitou em chamar oito ex-ministros do meio ambiente, de diferentes partidos políticos que criticaram sua política, de servirem a “um plano orquestrado por comunistas”.

7ª razão – Qualquer criança brasileira tem motivos de orgulho porque a titular do Ministério da Agricultura é Tereza Cristina, pecuarista, líder da bancada ruralista. Ela enfrentou Deus e o mundo para liberar os agrotóxicos no Brasil e não se importou de ser chamada de “Musa do Veneno” que chegará à mesa de quem não pode consumir orgânicos. Com bravura e galhardia, defendeu o uso de pesticidas, que matam todas as pestes, incluindo ambientalistas, índios, sem-terra e os movimentos sociais. Por via das dúvidas, ela não come o que produz.

8ª razão – Só alguém como o intrépido Ernesto Araújo, ministro das Relações Exteriores, podia “ajudar o Brasil e o mundo a se libertarem da ideologia globalista pilotada pelo marxismo cultural”, ele disse, inaugurando inédita diplomacia nunca antes vista na face da terra, o que é mais um motivo para o nosso ufanismo. Contrariando os historiadores, ele revelou para o mundo que “o fascismo e o nazismo são movimentos de esquerda”, sem se incomodar com o juízo do embaixador da Alemanha no Brasil, Georg Witschel, para quem tal afirmação “é uma enorme besteira”.

9ª razão – Diga lá se você já viu em algum país do mundo uma ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos que de cima de uma goiabeira falou com Jesus? Na Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados, ao ser questionada sobre se a mulher deveria ser submissa ao homem, respondeu que “sim, dentro da doutrina cristã, o homem é o líder do casamento”, criando assim um neofeminismo  revolucionário. Pronta para escrever um evangelho revisitado, criticou ainda com bravura a teoria evolucionista. É ou não é motivo de orgulho para todos nós?

10ª – Em qual país do mundo existe alguém como Fabrício Queiroz, um laranja que vira fumaça? Ou um ministro cítrico como Marcelo Álvaro Antônio que tem a função de atrair turistas do mundo todo? Mesmo coberto de lama em plena atividade, com vários assessores presos por corrupção, ele não foge à luta.

Nem no país imaginário do poeta espanhol José Augustin Goytisolo encontramos motivos para tanto orgulho. No seu poema “El lobito bueno”, ele sonhou com o mundo de cabeça pra baixo:  “Era uma vez um lobo bom, que era torturado pelos cordeiros. Havia também um príncipe malvado, uma bruxa linda e um pirata honrado”.

Criança, não verás país nenhum como este.

José Ribamar Bessa Freire, professor da Pós-Graduação em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNI-Rio), onde orienta pesquisas de doutorado e mestrado e da Faculdade de Educação da UERJ, coordena o Programa de Estudos dos Povos Indigenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti. Tem mestrado em Paris e doutorado no Rio de Janeiro. É colunista do Direto da Redação.

Direto da Redação é um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins.

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