Tucanos perdem espaço no centro, após aliança frustrada com a ultradireita

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Publicado quinta-feira, 19 de novembro de 2020 as 14:38, por: CdB

Na tentativa de sobreviver, a agremiação partidária terá agora que negociar com outras forças que saíram das urnas com mais capital politico, com destaque para PSD, DEM e PP, que ocuparam o espaço do “centro” (Centrão).

Por Redação, com BdF – de São Paulo

O primeiro turno das eleições municipais foi objetivo ao mostrar uma queda significativa no número de prefeitos eleitos do PSDB, que colhe os frutos de sua estratégia equivocada desde 2016, quando abraçou o golpe de Estado que culminou na cassação da presidenta Dilma Rousseff (PT). A tremenda perda de espaço político também espelha a decisão, tomada nas últimas eleições presidenciais, quanto os principais líderes tucanos — entre eles o atual governador paulista, João Doria — uniram-se à campanha do candidato neofascista Jair Bolsonaro (sem partido).

O governador de São Paulo, João Doria (PSDB)
Aliado de Bolsonaro (sem partido) em 2018, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB) agora tenta se afastar do mandatário neofascista

Ao longo desse ano, o partido do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso – além de Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra, entre outros – elegeu, no primeiro turno, 512 prefeitos, 35% menos do que os 785 de quatro anos atrás. Embora permaneça em quarto lugar entre as legendas que mais elegeram gestores municipais, o partido confirma a tendência de queda, transformando-se em uma legenda regional, principalmente no Estado de São Paulo.

Na tentativa de sobreviver, a agremiação partidária terá agora que negociar com outras forças que saíram das urnas com mais capital politico, com destaque para PSD, DEM e PP, que ocuparam o espaço do “centro” (Centrão), na opinião do cientista político Vitor Marchetti, da Universidade Federal do ABC (UFABC).

Novo cenário

Marchetti classifica esse conjunto partidário de “uma nova Arena”, em referência à Aliança Renovadora Nacional, que dava uma face institucional aos governos militares no regime iniciado em 1964. Como abandonou o espaço que ocupava no espectro político até as eleições de 2014, quando transitava do centro a uma direita até então civilizada, o PSDB viu esse espaço se fechar. Tornou-se inevitável que agora ocupe alas exclusivamente à direita.

Em 2020, na avaliação de Marchetti, consolidou-se um cenário com três frentes políticas. Do bolsonarismo, caracterizado pela “não organicidade”, de extrema direita e fragmentada — o que ficou visível nas eleições —, mas que tem capital político não desprezível. A segunda força é a “nova Arena”, abrangendo o ‘Centrão’, a direita, PSD, DEM e PP, com promessa de adesão até do Republicanos. A terceira força é a esquerda, com a liderança do PT.

A derrocada do PSDB se anunciou nas eleições presidenciais de 2018, quando configurou-se um vácuo no espectro político de centro-direita com a polarização das candidaturas do PT e de Bolsonaro, impulsionado pela onda antipetista. O então candidato tucanos Geraldo Alckmin atingiu apenas 4,76% dos votos válidos, marca risível para a legenda que desde 1994 disputava o segundo turno com o PT.

— A questão é multifatorial. PSDB e MDB apostaram na implosão do governo petista, por achar que ocupariam o centro moderado, mas ao implodir o governo petista, flertando com a ruptura institucional, abriram caminho não para a moderação, e sim para a radicalização. Acabaram ficando a reboque do bolsonarismo. O ‘Bolsodoria’ foi fruto dessa conjuntura — disse Marchetti ao site de notícias Brasil de Fato (BdF).

Sem espaço

Na opinião do cientista político, Doria radicalizou o discurso fazendo eco com estratégias extremamente equivocadas.

— E agora, quando tentam se afastar do bolsonarismo, veem o centro moderado já ocupado. PSDB e MDB acabaram sendo derrotados por terem patrocinado o golpe de 2016. Quando voltam a esse centro, não participam mais como protagonistas, como imaginavam em 2016 — acrescentou.

Quanto ao espaço do PSDB, a partir de agora, segundo o analista, se não compuser com qualquer das três frentes (o bolsonarismo, a “nova Arena” ou a esquerda), o partido teria que abrir uma quarta frente.

— Mas, sozinho, ele não consegue. Só vejo uma composição possível dos tucanos com essa nova Arena. Ou então caminhar para próximo de PSB e PDT, como uma alternativa de centro a centro-esquerda moderada. Mas não aposto nisso. O PSDB agora tem que pagar o pedágio a esses partidos – DEM, PP e PSD – que ocuparam o espaço de uma direita mais institucional e sistêmica — avaliou.

A esquerda

Os três partidos principais do grupo que Marchetti classifica como “nova Arena” deram um salto significativo em prefeituras conquistadas. O PP foi de 495 a 682 eleitos. O PSD, de 537 a 650. Já o DEM, principal legenda de apoio aos governos de Fernando Henrique Cardoso, ampliou os eleitos em primeiro turno de 266 para 459, um crescimento de 72%.

— A esquerda (por sua vez) agora é mais multicêntrica, com PSOL e PCdoB disputando importantes capitais — anota o cientista. Em Porto Alegre, Manuela D´Ávila (PCdoB) está no segundo turno contra Sebastião Melo (MDB).

Já o PSOL, com Guilherme Boulos, disputa a prefeitura da maior cidade da América do Sul, e Belém, com Edmilson Rodrigues apoiado pelo PT. O partido de Manuela caiu de 80 para 46 prefeitos eleitos, enquanto a legenda de Boulos dobrou, de dois para quatro.

Apoiadores

Daqui para frente, para o professor da UFABC, o PT (que caiu de 254 para 179 prefeituras) vai ter que se reposicionar no campo da esquerda, compondo um conjunto sólido com PSOL e PCdoB. “Ainda não dá para saber como esse campo da centro-esquerda vai ser povoado. Precisamos ver como será a disposição de PSB e PDT dentro desse espectro”, diz.

Assim como o PT, o PDT anunciou, na véspera, que apoiará a candidatura de Boulos no segundo turno em São Paulo, mas o anúncio oficial será nesta sexta-feira. O partido de Ciro Gomes também vai apoiar Manuela em Porto Alegre, segundo Juliana Brizola, que disputou a eleição e chegou em quarto lugar. Ciro Gomes também manifestou apoio a Manuela, pelo Twitter.

“Todos que pudermos estar juntos para derrotar o Bolsonarismo corrupto e antipovo! Boa sorte, @ManuelaDavila! Boa sorte, brava gente gaúcha de Porto Alegre”, desejou.

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