UFSCar: atividade sobre reforma agrária é alvo de denúncia

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Publicado segunda-feira, 30 de abril de 2018 as 15:10, por: CdB

Acusação anônima de ter caráter “político-ideológico” revoltou organizadores da Jornada Universitária em Defesa da Reforma Agrária. Para eles, denúncia põe em risco a liberdade de cátedra

Por Redação, com RBA – de São Paulo:

No último dia 23 de abril, véspera de iniciar a 3ª Jornada Universitária em Defesa da Reforma Agrária (JURA), o professor de economia Joelson Gonçalves de Carvalho, um dos organizadores do evento na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), no interior paulista, foi surpreendido com a informação de que a atividade havia sido denunciada, acusada de ter “caráter eminentemente político-ideológico”. Feita de forma anônima, a “denúncia” causou surpresa ainda maior pelo fato de ter sido acolhida pela ouvidoria da universidade.

Denúncia na UFSCar se soma a outras que têm atingido a liberdade acadêmica em universidades do país

Professor do Departamento de Ciências Sociais da UFSCar, Joelson Gonçalves de Carvalho criticou a aceitação da denúncia e disse que o caso coloca em risco a liberdade de cátedra e a autonomia universitária. Como consequência, ele e o professor Rodrigo Constante, co-realizador do III JURA, terão até o próximo dia 21 de maio para se defenderem formalmente.

– Teremos que gastar tempo e energia para responder a uma denúncia que não tem análise de mérito da ouvidoria, que acata um argumento frágil de um denunciante que não se coloca nominalmente, mas apresenta um motivo qualquer que atrapalha o andamento das atividades acadêmicas e, repetindo a prática, coloca em risco a liberdade, a autonomia de cátedra e do pensamento crítico dentro da universidade brasileira – afirmou o professor de economia, que tem a questão agrária como uma de suas áreas de pesquisa acadêmica e defende que a universidade paute problemas sociais para pensar suas soluções.

A surpresa com a denúncia foi ainda maior pelo fato de ser o quinto ano consecutivo que o evento é realizado na UFSCar, sendo o terceiro ano de modo simultâneo com outras universidades federais do país, com o nome de Jornada Universitária em Defesa da Reforma Agrária, o que, segundo Joelson de Carvalho, ressalta a importância do tema para a reflexão acadêmica.

– Foi com muita surpresa que recebi uma denúncia sigilosa que colocou o evento em risco. Fiquei muito abalado. Sendo o quinto ano consecutivo e com bastante participação dos dissentes e de outros pesquisadores, receber uma denúncia que coloca em xeque um evento que gera capilaridade social, ao mesmo tempo em que ajuda a universidade a cumprir o seu papel, fiquei bastante chateado.

Do ponto de vista técnico, o professor de economia avalia que a denúncia foi “tão frágil, tão descabida”, que não chegou a colocar em risco o evento, realizado nos dias 24 e 25 de abril. O que o preocupa, entretanto, é a dimensão política da denúncia anônima ser acatada pela ouvidoria da universidade, considerando o contexto do país onde outros casos de ameaça à liberdade de cátedra vêm acontecendo. Por isso, os organizadores do III JURA na UFSCar fizeram questão de dar visibilidade ao problema.

Desagravo

– Fizemos um ato político de desagravo à postura tanto de um denunciante covarde; como de algo que nós acreditamos ser bastante complicado, que foi o prosseguimento da denúncia. Exatamente porque acreditamos tanto na pertinência do evento quanto na importância dele para que a universidade pública paute temas sociais relevantes; e abominamos qualquer forma de perseguição; mesmo sob pena de sermos mais perseguidos ainda – afirmou. “Vamos gastar algum tempo para nos defendermos individualmente; mas vamos gastar todo tempo para defendermos a universidade pública socialmente referenciada e minimamente crítica num momento de golpe no qual vivemos.”

Joelson de Carvalho destaca que a história das universidades brasileiras sempre esteve ligada à luta pela democracia e contra a ausência de autonomia. Neste sentido, enfatiza que a JURA e a universidade são alvos de diversos ataques. “Passa a ser alvo de denúncia a reforma agrária, porque a reforma agrária não interessa a esse governo. Passa a ser alvo de denúncia qualquer pauta LGBT, porque essa pauta deixou de ser interessante para um governo golpista. E assim muitas outras”, afirma, citando ainda a questão dos direitos quilombolas.

Para o professor de economia, os ataques ao pensamento crítico no âmbito acadêmico estão inseridos no modelo de plutocracia que governa o Brasil, combinado com a fragilização das instituições democráticas de direito. “Na ausência de democracia, com o poder do dinheiro determinando em grande medida a condução da lógica política, não estamos mais vivendo o neoliberalismo, é o ‘liberalismo dos infernos’. Estamos numa economia capitalista que elevou a lógica neoliberal ao extremo e abandonou as lógicas e práticas democráticas, corrompendo instituições que são pilares de sustentação da democracia”, afirma Joelson de Carvalho.

Segundo ele, é por isso que os ataques são direcionados àqueles que lutam pela democracia, como as universidades federais e os movimentos sociais. “Todos os temas que já foram importantes pautas de questões sociais não serão bem vistos e, se insistidos neles; todos aqueles que buscam essa reflexão mais crítica estão como alvo preferencial de ataques; tanto por parte de instituições públicas quanto por parte do aparato policial e daqueles que representam os interesses da plutocracia, uma elite que se aperta dentro do Estado e usa o Estado em benefício próprio.”

Resistência

Como resposta à tentativa de inviabilizar o evento e o debate da questão agrária na Universidade Federal de São Carlos, o professor do Departamento de Ciências Sociais já anunciou a realização da Jornada Universitária em Defesa da Reforma Agrária (JURA) de 2019, também no mês de abril. “Virou questão básica manter a JURA como instrumento acadêmico e político numa universidade que não é e nunca foi neutra. Essa conjuntura tem nos animado à união daqueles que acreditam no verdadeiro papel da universidade, para que ela não se cale frente ao terror deste contexto e a perspectiva de piora no curto prazo.”

MST

Em 2018, o efeito prático foi o oposto daquele pretendido pelo denunciante anônimo. Houve maior participação de entidades na organização do evento, como grupos de economia solidária, educação no campo e pesquisa rural, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). A denúncia ainda fez com que os organizadores adaptassem a programação e, como resultado, o público presente na abertura foi o dobro do registrado em 2017.

Com discussões agrárias, uma feira ecosolidária agroecológica e exposição de fotos do movimento estudantil, a 3ª JURA na UFSCar terminou com o debate intitulado Pós-golpe: O que esperar, criminalização ou resistência?.

– Saímos uníssonos com a ideia da resistência, seja ela na academia, nos movimentos sociais ou em qualquer outro espaço, porque os ataques são difusos, a única certeza que temos é de que são cada vez mais persecutórios – afirmou o professor Joelson de Carvalho.

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