Os esquadrões da morte da extrema-direita

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Publicado domingo, 25 de março de 2018 as 07:10, por: CdB

Até o momento em que escrevi este artigo, o assassinato de Marielle Franco, do PSOL, e seu motorista Anderson Pedro Gomes, ainda não tinha sido elucidado. No entanto, tudo aponta para mais um ato das chamadas milícias, nome ameno, ou, quem sabe, sem vergonha, que a imprensa deu aos esquadrões da morte ligados à extrema direita.

Por Tarcísio Lage, de Hilversum, Holanda:

Os métodos do nazifascismo brasileiro

Cadáveres encontrados nos chamados valões, com a boca cheia de formiga na gíria das favelas, não é novidade há muito tempo nos morros cariocas. E essa tradição de eliminar a população pobre que leva a pecha de marginal, vem de longe, antes mesmo da ditatura militar. Só para não afastar muito no tempo, basta lembrar que o primeiro grupo batizado pela imprensa como esquadrão da morte, tendo como símbolo uma caveira, surgiu em 1965 e já atuava bem antes do golpe.

Para efeito de relações públicas, o nome oficial era Escuderia Le Cocq, nome do detective morto por Cara de Cavalo, apelido de um favelado que vendia proteção a banqueiros do jogo do bicho. A primeira missão do esquadrão foi fuzilar Cara de Cavalo, com mais de 50 tiros.  Sivuca, um dos criadores da Escuderia, elegeu-se deputado estadual e é dele a frase: bandido bom é bandido morto.

Também não é novidade a execução de lideranças populares em muitos quadrantes do Brasil, sobretudo aquelas ligadas do MST, por conta de assassinos pagos. Só nos últimos quatro anos, foram executados por esses grupos armados, no estilo dos velhos jagunços ligados ao latifúndio, 24 líderes populares em várias partes do País, segundo um levantamento feito historiador Fernando Horta e publicado no site Operamundi.

No entanto, até a execução de Mariella e seu motorista, os esquadrões da morte do Rio de Janeiro, agora apelidados de milícias, nunca tinham se aventurado executar pessoas com diplomas universitários e cargos públicos nas ruas onde circulam os automóveis de “gente bem”. Alguém pode lembrar-se do atentado contra Lacerda na rua Tonelero, no dia 5 de agosto de 1954. Mas era um outro contexto, numa disputa política que se extravasou e que culminou com o suicídio de Getúlio Vargas 19 dias depois.

O fato é que o Brasil nunca teve uma situação como a Colômbia onde, nas eleições de 2007, foram assassinados mais de 20 candidatos e na década de 1990, no auge da guerra contra os carteis, tombaram um ministro da Justiça e um postulante à presidência da Republica. Dia 15 passado, vale lembrar, O Globo publicou reportagem nomeando México, Colômbia e Itália os campeões dos atentados contra políticos.

Não é de estranhar, portanto, que agora políticos de praticamente todos os partidos vieram a público condenar e lamentar o atentado contra Marielle. Parece que o único que ficou com o bico calado foi Bolsonaro. O grande temor é óbvio. Um esquadrão da morte da extrema direita desceu o morro e executou uma vereadora, representante, portanto, do poder público, eleita com mais de 40 mil votos.

Para a extrema direita, a direita que prefere o caminho da corrupção e da chantagem para obter votos é também inimiga.  Aí está o elemento mais perturbador neste ano de eleições presidenciais, onde o candidato favorito em todas as pesquisas foi condenado à prisão num processo duvidoso e o segundo colocado representa a extrema direita, essa gente que acha que bandido bom é bandido morto.

Há, também, outra preocupação a curto prazo, que as investigações apontem uma meia dúzia de culpados e deixem intactos os líderes das milícias de extermínio, os esquadrões da morte.

Tarcísio Lage, jornalista, escritor, começou na Última Hora de Belo Horizonte no início dos anos 60. Com o golpe de 1964 teve de deixar a cidade e o curso de Economia na UFMG. Até 1969, quando foi condenado pela (In) Justiça Militar, trabalhou em várias redações do Rio e São Paulo. Participou da tentativa de renovação da revista O Cruzeiro e da reabertura da Folha de São Paulo, em 1968. Exilado no Chile no final de 1969, trabalhou, em seguida, em três emissoras internacionais: BBC de Londres, Rádio Suiça, em Berna, e Rádio Nederland, em Hilversum, na Holanda, onde vive atualmente. As Tranças do Poder é seu último livro.

Direto da Redação é um fórum de debates, editado pelo jornalista e escritor Rui Martins.

 

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