Cesare Battisti, traído e deportado

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Publicado quarta-feira, 16 de janeiro de 2019 as 21:45, por: CdB

Dois textos ainda atuais sobre a deportação pela Bolívia para a Itália do ex-militante da extrema esquerda italiana Cesare Battisti. Um homem transformado em objeto e traído por Evo Morales.

Por Rui Martins, de Genebra:

Transformado em objeto, Cesare Battisti foi também traído por um pretenso companheiro

Ao final da caça ao italiano Cesare Battisti, acusado de ter cometido crimes, não provados, há mais de 40 anos, e sua encarceração numa solitária italiana para o resto da vida, fica a pergunta: quem é esse italiano?

Apesar de etiquetado como terrorista e do mistério dos seus 37 anos de fuga, até ser apanhado pela Interpol, Cesare Battisti não é um clone de Guevara, mesmo se foi também um presidente boliviano quem o entregou à Itália de direita do primeiro-ministro Salvini, como o presidente boliviano René Barrientos havia selado a sorte do Che.

Cesare Battisti era um foragido solitário que, apesar de 37 anos de fugas, não se tornou um especialista nem na arte de se esconder e nem de se disfarçar. Por isso sua história me comoveu e me levou a lutar por ele, logo depois de preso no Rio de Janeiro em março de 2007.

A escritora francesa Fred Vargas, especialista em romances policiais e que fez um longa pesquisa sobre Battisti, me convenceu de sua inocência. Enquanto Battisti iniciava sua vida de fugitivo, se escondendo da polícia por ter pertencido a um movimento terrorista, seus antigos companheiros presos lançavam sobre ele a culpa dos crimes cometidos.

Seu processo feito à revelia ou na sua ausência, foi marcado por fraudes e mesmo assinaturas falsas de advogado, comprovou o professor Carlos Lungarzo, num livro de pesquisas sobre o processo de Battisti. Enquanto estava no México, refúgio seguro, onde escreveu seu primeiro livro, pouco importava sua condenação, na Itália, à prisão perpétua.

Porém seu primeiro grande erro, erro, foi o de ter trocado o México pela França, onde o presidente François Mitterrand garantia asilo seguro. Foi um erro porque ao terminar o segundo mandato de Mitterrand, a Itália reabriu a caça aos antigos terroristas e só faltava pegar Battisti.

Era preciso fugir novamente, mas para onde? Battisti contava que decidiu escolher o Brasil porque confiava no presidente Lula. Mas a Itália, com seus inspetores Javert, localizou sua proa e Battisti foi preso. Fez um longo período na prisão de Papuda, teve depressão, escreveu outro livro e deu sorte ter confiado em Lula, pois o presidente, no último dia de seu mandato, negou a extradição de Battisti à Itália, decisão não aceita pelo STF, custando isso mais longos meses de prisão.

Enfim livre, Battisti se tornou um refugiado comum, com papéis em dia e os processos contra ele prescreveram. Casou, teve um filho, foi viver em Cananéia, escreveu mais livros. Julgava-se salvo. Enganou-se.

Cesare Battisti não era um terrorista mítico e nem procurava ser. Desejava ser um cidadão esquecido no litoral sul de São Paulo. Mas o presidente Temer, o ministro Fux, o candidato Bolsonaro depois eleito, e o embaixador italiano no Brasil viam no quieto e mesmo tímido Battisti um objeto, um objeto de muito valor para ganhar prestígio e mesmo votos.

Cada um deles queria um pedaço de Battisti. Mas Temer e Fux passaram a perna em Bolsonaro, que também foi passado para trás por um novo perseguidor de Battisti, o boliviano Evo Morales, e também pelo embaixador italiano, desejoso de uma promoção junto ao ministro, agora por certo garantida.

Ignorando todos esses interesses, pessoas desinformadas postam nas redes sociais mensagens de ódio e vingança. Quanto tempo Battisti aguentará na prisão?

***

Rui Martins é jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura. Vive na Suíça, correspondente do Expresso de Lisboa, Correio do Brasil, e RFI.

UM INOCENTE É DESTRUÍDO PARA OS NEOFASCISTAS EXIBIREM FORÇA E CONQUISTAREM HOLOFOTES

Por Celso Lungaretti, de São Paulo:
A cabeça de Battisti não foi para a sala de troféus do Berlusconi. Bem feito!
Nunca me pesou tanto escrever sobre um episódio importante. Mas, não deixarei de dar uma palavra final sobre o Caso Battisti.
Ele havia integrado o inexpressivo grupelho Proletários Armados para o Comunismo, um dentre centenas que pegaram em armas na Itália dos anos 70 depois da traição histórica do PCI ter levado ao desespero os esquerdistas sinceros daquele país.
Jogando suas dignas tradições no lixo, os comunistas italianos primeiramente combateram (até em batalhas de rua) a contestação jovem de 1968, depois se mancomunaram com a putrefata Democracia Cristã para chegarem ao poder (algo semelhante à aliança entre PT e PMDB no presente século).
Uma atordoada juventude de esquerda, já não tendo partido da política convencional que lhe inspirasse quaisquer esperanças, embarcou na aventura da luta armada – e se deu mal, principalmente a partir do verdadeiro tiro pela culatra que foi o assassinato de Aldo Moro por parte das Brigadas Vermelhas.
O inimigo, com o  PCI à frente, soube capitalizar ao máximo tal episódio chocante, insuflando uma desmedida histeria anti-ultras que tornou a Itália, durante alguns anos, um híbrido de Estado policial: mantinha algumas instituições funcionando normalmente, mas sua polícia e sua Justiça se desequilibraram por completo, atingindo paroxismos de tendenciosidade em seus julgamentos de cartas marcadas.
“alçado a famoso, tornou-se alvo preferencial dos neofascistas”
Nesse clima de caça às bruxas se deu a condenação de Battisti à prisão perpétua, baseada unicamente nas delações premiadas de antigos companheiros que, sabendo-o a salvo na França, atiraram em suas costas uma responsabilidade que ele nunca teve, por quatro episódios que terminaram em morte.
Embora nem a mim ele haja admitido isto, fiquei com a certeza de que a transferência de culpas não se deu à revelia de Battisti. Pelos valores da esquerda revolucionária daquele tempo (e falo como quem a ela pertenceu convictamente), nenhum militante digno, ainda mais supondo-se inatingível pelas forças repressivas, deixaria de dar sua contribuição para a libertação de companheiros. Prestar solidariedade era um dever de honra para nós.
Como zelador de edifícios e outras profissões subalternas que exerceu na França, sob a proteção do premiê François Mitterrand (o qual, sabendo das injustiças e arbitrariedades que a Itália perpetrava contra seus ultras, ofereceu-lhes abrigo desde que levassem existências comuns, abstendo-se de atividades políticas), Battisti estava praticamente esquecido.
Bastou obter sucesso literário como escritor de novelas policiais para, alçado à condição de famoso, tornar-se um alvo preferencial das fanfarronices neofascistas, um troféu que Silvio Berlusconi moveu céus e terras para poder exibir triunfalmente. Contudo, por uma questão de timing, acabou sendo agora privado dos holofotes que buscou de forma tão obsessiva (bem feito!).
“não demora e vai abandonar Lula e o PT também”
Assim, por eventos obscuros de quatro décadas atrás, um cidadão pacato e produtivo de 64 anos, com um filho brasileiro para sustentar, está sendo remetido ao inferno das prisões italianas, das quais dificilmente sairá com vida (até porque várias vezes já manifestou sua intenção de suicidar-se, de preferência a suportar tal calvário).
O pretexto para sua destruição são três assassinatos que não cometeu e um quarto que até mesmo a Justiça italiana deixou de atribuir-lhe ao ficar provado que ele não poderia estar fisicamente presente no chamado local do crime, mas que a indústria cultural continua lhe imputando para fins de manipulação desavergonhada.
O verdadeiro motivo é bem outro: provar que o sistema pode esmagar a bel-prazer seus dissidentes, desestimulando qualquer resistência à desumanidade, neste momento em que a barbárie avança em passo acelerado, minando as bases de nossa civilização.
De resto, deixando de lado os personagens que fizeram exatamente o que deles se esperava e não merecem sequer ser citados num artigo para pessoas de família (seus nomes equivalem a palavrões!), mencionarei apenas dois que fizeram aquilo de que poucos os imaginavam capazes.
Um é Luiz Fux, ministro do STF que tomou uma decisão coerente com os preceitos legais em outubro de 2017, quando ninguém imaginava que a extrema-direita fosse chegar ao poder no Brasil, e assumiu posição diametralmente oposta quando uma nova correlação de forças políticas se configurou na eleição presidencial.

Outra é o presidente da Bolívia Evo Morales, que incidiu na mesma ignomínia de um antecessor repulsivo: franqueou o território do seu país para forças estrangeiras caçarem Battisti, assim como René Barrientos o fizera em 1967 com Che Guevara.

Não me estenderei sobre Morales porque teria dificuldade para evitar os vômitos. Darei a palavra a Roberto Jefferson, que conhece bem como funciona a cabeça dessas figuras da politicalha sórdida.
Depois de constatar que Morales havia lavado as mãos com relação a Battisti, Jefferson concluiu: “O índio é pragmático. Não demora e vai abandonar Lula e o PT também”.
Alguém duvida?
Celso Lungaretti, jornalista e escritor, foi resistente à ditadura militar ainda secundarista e participou da Vanguarda Popular Revolucionária. Preso e processado, escreveu o livro Náufrago da Utopia (Geração Editorial). Tem um ativo blog com esse mesmo título.

Direto da Redação é um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins.

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