A contagem regressiva de Washington para atacar o Irã

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Publicado terça-feira, 29 de maio de 2018 as 10:01, por: CdB

Não se olha para um relógio sem uma instintiva sensação de pavor. “Lá no fundo está a morte, mas não tenha medo”: foi a recomendação de Julio Cortázar antes de prosseguir com as instruções para se dar corda em um relógio, nas “Histórias de cronópios e de famas”

Por Alexandre Ganan de Brites Figueiredo – de São Paulo:

Qualquer relógio traz consigo a expectativa da morte e a possibilidade de continuidade da vida. Durante a Guerra Fria, foi um relógio o símbolo escolhido por cientistas norte-americanos que trabalharam na criação das armas nucleares para ilustrar a expectativa de um “apocalipse”.

A contagem regressiva dos EUA para atacar o Irã

O chamado “relógio do juízo final”, localizado na Universidade de Chicago; não recebe mais a mesma atenção midiática quando move seus ponteiros na direção de um fim.

Não obstante, o término da Guerra Fria mostrou que a máquina de guerra dos Estados Unidos; já sem a obstrução da URSS, continua capaz de difundir morte e destruição em prol de seus interesses.

Os ponteiros avançaram contra as populações do Iraque, da Líbia, da Síria; fora outras muitas ameaças. Agora, o senhor da guerra dá a corda novamente para marcar o momento de um cada vez mais próximo ataque contra o Irã.

No desenrolar da crise que escolheu desatar contra Teerã, a Casa Branca, internacionalmente isolada; renovou a ofensiva e deu mais passos na direção da guerra. Após retirar-se ilegal e unilateralmente do acordo nuclear assinado com o Irã e com os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU.

Alemanha

Além da Alemanha, Washington agora apresenta uma lista de exigências formuladas sob medida para não serem aceitas. E, de fato, são inaceitáveis para qualquer país que pretenda manter algum nível de soberania.

O porta-voz da novidade foi o secretário de Estado, Mike Pompeo. Em discurso na Heritage Foundation; um poderoso e conservador centro de estudos; Pompeo apresentou 12 demandas dos EUA ao Irã.

Teerã

Em seu conjunto, tais exigências “básicas” implicam na renúncia de Teerã ao direito de se defender de agressões. Pompeo quer que os iranianos parem de fazer política no Oriente Médio; e abandonem seu programa balístico (única defesa de que dispõe; dada a renúncia ao programa nuclear com fins militares).

Sem a aceitação dessas exigências, nas palavras do responsável pelas relações exteriores dos Estados Unidos; virão “maiores sanções da história” e o “esmagamento” do Irã. Ora, as exigências postas no balcão por Pompeo para retomada do diálogo são; como tantas outras, meras homenagens que o vício faz à virtude.

EUA

Os EUA não querem diálogo. Apresentaram essas 12 condições para a retomada das conversas apenas porque sabem que o Irã não pode aceitá-las. A saída unilateral do acordo não caiu bem no interior do arco de alianças de Washington; e algum esforço na direção de uma retomada seria necessário.

De fato, Pompeo apresentou formalmente as novas condições norte-americanas, mas o cinismo é tamanho que ninguém o levou a sério. Tanto os iranianos como os outros Estados signatários do acordo se apressaram em dizer que os 12 pontos são inaceitáveis.

Confiando na sua força, a Casa Branca de Trump não parece preocupada em dar satisfações a aliados que, no fundo, despreza. A negativa humilhante aos insistentes apelos de Alemanha; Inglaterra e França em prol da permanência dos EUA no acordo evidenciam a ascensão de uma arrogância que dispensa diplomacia.

Até que ponto a retórica tem condições materiais e políticas de ser acompanhada pelas ações é ainda nebuloso. Mas Trump e seus assessores já deram a corda no relógio do conflito e parecem ansiosos por ele.

Correia do Norte

Quando nos concentramos no outro quadrante do relógio; onde está a Coreia do Norte, vê-se que as idas e vindas em torno de uma eventual reunião entre o presidente dos EUA e Kim Jong-un ampliam o nevoeiro.

A cúpula, já agendada para 12 de junho, está em risco de nem acontecer devido a mais uma tentativa norte-americana de voltar atrás; com direito a uma carta pretensamente amargurada; escrita para a opinião pública internacional; na qual Trump se declara ansioso por um encontro com Kim.

No último dia 26, pretendendo salvar a negociação; os líderes sul e norte coreanos se encontraram para reafirmar o compromisso com a paz. Já no 27, uma equipe de norte-americanos chegou à Coreia do Norte para continuar as negociações… não é fácil separar o que é sério e o; que é tão somente parte desse complexo jogo de aproximação e repulsa.

Paz

De todo modo, a garantia da paz na península coreana é a base para evitar; que os EUA se envolvam em uma luta em duas frentes e, indiretamente; contra os dois adversários de peso: Rússia, aliada do Irã, e China, da Coreia do Norte.

Há uma opção clara pela concentração de forças na desestabilização do Oriente Médio. Essa, aliás, foi a primeira alteração de política externa levada a cabo sob a gestão de Pompeo e dos novos falcões que Trump guindou a cargos estratégicos em Washington.

Obama

Se até aqui não há muita novidade na prática, já que o império norte-americano, sob o Nobel da Paz Barack Obama, foi também belicista, há no discurso. Trump anunciou em campanha eleitoral e no início de seu governo que os EUA se concentrariam em si mesmos, retirando-se do mundo.

Contudo, sua política externa que aos poucos vem tomando forma herdou do isolacionismo apenas a arrogância da crença no excepcionalismo norte-americano. A crença na sua superioridade e a disposição arrogante de preferir o confronto ao invés do diálogo ao menos tem desmascarado a face coercitiva de um poder que se apresenta como benéfico.

O imperialismo norte-americano se sustenta ideologicamente no mito de uma luta por valores, tanto no âmbito interno como no externo. Após a Segunda Guerra, formularam inclusive um discurso anticolonial para se apartarem da imagem dos antigos impérios europeus.

Sua luta seria pela liberdade e pela difusão de instituições democráticas. Justamente por isso, havia um certo pudor (especialmente durante a Guerra Fria) em designá-los como um império propriamente dito. Embora o sejam.

História dos EUA

A história dos EUA é a história de um Estado em guerra constante. Primeiro, para expandir-se com a anexação de territórios e, depois, já no século XX, a conquista formal deu lugar à econômica.

Teóricos e políticos se deram ao luxo de falar em um período de “Pax Americana”, em alusão um tanto contraditória com a “Pax” do período em que o antigo Império Romano cessou suas guerras de expansão e fixou seus limites.

URSS

O período que se segue ao fim da URSS rasgou essa fantasia clássica. A visão de um domínio amparado em valores e no exemplo, sustentando uma prática comercial com vantagens para todos, mostrou toda sua falsidade.

Trata-se, na verdade, de uma ordem imposta por coerção e pesadas punições para os que se rebelam ou tão somente estão no caminho dos interesses econômicos materializados na máquina de guerra dos EUA.

Washington

Washington empreende um esforço contínuo para intervir nos demais Estados. Há ações de desestabilização, espionagem, cooptação de elites e do funcionalismo público, assassinatos, bombardeios, prisioneiros políticos…

A ausência de um norte-americano no governo direto de um país não diminui o poder de Washington e nem o caráter imperial desse poder. Na verdade, a cooptação dos agentes locais até o facilita. Quando ela falha, os EUA contam os minutos nos seus relógios de morte.

Pax

A ordem vendida como “Pax” é, na verdade, uma agressiva política expansionista e militarista; cada vez mais cega e deslumbrada com seu próprio poder. Seja nas idas e vindas entre as ameaças e promessas de paz com a Coreia do Norte; seja na artilharia voltada contra o Irã ou ainda seja, para que não esqueçamos; nas sanções e ameaças de intervenção contra a Venezuela; são muitos os relógios do “juízo final” que continuam pendurados nos braços das lideranças norte-americanas.

O próximo alvo iminente parece ser o Irã. Caberá aos demais Estados testar a força da diplomacia na contenção da sanha belicista de Washington.

Alexandre Ganan de Brites Figueiredo, é dvogado, bacharel em História e doutor em Integração da América Latina pelo PROLAM (Program de pós-graduação em Integração da América Latina) da Universidade de São Paulo (USP).

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