A contradição de Bush e Blair

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Publicado quinta-feira, 18 de novembro de 2004 as 10:08, por: CdB


Enquanto o povo palestino demonstrava, no funeral do seu maior líder, Yasser Arafat, o apoio, o carinho e a legitimidade que sempre lhe reservou – e que poucos líderes do mundo podem gozar, – os maiores lideres imperiais do mundo, Bush e Blair, com as mãos sujas de sangue pelo massacre de Falujah, declaravam que a morte do presidente da Autoridade Palestina representava “uma nova oportunidade”.

A expressão é significativa. O neoliberalismo substitui a palavra “direito” pela de “oportunidade”. Substitui o que a democracia e a esfera pública promovem pelo que o mercado oferece: do direito à oportunidade.

Mas, neste caso, os dois maiores chefes guerreiros do mundo “exigem democracia” na Palestina. Que democracia pode ensinar Bush, eleito pela minoria dos estadunidenses, reeleito com a campanha mais milionário da história mundial, em que foi escolhido por uma minoria dos eleitores para governar a maior potencia imperial do mundo? Que democracia pode ensinar Blair e seu cretinismo parlamentar, em que goza de apoio minoritário da opinião pública e ainda assim permanece no cargo a dez anos?

Que democratas são esses que tentam resolver os conflitos com bombardeios a populações civis? Que democratas são esses que não respeitam as identidades alheias, que querem exportar sua “democracia” a ponta de baionetas?

No momento da guerra dos boers, na África do Sul, Chesteton declarou-se partidário dos nacionalistas sul-africanos em nome do nacionalismo inglês. Quando foi acusado de traição, ele respondeu: “Eu sou nacionalista. Ser nacionalista não é apenas querer a própria nação, mas aceitar que os outros tenham a sua. Ser imperialista, em compensação é, em nome da sua nação, querer tirar a nação dos outros.”

O imperialismo se choca frontalmente com a democracia, dentro e fora de suas fronteiras. Para fazer seu país ser o quartel general da “guerra infinita”, Bush atenta contra os direitos elementares dos residentes nos EUA, violando seus direitos básicos – principalmente dos “suspeitos”: os de origem árabe, os negros, os estrangeiros em geral. Em nome da exportação da “democracia”, promove massacres, destrói os símbolos da cultura iraquiana, tentar liquidar a identidade palestina.

Em nome de que democracia falam? Até quando os democratas de todo o mundo permitirão que, enquanto massacram, “exijam” democracia? Querem a paz dos cemitérios que produzem em Falujah, para sobre ela construir sua “democracia”?

Os palestinos saberão responder, da forma que soberanamente escolherem, às suas necessidades, pisoteadas pela ocupação militar de Israel, sustentada pelas armas de Bush.

Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de “A vingança da História”.