A piada do ano: Jesus na goiabeira

Arquivado em: Arquivo CDB, Boletim, Destaque do Dia, Direto da Redação, Últimas Notícias
Publicado terça-feira, 18 de dezembro de 2018 as 07:56, por: CdB

O Brasil ensandeceu! Vocês se lembram quando os brasileiros contavam piadas de portugueses? Imaginem agora, não só os portugueses como todo mundo, argentinos inclusive, se cagando de rir do Brasil com a piada da goiabeira. Existe Deus? Por favor, Deus, me poupe essa vergonha internacional. Depois dessa não como mais goiaba, nem goiabada cascão, ela é o fruto proibido do Eden, o Brasil vai se engasgar com as sementes. Nota do Editor, Rui Martins.

Segue o belíssimo texto do sempre solerte Bessa Freire.
Por José Ribamar Bessa Freire, de Niterói:
Goiaba se tornou o fruto proibido no Brasil

O riso volta a ser censurado no Brasil, desta vez pelo presidente eleito Jair Bolsonaro incomodado com a gargalhada coletiva que explodiu nas redes sociais, provocada pelo vídeo em que a pastora Damares Alves descreve, em estado de transe, seu encontro presencial com Jesus debaixo de uma goiabeira no quintal de sua casa.

A parábola da goiabeira: Damares (18:5-6)

Que país é esse? / Terceiro mundo, se for / piada no exterior”…

(Renato Russo – Legião Urbana)

– “É surreal e extremamente vergonhoso ver setores da grande mídia debocharem do relato da futura ministra Damares Alves sobre a fé em Jesus Cristo, que a livrou de um suicídio desejado por conta de abusos sofridos na infância” – criticou Bolsonaro, falando já como chefe de estado.

A revista Globo Rural entendeu o recado, vestiu a carapuça e, obediente, deletou correndinho o post em sua página no twitter no qual, para promover o plantio da goiabeira sugeria, brincalhona, que “subir na árvore para ver Jesus pode ser perigoso” e recomendava, com seriedade, que “é melhor plantar a fruta”.

Marque com um x as três respostas certas:

“Surreal e vergonhoso” é:

a) O espetáculo delirante e estapafúrdio da pastora-ministra no vídeo exibido;

b) A gargalhada dos espectadores diante de discurso descosturado e irracional;

c) A censura à mídia feita por quem fala com a autoridade de chefe de estado;

d) A submissão à censura informal por parte de revista de circulação nacional.

A resposta exige um resumo prévio do ocorrido, buscando luzes nos evangelistas e na história.

Café pequeno

Corria o ano de 1974, com mudanças que abalaram o mundo. Em Portugal, a Revolução dos Cravos põe fim a uma ditadura de meio século. Nos Estados Unidos, o escândalo do Watergate derruba Nixon, o trapaceiro. Morrem dois presidentes: Perón, na Argentina e Pompidou, na França. No Brasil, troca de generais ditadores: sai Garrastazu, entra Geisel. Em Sergipe, uma menina de dez anos, Damares Regina Alves, que quatro anos antes havia sido molestada, sobe numa goiabeira no quintal da casa pastoral onde morava com seu pai, detrás da igreja, decidida a se suicidar, não enforcada, mas com veneno.

Por que precisa subir numa árvore para tomar veneno? Mistério. Mas no vídeo registrado em um culto evangélico, a futura ministra conta que sempre que se sentia mal, subia no pé de goiaba, nesse dia levou uma dose de veneno com ela:

– “Quando eu ia comer (sic) o veneno, vi Jesus se aproximando do pé de goiaba. Ele era tão lindo, tinha uma roupa comprida, uma barba comprida. Jesus Cristo começou a subir no pé de goiaba. Eu pensava na minha cabeça: NÃO SOBE JESUS, VOCÊ NÃO SABE SUBIR, VAI CAIR E SE MACHUCAR (…). Mas Jesus É TÃO PODEROSO, TÃO PODEROSO, que conseguiu subir no pé de goiaba sem cair. E ele foi para o galho onde eu estava. E lá, naquele galho, Jesus Cristo me deu o abraço que a igreja não deu. Tive uma revelação extraordinária. Quando vi Jesus, irmãos, esqueci o veneno. Não tomei o veneno” (Damares, 18: 5-6).

Aleluia!  Ela foi salva. Mas afinal, Jesus tinha tanto poder assim que era capaz de trepar em árvores sem cair? Vejamos: os exegetas do novo testamento asseguram que essa questão transcendental é abordada indiretamente por Lucas (13:6-9) e Mateus (24:32-33) em duas parábolas, não da goiabeira, que é nativa da América, mas da figueira, cultivada na Cisjordânia há mais de 10 mil anos. Curar leproso, cego, surdo, paralítico, hidrópico, transformar água em vinho, multiplicar pães, andar sobre as águas, restaurar orelha cortada, ressuscitar mortos – tudo isso é café pequeno. Até subir aos céus e se sentar à direita de Deus Pai. Quero ver é subir em goiabeira.

Araçá-das-almas

Jesus tirava de letra se fosse para subir na figueira estéril, sem frutos, da parábola narrada por Lucas ou na figueira, cujas folhas novas anunciavam a agonia da primavera, no relato de Mateus. Se os dois evangelistas duvidassem de tal capacidade, teriam explicitado isso. No entanto, quem trepa numa figueira não sobe necessariamente em pé de goiaba escorregadio conhecido como “araçá-das-almas”, cujo tronco tortuoso de casca lisa vive descamando. Daí ser procedente o assombro da pastora que não sabe que folha de goiaba cura diarreia de criança e diarreia mental de adultos.

Bolsonaro, porém, confunde alhos com bugalhos. Ninguém debocha da fé ou da violência que Dalmares sofreu na infância, mas do relato presepeiro dela que agride a nossa inteligência, de sua falta de jeito de contar uma história plausível. De qualquer forma, a presidência parece que tornou mais sensível aquele que, em setembro de 2015, em entrevista ao jornal Opção, declarava sobre a presidente Dilma:

– “Espero que o mandato dela acabe hoje, infartada ou com câncer de qualquer maneira”.

Menos de um ano depois, em abril de 2016, o mesmo Bolsonaro falava na rádio Jovem Pan que “o erro da ditadura foi torturar em vez de matar”. Ou ainda a violência contra a deputada Maria do Rosário, quando repetiu, em 2014, o que havia dito em 2003 na Câmara:

– “Eu falei que não ia estuprar você, porque você não merece”, o que foi considerado pelo ministro Luiz Fux, relator do caso no STF, como um “desprezo pelas vítimas de estupro, no sentido de que teriam sido violentadas porque mereceriam”.

Isso não era “surreal e vergonhoso” para o então deputado Bolsonaro e seus eleitores.

Parábola furada

Da mesma forma, os abusos padecidos na infância pela futura ministra da pasta de Mulher, Família e Direitos Humanos, não contribuíram para que ela se solidarizasse com Patrícia Lélis, de 23 anos, que a procurou em agosto de 2016 para denunciar o pastor Marcos Feliciano como estuprador. Em entrevista exclusiva à Viviane Ávila do Jornalistas Livres, Patrícia conta que a nova ministra dos Direitos Humanos tentou ocultar o estupro:

– “Desde o início ela (Damares) me pediu para não contar nada porque não poderíamos escandalizar a igreja. A cada ligação ela me perguntava se eu tinha contado ou mostrado as provas para alguém”.

As conversas entre as duas estão registradas no whatsapp, com acusações pesadas também ao pastor e senador Magno Malta, de quem Damares era assessora jurídica e que foi por ele indicada para ser ministra no governo Bolsonaro. Numa das mensagens, Damares deixa a vítima de estupro indignada quando escreveu: “Saiba que meu silêncio em relação a você é necessário (…) Não pude fazer nada na época por você senão orar”.

É essa a ministra escolhida para cuidar de temas como direitos humanos, família, índios, mulher e que declarou que “a igreja deve governar” o país. Ela vai orar por nós, lá de cima da goiabeira, porque é incapaz de escalar a “árvore da Ciência do Bem e do Mal” plantada no Jardim do Éden, segundo os capítulos iniciais do Gênesis.

Já Patrícia, que também subiu na goiabeira e foi vítima de estupro, não recebeu nenhum abraço solidário sequer de Damares, que no dia 30, em Brasília, lança seu livro “Jesus sobe no pé de goiaba”. Um amigo argentino me escreve perguntando se essa história é fake. Lá fora ninguém acredita que o Coiso escolheu essa Coisa para ministra. Respondo que é mais grave ainda: a escolha foi de 57 milhões de Coisos e Coisas, muitos vítimas de propaganda enganosa, alguns já arrependidos, que conferiram ao Coiso o poder para nomear a Coisa. Quanta vergonha! Acho que vou subir no pé de goiaba.

P.S. – Outra coisa me intriga: em que língua Damares falou com Cristo, se ela não domina o aramaico e se ele não falava o português, que em sua época nem existia. Isso sim, parece mais dificil do que subir em goiabeira.  Aguarde no próximo domingo: A língua falada em Belém.

José Ribamar Bessa Freire, professor da Pós-Graduação em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNI-Rio), onde orienta pesquisas de doutorado e mestrado e da Faculdade de Educação da UERJ, coordena o Programa de Estudos dos Povos Indigenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti. Tem mestrado em Paris e doutorado no Rio de Janeiro. É colunista do Direto da Redação.

Direto da Redação é um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *