A saia justa da esquerda do PT

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Publicado quinta-feira, 10 de abril de 2003 as 18:29, por: CdB

Os primeiros cem dias do governo Lula têm deixado muito gente surpresa – à direita e à esquerda. Basta ver a revista IstoÉ desta semana. Elas traz opiniões de cinco personalidades. De três delas ouvem-se elogios ao governo Lula; das outras duas, críticas. A surpresa fica por conta de quem elogiou e quem criticou.
Márcio Cypriano, presidente do maior banco privado do país, o Bradesco, afirma: “O governo Lula teve um início promissor”. O deputado Delfim Netto, que dispensa apresentações, vai pelo mesmo caminho: “Eu gostei”, sintetiza. Também o presidente da poderosa Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), Horácio Lafer Piva, mostra satisfação: “A política econômica adotada foi adequada à necessidade de construção da credibilidade do governo Lula”. A estes elogios poderiam ser agregados outros, como os do FMI ou do megaespeculador George Soros.

Já dois eleitores confessos de Lula e duros adversários da política de Malan-Fernando Henrique vão em sentido contrário e fazem críticas ao novo governo. O professor aposentado da USP Bautista Vidal diz: “Me parece a continuação daquela destruição que o Brasil estava sofrendo”. Por caminho semelhante vai o professor de economia da UFRJ Reinaldo Gonçalves: “Os juros altos são mortais e provocam descontrole das finanças públicas. É a mesma política do governo passado”.

Os argumentos do superministro Antônio Palocci para justificar a manutenção da política econômica de Malan-FHC e os aumentos dos juros e do superávit primário (este a um nível superior ao exigido pelo FMI), são os mesmos do governo anterior: “Esta política é a única possível. Só podemos baixar os juros depois que caírem o risco Brasil e a relação dívida/PIB”.

Ora, por grandes que tenham sido as demonstrações de apreço de FHC e Malan aos bancos, seria injustiça imaginar que os dois não gostariam de que, no futuro, os juros baixassem, o crescimento fosse retomado e o desemprego diminuísse. Só que o caminho seguido durante oito anos não levou a isso. Ao contrário. A cada aumento dos juros, cresceu a dívida. Que, mais adiante, exigiu mais aumento de juros para atrair o capital especulativo, receoso devido ao tamanho da dívida.
Para que tenha uma idéia deste efeito perverso, basta ver que o último aumento de um ponto percentual nos juros (para 26,5%) representará gastos de mais R$ 5 bilhões na rolagem da dívida. Isso equivale a quase três Fome Zero.

Mesmo a concessão feita pela maioria da direção do PT na sua última reunião, mês passado, aceitando numa resolução de apoio à política econômica de Palocci que ficasse caracterizado seu caráter transitório, soa como engodo. Afinal, essa mesma maioria ensaia (ainda que com certa timidez, diga-se) a defesa da autonomia para o Banco Central, “para acalmar o mercado financeiro”.
Ora, ou bem o mercado financeiro é trouxa e vai ser engabelado, ou o que se quer com a autonomia do BC é dar-lhe garantias reais de que a política monetária não vai mudar. Em outras palavras: mostrar-lhe que ela não tem nada de transitória.

E é preciso reconhecer: Palocci tem tido êxito em acalmar o mercado financeiro, dando-lhe segurança de que a política que lhe garante lucros astronômicos não será modificada. Só é de se estranhar que elogios de agências que orientam o capital especulativo sejam vistos como verdades absolutas pelos condutores da política econômica, embevecidos com esse tipo de atestado de boa conduta.
Por sinal, merece o Prêmio Nobel da Ingenuidade quem imaginar que um

BC autônomo, sob o comando de pessoas como Henrique Meirelles, terá qualquer compromisso com objetivos como crescimento econômico e combate ao desemprego. ainda que tais compromissos devessem estar presentes na política de um governo de centro-esquerda. É claro que, ao contrário, o papel do BC nessas condições estará limitado ao de “guardião da moeda”, preocupado tão-somente com as metas de inflação (que se tentaria alcançar mediante o aumento dos juros).
Essa situação deixa o setor mais à es