Se acordo Mercosul/UE for para o ralo, culpem o Brasil, avalia especialista

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Publicado domingo, 5 de julho de 2020 as 16:14, por: CdB

Ariane Roder, professora na área de Relações Internacionais, avalia que o acordo Mercosul-UE representou o fim de anos de inércia, mas agora pesa o risco de que não seja ratificado devido a fatores internos e externos à América do Sul.

Por Redação, com Sputnik Brasil – do Rio de Janeiro

Um dos feitos mais comemorados no governo Bolsonaro, o acordo Mercosul-União Europeia segue imerso em incertezas. Líderes do Mercosul participaram, na semana passada, de uma inédita reunião virtual, na qual discutiram temas como divergências internas sobre comércio, a pandemia da covid-19 e o acordo econômico com a União Europeia.

Bolsonaro disse que nomeou Ernesto Araújo por sua vida pregressa no Serviço Público
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Ariane Roder, professora na área de Relações Internacionais do Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro (COPPEAD/UFRJ), avalia que o acordo Mercosul-UE representou o fim de anos de inércia, mas agora pesa o risco de que não seja ratificado devido a fatores internos e externos à América do Sul. Até agora, ao menos três parlamentos europeus – Áustria, Países Baixos e o da região da Valônia, na Bélgica – já anunciaram posição contrária ao acordo.

— O governo Bolsonaro conseguiu no ano passado fechar esse acordo, mas agora encontra muita resistência, seja do lado europeu, seja em aspectos envolvendo a atual trama política no Mercosul — afirmou Roder, em entrevista à agência russa de notícias Sputnik Brasil, publicada neste domingo.

Relutância

O acordo, que levou 20 anos para ser fechado, precisa ser ratificado em cada um dos países dos blocos. Essa condição tem apresentado dificuldades de ser alcançada em relação ao Brasil devido à gestão ambiental no governo do presidente brasileiro Jair Bolsonaro. Até hoje, passados quase 20 meses desde o início de sua posse, o mandatário neofascista ainda não foi recebido por qualquer de seus colegas europeus.

— Essa posição diplomática brasileira tem afetado as relações do Brasil com alguns países da União Europeia tais como França, Holanda entre  outros, que enxergam na consecução desse acordo uma forma de pressionar o Brasil para uma mudança no ângulo de visão, sobretudo, sobre a forma de lidar com a Amazônia e com os nativos locais (povos  indígenas). Assim também há uma pressão por parte de organizações da sociedade civil europeia para interromper o acordo — pontuou Roder.

Em 2019, o Brasil sofreu desgaste internacional devido ao crescimento de queimadas na Amazônia, parte de um contexto classificado pela pesquisadora da UFRJ como de “mudanças bruscas” na política para o meio ambiente.

— A agenda ambiental brasileira vem sofrendo mudanças bruscas, saindo de uma posição proativa no engajamento da pauta da sustentabilidade, para uma postura negacionista em relação a diversos temas dessa agenda e também de uma decisão de afastamento e relutância dos foros multilaterais que versam e decidem sobre o assunto — aponta.

Dinâmica

A nova política ambiental brasileira tornou-se aliada do interesse de produtores rurais europeus, que se articulam para criticar o Brasil e proteger seus produtos da competição com o setor agrícola brasileiro, avalia a pesquisadora.

Para além da relação com os europeus, há também diferenças a serem resolvidas dentro do próprio Mercosul. Roder aponta que nesse âmbito o que mais preocupa é a relação entre as duas maiores economias do bloco, Brasil e Argentina, cujos presidentes, Bolsonaro e Alberto Fernández, mantêm conhecidas diferenças políticas.

— Assim, embora em reunião conjunta os presidentes Bolsonaro e Fernández tenham adotado uma postura mais amistosa quando comparada a situações anteriores e de abertura ao diálogo pragmático, sabe-se que há divergências não apenas de cunho ideológico entre ambos, mas na própria dinâmica e futuro esperado para o bloco — avalia.

Sabujice

A economista Mônica de Bolle, que vive nos Estados Unidos e leciona na universidade Johns Hopkins, segue na linha de Roder e também condena o que chamou de “demonstração de sabujice do chanceler Ernesto Araújo”. Ele publicou uma foto na qual celebra a independência dos Estados Unidos, ao lado do deputado federal Eduardo Bolsonaro, filho do presidente, e os ministros Braga Netto (Casa Civil), Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo) e Fernando Azevedo (Defesa).

Acompanhado de ministros do governo, Jair Bolsonaro almoçou com o embaixador dos Estados Unidos no Brasil, Todd Chapman, na casa do diplomata, para celebrar a Independência dos EUA, comemorada neste sábado, 4 de julho.

Araújo divulgou a imagem com o comentário: “Na Embaixada dos EUA, celebrando o 4 de julho, dia da independência (norte-)americana”.

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