Adeus Mário Augusto Jakobskind

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Publicado sexta-feira, 5 de outubro de 2018 as 10:33, por: CdB

Não conheci pessoalmente nosso colunista Mário Augusto Jakobskind, que eu chamava de Jakobs nos emails. Quando nosso editor fundador do Direto da Redação, editado nessa época em Miami, o já falecido Eliakim Araújo, decidiu se aposentar, restavam seis colunistas, todos eles benévolos. Entre eles eu, Jakobs e o escritor Urariano. Eliakim sugeriu que um de nós poderia continuar com o mesmo nome Direto da Redação. Jakobs e Urariano me escolheram, mas havia um problema, além de escrevermos de graça teríamos de pagar um informático e um site. Já estávamos desistindo de continuar quando veio a ideia de consultar o editor-chefe do Correio do Brasil, Gilberto de Souza, com o qual eu colaborava, e assim ganhamos um espaço, um destaque, dentro da linha fixada por Eliakim – sem censura, cada um podia escrever sua opinião, mesmo se houvesse conflito de ideias com os outros colunistas.

Morreu nosso colunista mas suas mensagens permanecem

O princípio é salutar mas nem sempre fácil de manter. A nova equipe começou com nós três e juntei novos colunistas. A indicação de Dilma Rousseff para a reeleição, em 2014, provocou divisões e Urariano deixou o Direto da Redação. Mas Mário Augusto Jakobskind permaneceu. E eu sempre o admirei por isso. Não é nenhum segredo que a esquerda brasileira, que já tivera rachas importantes, sofreu novas divisões, embora o grupo maior continue sempre o PT.

O Direto da Redação sempre se esforçou para garantir uma tribuna livre , capaz de espelhar as diversas interpretações da nossa realidade política. Mário Augusto Jakobskind sempre foi fiel às suas convicções petistas e sempre seus textos foram publicados com o mesmo destaque das outras colunas, porque acreditamos que o debate só pode fortalecer a democracia. Ainda na última semana, Jakobs ficou diversos dias com sua coluna em destaque, na luta que mantinha contra a nova direção da Associação Brasileira da Imprensa.

Sabíamos que, depois do primeiro turno, Jakobs nos enviaria, sem dúvida, seus comentários sobre os resultados e seu espaço estava reservado. Infelizmente Jakobs não vai votar e nem comentar, porém, sabemos que se divergências surgissem na interpretação, estaríamos todos juntos no combate jornalístico para evitar ao Brasil o retrocesso e a chegada ao poder do candidato da extrema-direita. Obrigado caro Jakobs por ter se mantido nosso colaborador e provado que o pensamento de esquerda deve ser livre e plural.

Rui Martins, editor do Direto da Redação no Correio do Brasil.

A seguir a homenaagem que lhe prestou o jornal Brasil de Fato, com sua última coluna publicada nesse mesmo jornal.

Carioca da gema, Mário Augusto faria 75 anos no próximo dia 16 de outubro - Créditos: Agência Brasil

                    Carioca da gema, Mário Augusto faria 75 anos no próximo dia 16 de outubro / Agência Brasil

O jornalista Mário Augusto Jakobskind faleceu na manhã desta quinta-feira (4), no Rio de Janeiro. Com extensa e importante carreira dedicada ao jornalismo e às lutas sociais, Mário Augusto integrava, desde 2003, o conselho político e editorial do jornal Brasil de Fato, além de ser colunista e grande entusiasta do veículo. Seu velório acontece nesta sexta-feira (5), a partir das 10h, na Capela 1 do Cemitério São João Batista, em Botafogo, no Rio de Janeiro.

Carioca da gema, Mário Augusto faria 75 anos no próximo dia 16 de outubro. Sua vida perpassa por momentos singulares da história do país e sua experiência como historiador e jornalista é difícil de ser resumida em poucas linhas. Ao longo da carreira, ele passou pela redação de diversos jornais e agências de notícias, como a France Presse, em que foi redator, a Folha de S. Paulo, do qual foi repórter da sucursal do Rio de Janeiro, e a Tribuna da Imprensa, na qual trabalhou como editor de internacional. Chegou a colaborar ainda com o Pasquim, jornal referência da resistência à Ditadura Militar, do qual se orgulhava de ter integrado a equipe.

Jakobskind transformou sua profissão em trincheira de luta para militar, de forma incansável, pela difusão de informações sobre a América Latina em uma perspectiva de união dos povos e pela soberania da região.  Por conta desta relação, trabalhou na Agência Cubana de Notícias, em Cuba, e atuou como editor da Revista Versus, a primeira publicação de caráter latinoamericano publicada no Brasil. Em nota, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) lembrou de sua contribuição na construção do “sistema de comunicação do Brasil de Fato”.

Mário Augusto ainda escreveu diversos livros, entre eles, os títulos “A hora do terceiro mundo”, publicado em 1982,  e o mais recente “América que não está na mídia”, de 2005. Também travou luta sindical na Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e no Sindicato dos Jornalistas do Rio de Janeiro (Sindijor-RJ). Integrou ainda o Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), extinto após o golpe de 2016.

Por onde passou, Mário Augusto deixou como marca a vitalidade e a energia com que se dedicava às lutas sociais e a comunicação. Grande entusiasta do projeto do Brasil de Fato, Mário Augusto chegava  escrever mais de um artigo por dia para o espaço dedicado a sua coluna neste site. Por isso, nos despedimos com seu último texto escrito, poucas horas antes de falecer.

Mário Augusto Jakobskind: presente, presente, presente. Edição Mariane Pitasse  (Publicado originalmente no jornal Brasil de Fato).

Segue a última coluna de nosso colega Mário Augusto Jakobskind, publicada ainda ontem no jornal Brasil de Fato.

No Rio, escola católica censura livro sobre a Ditadura

Livro Meninos Sem Pátria foi censurado no Colégio Santo Agostinho - Créditos: Foto: reprodução
Livro Meninos Sem Pátria foi censurado no Colégio Santo Agostinho / Foto: reprodução

Realmente é lamentável o que aconteceu e dá bem a ideia do clima atual no Brasil

Um dos maiores absurdos dos últimos tempos no Brasil ocorreu no Rio de Janeiro, quando pais de alunos do Colégio Santo Agostinho, no bairro do Leblon, decidiram censurar um livro e impedir que os filhos seguissem tendo acesso ao Meninos Sem Pária de autoria de Luiz Puntel com a alegação de que se trata de uma literatura comunista.

Os pais simplesmente ignoram a história brasileira e o que representou a vida de exilados e seus filhos na época da ditadura empresarial militar. O autor se baseou na história do jornalista José Maria Rabelo e sua família, que teve de deixar o país após a deflagração do golpe empresarial militar de abril de 1964, porque o seu jornal, Binômio, publicava informações que desagradavam os golpistas de então.

O Binômio na verdade pode ser catalogado como antecessor dos atuais blogs encontrados na internet. Os pais possivelmente não leram a publicação de Puntel que conta a história de adolescentes brasileiros que viviam longe de sua pátria e só retornaram com a decretação da anistia.

O livro, inclusive, conta a história dos jovens e seu amor pela pátria que estavam afastados e foram obrigados, em companhia dos pais, a deixá-la, inicialmente em direção à Bolívia, depois para o Chile e em seguida para a França, onde se estabeleceram e depois retornaram à pátria amada.

Aí, então, os filhos de Rabelo se uniram com outros brasileiros na mesma situação com o claro objetivo de ‘cultuar’ o país que estavam afastados. Chegaram até a ser mencionados no jornal Le Monde, que os pais censores em sua ignorância devem considerar comunista.

É esse o tema do livro que os pais iletrados decidiram que o colégio tirasse de circulação e que vem sendo adotado, sem problemas, em diversos colégios, até mesmo na época dos estertores da ditadura nos anos 80.

A direção do Colégio Santo Agostinho aceitou, sem pestanejar, o pedido absurdo dos pais e simplesmente não deu nenhuma satisfação, inclusive aos pais que acharam também absurda a decisão. Provavelmente o colégio temia perder os alunos, ou seja, uma mensalidade paga pelos pais censores.

Realmente é lamentável o que aconteceu e dá bem a ideia do clima atual no Brasil em que o mercado e uma parte da mídia comercial dá apoio ao fascismo representado pela candidatura de Jair Bolsonaro.

Uma reportagem investigativa poderia levar a opinião pública a confirmar se os pais censores são adeptos de Bolsonaro consequentemente  do fascismo. O que não seria nenhuma surpresa. Jovens como os filhos de exilados terem amor à pátria que estavam afastados deve merecer, isso sim, o conhecimento dos brasileiros e brasileiras. Deve servir também de alerta o que representa para o país uma eventual ascensão do fascismo.

Os pais censores deveriam conhecer a história, como, por exemplo, a ascensão de Hitler na Alemanha e Mussolini na Itália.

E que o Brasil não padeça do mesmo pesadelo histórico.

*Esta foi a última coluna escrita por Mário Augusto Jakobskind. O jornalista, que integrava há 15 anos o conselho político e editorial do jornal Brasil de Fato, faleceu na manhã desta quinta-feira (4), no Rio de Janeiro.

Edição: Jaqueline Deister

Mário Augusto Jakobskind, é Professor, Jornalista, Escritor, vice-presidente na Chapa Villa- Lobos, arbitrariamente impedida de concorrer à direção da ABI (2016/2019) e Coordenador de História do IDEA, Programa de TV transmitido pela Unitevê – Canal Universitário de Niterói. Foi também membros do Conselho de Administração da EBC – TV Brasil.

Direto da Redação é um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins.

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