África: o que você precisa saber sobre o novo surto de ebola 

Arquivado em: Destaque do Dia, Saúde, Últimas Notícias, Vida & Estilo
Publicado quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021 as 13:22, por: CdB

Pouco mais de cinco anos depois de ser declarado um território livre do ebola, a Guiné, na África Ocidental, declarou no último dia 14 uma “situação epidêmica” após um novo surto da doença causar pelo menos sete casos e três mortes.

Por Redação, com DW – de Genebra

Pouco mais de cinco anos depois de ser declarado um território livre do ebola, a Guiné, na África Ocidental, declarou no último dia 14 uma “situação epidêmica” após um novo surto da doença causar pelo menos sete casos e três mortes.

Entre 2013-2016, a África Ocidental viveu o pior surto de ebola já registrado no mundo, com mais de 11,3 mil mortos

Os novos casos marcam o primeiro ressurgimento conhecido da doença no país desde a epidemia de 2013-2016, que matou mais de 11, 3 mil pessoas em várias nações da África Ocidental, no pior surto de ebola já registrado no mundo.

Embora a pandemia de coronavírus tenha limitado a disponibilidade de recursos de saúde em todo o mundo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) está enviando vacinas recém-desenvolvidas para a Guiné para ajudar a conter o surto, e também montando infraestrutura para realizar testes, rastreamento de contratos e tratamento.

Como surgiu o novo surto?

A origem exata da infecção original é desconhecida, mas as autoridades de saúde da Guiné rastrearam o surto até o funeral de uma enfermeira no início de fevereiro em Goueké, perto da cidade de Zerecoré, no sudeste do país.

Todos os sete infectados compareceram ao funeral. Eles posteriormente relataram sintomas de diarreia, vômitos e sangramento. Pelo menos três dessas pessoas morreram. As outras permanecem internadas.

Na África Ocidental, funerais tradicionais costumam ser palco de cerimônias comunitárias onde os presentes ajudam a lavar o corpo do morto. Isso pode ser especialmente perigoso se o cadáver estiver infectado com ebola. O período de incubação da doença pode durar de dois dias a três semanas.

O surto na Guiné ocorre uma semana depois de a República Democrática do Congo (RDC) ter confirmado duas mortes por ebola, três meses depois de a nação centro-africana ter declarado o fim de uma epidemia que se estendeu por cerca de meio ano em 2020, e que ceifou 55 vidas entre 130 casos de infecção. Até o momento, os casos na Guiné e no Congo não parecem estar relacionados.

O que é o ebola?

Ebola é uma doença zoonótica que passa para humanos a partir de animais infectados, como morcegos frugívoros, chimpanzés e antílopes, por meio do contato direto com fluidos corporais, órgãos e sangue, ou indiretamente por contato com áreas contaminadas. Estudos demonstraram que algumas espécies de morcegos frugívoros, em particular, podem abrigar o ebola.

Pessoas infectadas podem apresentar febre, dores musculares, dor de garganta, diarreia, vômitos e sangramento tanto interna quanto externamente. Elas geralmente morrem de desidratação ou falência múltipla de órgãos. A doença é altamente contagiosa e tem uma alta taxa de mortalidade, mas, ao contrário da covid-19, os pacientes apresentam sintomas explícitos e imediatos que tornam a doença muito mais fácil de rastrear.

Especialistas rastrearam o surto de 2014 até morcegos que viviam em uma árvore oca onde crianças brincavam em uma parte remota da Guiné. A primeira vítima identificada foi um menino de 18 meses.

O vírus do ebola foi identificado pela primeira vez em em 1976 no antigo Zaire, atual República Democrática do Congo.

Vacinas podem ajudar?

Em resposta à epidemia de ebola de 2014-2016, várias vacinas foram desenvolvidas e testadas e têm sido usadas com sucesso para impedir surtos na República Democrática do Congo.

A principal vacina usada contra o ebola é a Ervebo, fabricada pela farmacêutica Merck. Ela consiste numa injeção de dose única. O armazenamento demanda uma câmara resfriada a cerca de -80°C, quatro vezes mais fria do que um freezer doméstico.

A vacina Ervebo foi testada pela primeira vez na Guiné em 2015. Trata-se de um imunizante com vírus atenuado que foi geneticamente modificado para conter uma proteína do vírus do ebola do Zaire. Cerca de 16 mil pessoas já receberam a vacina Ervebo na Guiné, e cerca de 350 mil na RDC.

Outra vacina autorizada para uso contra o ebola é a da Johnson & Johnson, chamada Zabdeno, que requer duas doses com 56 dias de intervalo e, portanto, tende a ser mais difícil de administrar em cenários de emergência.

Em janeiro de 2021, a OMS disse que estava criando um estoque de emergência de 500 mil doses da vacina da Merck, mas apenas 7 mil estavam disponíveis no início do ano.

– A OMS está em alerta máximo e em contato com o fabricante para garantir que as doses necessárias sejam disponibilizadas o mais rápido possível para ajudar na luta – disse Alfred George Ki-Zerbo, representante da OMS na Guiné.

A Guiné e as vizinhas Libéria e Serra Leoa têm uma população combinada de 22,5 milhões de habitantes, o que levanta algumas preocupações de que os fabricantes possam ter dificuldades para produzir doses suficientes de vacina – especialmente numa época em que as vacinas contra o coronavírus são consideradas prioridade.

Como podemos impedir os surtos?

Especialistas dizem que a contenção é a chave para combater a doença. Uma razão que explica por que o surto anterior foi tão mortal e duradouro foi porque ele não foi detectado imediatamente. A resposta das autoridades de saúde também foi lenta.

Desta vez, as autoridades de saúde estão trabalhando para rastrear todos os contatos, isolar todos os casos suspeitos e administrar as vacinas da OMS o mais rápido possível, disse o ministro da saúde da Guiné em comunicado.

As vizinhas Libéria e Serra Leoa já foram colocadas em alerta máximo por precaução, apesar de ainda não terem registrado nenhuma infecção.

As práticas tradicionais de sepultamento e o consumo contínuo de carne de caça têm sido frequentemente questionados em discussões sobre a melhor forma de eliminar as infecções por ebola.

Pesquisas anteriores mostraram que a criminalização da carne de caça como estratégia de prevenção pode alimentar a desconfiança em relação aos alertas de saúde pública. Este é particularmente o caso em comunidades que lutam contra os efeitos econômicos e sociais dos últimos surtos do ebola. Há também o risco de que a caça prossiga de maneira clandestina, dificultando o controle.

Embora o risco de transmissão entre animais e humanos, ao contrário de pessoa para pessoa, seja comparativamente baixo, especialistas alertam que o avanço da presença humana em ecossistemas selvagens vem aumentando o risco de novos surtos de doenças, como o mundo já testemunhou com a pandemia de coronavírus.